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quinta-feira, 6 de junho de 2013

CONTO: O ciclista de Dalton Trevisan

O ciclista

Curvado no guidão lá vai ele numa chispa. Na esquina dá com o sinal vermelho e não se perturba – levanta vôo bem na cara do guarda crucificado. No labirinto urbano persegue a morte como trim-trim da campainha: entrega sem derreter sorvete a domicílio.
É sua lâmpada de Aladino a bicicleta e, ao sentar-se no selim, liberta o gênio acorrentado ao pedal. Indefeso homem, frágil máquina, arremete impávido colosso, desvia de fininho o poste e o caminhão; o ciclista por muito favor derrubou o boné.
Atropela gentilmente e, vespa furiosa que morde, ei-lo defunto ao perder o ferrão. Guerreiros inimigos trituram com chio de pneus o seu diáfono esqueleto. Se não se estrebucha ali mesmo, bate o pó da roupa e – uma perna mais curta – foge por entre nuvens, a bicicleta no ombro.
Opõe o peito magro ao pára-choque do ônibus. Salta a poça d´água no asfalto. Nem só corpo, touro e toureiro, golpeia ferido o ar nos cornos do guidão.
Ao fim do dia, José guarda no canto da casa o pássaro de viagem. Enfrenta o sono trim-trim a pé e, na primeira esquina, avança pelo céu na contramão, trim-trim.
(Dalton Trevisan)

ATIVIDADES:

1- O conto é exemplo da prosa urbana da literatura contemporânea. Explique por quê.

2- A linguagem do conto é figurada. Explique as seguintes expressões:
a) “ Lâmpada de Aladino”_________________________________________
b) “...touro e toureiro,golpeia ferido o ar nos cornos do guidão.”__________________________________________________________

3- Dê uma interpretação `a última frase do conto.

4- Na expressão: “... levanta vôo bem na cara do guarda crucificado”.A expressão grifada está corretamente interpretada em:
(A) O guarda está descontente com o trânsito.
(B) O guarda abre os braços para expressar o caos do trânsito.
(C) O guarda sente-se explorado ao exercer sua função.
(D) O guarda fica de braços abertos para impedir o ciclista de ultrapassar o sinal.
(E) N.D.A.

5- O tratamento dispensado ao ciclista no trânsito da cidade grande está bem representado em:
(A) “Enfrenta o sono trim-trim.”
(B) “Guerreiros inimigos trituram com chio de pneus o seu diáfano esqueleto”.
(C) “Curvado no guidão lá vai ele numa chispa”.
(D) “...golpeia ferido o ar nos cornos do guidão”.
(E) “...desvia de fininho o poste e o caminhão;”

domingo, 8 de julho de 2012

O anão e o príncipe



Texto II, para responder a questão 1

O anão e o príncipe 


Aproveitei os feriados da semana passada para curtir algumas releituras que há muito vinha adiando. Não chegou a ser um fato heroico em minha biografia: choveu nesses dias dedicados a Tiradentes e à Consciência Negra. 

Com chuva, o Rio é uma cidade como outra qualquer: não se tem muita coisa a fazer. O melhor mesmo é aproveitar o tempo ― que de repente fica enorme e custa a passar ― em revisitar os primeiros deslumbramentos, buscando no passado um aumento de pressão nas caldeiras fatigadas que poderão me levar adiante ― embora isso não me adiante muito. 

De qualquer forma, é uma força que se busca e que não depende da generosidade de ninguém. Tranquei-me no escritório, desliguei computador, telefone e campainha e reli, ao todo, de uma só tirada, quatro livros que há muito me prometera reler todos os anos. 

Leituras antigas, de um tempo em que estava longe a ideia de um dia escrever um livro. Bem verdade que, às vezes, vinha a tentação de botar para fora alguma coisa, sem confessar isso a ninguém, eu me julgava um projeto de escritor, mas sem fanatismo, e desde que não precisasse botar os bofes para fora. 

Carlos Heitor Cony. 


QUESTÃO 1

Considerando o texto II, julgue os itens a seguir, assinalando (V) para os verdadeiros e (F) para os falsos. 

0.( ) As palavras “heroico” (linha 3) e “ideia” (linha 18), de acordo com a nova reforma ortográfica, não estão grafadas corretamente, pois não apresentam o acento agudo. 

1.( ) A expressão conotativa “desde que não precisasse botar os bofes para fora” (linhas 21 e 22 ) significa que o autor tinha como projeto ser um escritor, mas não gostaria de se cansar demais trabalhando. 

2.( ) O texto de Cony é literário porque apresenta a função poética como predominante e o foco narrativo em terceira pessoa, tendo o próprio narrador como personagem principal. 

3.( ) As expressões “releituras” (linha 2), “revisitar” (linha 8), “buscando no passado” (linha 9) e “Leituras antigas” (linha 17) deixam claro que os quatro livros que o narrador pretende ler já foram obras lidas por ele no passado. 

4.( ) A conclusão a que chega o narrador é que não se deve peregrinar através da narrativa e nem se defrontar com o passado.

Análise do conto: Apelo

Leia o texto a seguir e responda ao que se pede.

Apelo
Dalton Trevisan

Amanhã faz um mês que a Senhora está longe de casa. Primeiros dias, para dizer a verdade, não senti falta, bom chegar tarde, esquecido na conversa de esquina. Não foi ausência por uma semana: o batom ainda no lenço, o prato na mesa por engano, a imagem de relance no espelho.

Com os dias, Senhora, o leite primeira vez coalhou. A notícia de sua perda veio aos poucos: a pilha de jornais ali no chão, ninguém os guardou debaixo da escada. Toda a casa era um corredor deserto, até o canário ficou mudo. Não dar parte de fraco, ah, Senhora, fui beber com os amigos. Uma hora da noite eles se iam. Ficava só, sem o perdão de sua presença, última luz na varanda, a todas as aflições do dia.

Sentia falta da pequena briga pelo sal no tomate — meu jeito de querer bem. Acaso é saudade, Senhora? Às suas violetas, na janela, não lhes poupei água e elas murcham. Não tenho botão na camisa. Calço a meia furada. Que fim levou o saca-rolha? Nenhum de nós sabe, sem a Senhora, conversar com os outros: bocas raivosas mastigando. Venha para casa, Senhora, por favor. 


a) Identifique e escreva qual é o tema do conto, o tipo de narrador e o espaço (ou espaços) em que se passa a ação. 


b) Em relação à compreensão do conto, discorra sobre as relações que podem ser estabelecidas entre o tema, o tipo de narrador e o espaço (ou espaços) em que se passa a ação.

Análise do conto: Continuidade dos parques


Continuidade dos parques

Havia começado a ler o romance uns dias antes. Abandonou-o por negócios urgentes, voltou a abri-lo quando regressava de trem à chácara; deixava interessar-se lentamente pela trama, pelo desenho dos personagens. Essa tarde, depois de escrever uma carta ao caseiro e discutir com o mordomo uma questão de uns aluguéis, voltou ao livro com a tranquilidade do gabinete que dava para o parque dos carvalhos. Esticado na poltrona favorita, de costas para a porta que o teria incomodado como uma irritante possibilidade de intrusões, deixou que sua mão esquerda acariciasse uma e outra vez o veludo verde e começou a ler os últimos capítulos. Sua memória retinha sem esforço os nomes e as imagens dos protagonistas; a ilusão romanesca ganhou-o quase imediatamente. Gozava do prazer quase perverso de ir descolando-se linha a linha daquilo que o rodeava e de sentir ao mesmo tempo que sua cabeça descansava comodamente no veludo do alto encosto, que os cigarros continuavam ao alcance da mão, que mais além das janelas dançava o ar do entardecer sob os carvalhos. Palavra a palavra, absorvido pela sórdida disjuntiva dos heróis, deixando-se ir até as imagens que se combinavam e adquiriam cor e movimento, foi testemunha do último encontro na cabana do monte.

Antes entrava a mulher, receosa; agora chegava o amante, com a cara machucada pela chicotada de um galho. Admiravelmente ela fazia estalar o sangue com seus beijos, mas ele recusava as carícias, não tinha vindo para repetir as cerimônias de uma paixão secreta, protegida por um mundo de folhas secas e caminhos furtivos. O punhal se amornava contra seu peito e por baixo gritava a liberdade refugiada. Um diálogo desejante corria pelas páginas como riacho de serpentes e sentia-se que tudo estava decidido desde sempre. Até essas carícias que enredavam o corpo do amante como que querendo retê-lo e dissuadi-lo desenhavam ame a figura de outro corpo que era necessário destruir. Nada havia sido esquecido: álibis, acasos, possíveis erros. A partir dessa hora cada instante tinha seu emprego minuciosamente atribuído. O duplo repasso sem dó nem piedade interrompia-se apenas para que uma mão acariciasse uma bochecha. Começava a anoitecer.

Já sem se olharem, atados rigidamente à tarefa que os esperava, separaram-se na porta da cabana. Ela devia continuar pelo caminho que ia ao norte. Da direção oposta ele virou um instante para vê-la correr com o cabelo solto. Correu, por sua vez, apoiando-se nas árvores e nas cercas, até distinguir na bruma do crepúsculo a alameda que levava à casa. Os cachorros não deviam latir e não latiram. O mordomo não estaria a essa hora, e não estava. Subiu os três degraus da varanda e entrou. Do sangue galopando nos seus ouvidos chegavam-lhe as palavras da mulher: primeiro uma sala azul, depois uma galeria, uma escada carpetada. No alto, duas portas. Ninguém no primeiro quarto, ninguém no segundo. A porta do salão, e depois o punhal na mão, a luz das janelas, o alto encosto de uma poltrona de veludo verde, a cabeça do homem na poltrona lendo um romance.
Relato publicado no segundo volume de contos de Júlio Cortázar, Las armas secretas (1956). 

  
A narrativa de ficção 

1. Todo texto narrativo, se constrói a partir da presença de alguns elementos básicos: narrador, personagens, cenário, tempo e enredo.
a) Quem conta a história em “Continuidade dos parques”?
b) Quais são as personagens envolvidas na história? Como elas são caracterizadas?
c) O texto apresenta dois cenários. Quais são eles? O que se descobre sobre o primeiro cenário no final da história?
d) Em que intervalo de tempo a história se passa?
e) Há no texto, um acontecimento que desencadeia a ação final. Qual é ele?

2. No conto, há duas histórias narradas: a do fazendeiro-leitor e a dos amantes. Uma reflete a outra, e as duas histórias terminam por se entrelaçar. Explique como o trabalho de construção de cenário, das personagens e do enredo ajuda a promover esse efeito.

3. Após a leitura do conto, podemos afirmar que a primeira pista que Cortázar nos fornece sobre o caráter fantástico de sua narrativa é o título da história. Por quê?

4. A literatura e as demais formas de arte podem levar o ser humano a refletir sobre as angústias e alegrias da própria existência. A leitura do conto nos ajudaria a compreender melhor a realidade? Por quê?

sábado, 7 de julho de 2012

Você sabe qual é a diferença entre chatear e encher?



Leia a crônica de Paulo Mendes Campos e responda às questões 1 e 2

Chatear e encher
Um amigo meu me ensina a diferença entre chatear e encher. Chatear é assim: você telefona para um escritório qualquer da cidade. 
- Alô! Quer chamar por favor o Valdemar?

- Aqui não tem nenhum Valdemar.

Daí alguns minutos você liga de novo:

- O Valdemar, por obséquio.

- Cavalheiro, aqui não trabalha nenhum Valdemar.

- Mas não é o número tal?

- É, mas aqui nunca teve nenhum Valdemar.

Mais cinco minutos, você liga o mesmo número:

- Por favor, o Valdemar já chegou?

- Vê se te manca, palhaço. Já não lhe disse que o diabo do Valdemar nunca trabalhou aqui?

- Mas ele mesmo me disse que trabalhava aí.

- Não chateia.

Daí a dez minutos, liga de novo.

- Escute uma coisa! O Valdemar não deixou pelo menos um recado?

O outro desta vez esquece a presença da datilógrafa e diz coisas impublicáveis.

Até aqui é chatear. Para encher, espere passar mais dez minutos, faça nova ligação:

- Alô! Quem fala? Quem fala aqui é o Valdemar. Alguém telefonou para mim?
(Para gostar de ler. Vol. 5. São Paulo: Ática, 1990.)


Questão 1

Na crônica são construídas relações envolvendo narrador e personagens. Sobre o assunto, assinale a afirmativa correta.

A) A fala – É, mas aqui nunca teve nenhum Valdemar. sinaliza o início da perda de paciência da pessoa que atende ao telefone.

B) Desde o início do texto, a pessoa que telefona mostra-se irritada com quem fala.

C) O uso do artigo o antes de Valdemar revela o distanciamento entre Valdemar e a pessoa que o procura.

D) O autor cria uma relação lúdica entre Valdemar e os funcionários do escritório.

E) A presença da datilógrafa é motivo para que o funcionário que atende ao telefone mantenha, durante a conversa, comportamento polido.

Questão 2

Sobre a linguagem utilizada por Paulo Mendes Campos, assinale a afirmativa correta.

A) A crescente irritação do funcionário que atende ao telefone é percebida pelos impropérios proferidos ao longo da conversa.

B) Os dêiticos aqui (linhas 4, 7, 9, 12 e 19) e aí (linha 13) são entendidos pelo leitor por referenciarem lugares em que estão os participantes do diálogo.

C) O texto traz vocábulos e expressões caracteristicamente regionais: por obséquio; datilógrafa; cavalheiro; Vê se te manca, palhaço.

D) A linguagem utilizada no texto é predominantemente formal, adequada a um diálogo entre desconhecidos.

E) A fala – Aqui não tem nenhum Valdemar., reescrita na modalidade escrita padrão, fica: Nesse escritório, não tem Valdemar.

domingo, 20 de novembro de 2011

Ponto de vista - Solar dos príncipes

A literatura contemporânea tem abordado em tom mais incisivo a questão do preconceito. Vamos ler um conto de Marcelino Freire a esse respeito. Se é comum os brancos irem até uma favela e filmarem as coisas de lá, imagine se acontecesse o contrário:


 Solar dos príncipes


Quatro negros e uma negra pararam na frente deste prédio.


A primeira mensagem do porteiro foi: “Meu Deus!” A segunda: “O que vocês querem?” ou “Qual apartamento?” Ou “Por que ainda não consertaram o elevador de serviço?”


“Estamos fazendo um filme”, respondemos.


Caroline argumentou: “Um documentário”. Sei lá o que é isso, sei lá, não sei. A gente mostra o documento de identidade de cada um e pronto.


“Estamos filmando”.


Filmando? Ladrão é assim quando quer sequestrar. Acompanha o dia-a-dia, costumes, a que horas a vítima sai para trabalhar. O prédio tem gerente de banco, médico, advogado. Menos o síndico.


O síndico nunca está.


- De onde vocês são?


- Do Morro do Pavão.


- Vamos gravar um longa-metragem.


- Metra o quê?


Metralhadora, cano longo, granada, os negros armados até as gengivas. Não disse? Vou correr. Nordestino é homem. Porteiro é homem ou não é homem? Caroline dialogou: “A ideia é entrar num apartamento do prédio, de supetão, e filmar, fazer uma entrevista com o morador.”


O porteiro: “Entrar num apartamento”?


O porteiro: “Não”.


O pensamento: “Tô fodido.”


A ideia foi minha, confesso. O pessoal vive subindo o morro para fazer filme. A gente abre as nossas portas, mostra as nossas panelas, merda.


Foi assim que comprei uma câmara de terceira mão, marcamos, ensaiamos uns dias. Imagens exclusivas, colhidas na vida da classe média.


Caroline: “Querido, por favor, meu amor”. Caroline mostrou o microfone, de longe. Acenou com o batom, não sei.


Vou bem levar paulada do microfone? O microfone veio emprestado de um pai-de-santo, que patrocinou.


O porteiro apertou o apartamento 101, 102, 108. Foi mexendo em tudo quanto é andar. Estou sendo assaltado, pressionado, liguem para o 190, sei lá.


A graça era ninguém ser avisado. Perde-se a espontaneidade do depoimento. O condômino falar como é viver com carros na garagem, saldo, piscina, computador interligado. Dinheiro e sucesso. Festival de Brasília. Festival de Gramado. A gente fazendo exibição no telão da escola, no salão de festas do prédio.


Não.


A gente não só ouve samba. Não só ouve bala. Esse porteiro nem parece preto, deixando a gente preso do lado de fora. O morro tá lá, aberto 24 horas. A gente dá as boas-vindas de peito aberto.


Os malandrões entram, tocam no nosso passado. A gente se abre que nem passarinho manso. A gente desabafa que nem papagaio. A gente canta, rebola. A gente oferece a nossa coca-cola.


Não quer deixar a gente estrear a porra do porteiro. É foda. Domingo, hoje é domingo. A gente só quer saber como a família almoça. Se fazem a mesma festa que a nossa. Prato, feijoada, guardanapo. Caralho, não precisa o síndico. Escute só. A gente vai tirar a câmera do saco. A gente mostra que é da paz, que a gente só quer melhorar, assim, o nosso cartaz. Fazer cinema. Cinema. Veja Fernanda Montenegro, quase ganha o Oscar.


- Fernanda Montenegro não, aqui ela não mora.


E avisou: “Vou chamar a polícia”.


A gente: “Chamar a polícia?”


Não tem quem goste de polícia. A gente não quer esse tipo de notícia. O esquema foi todo montado num puta de sacrifício. Nicholson deixou de ir vender churro. Caroline desistiu da boate. Eu deixei esposa, cadela e filho. Um longa não, é só um curta. Alegria de pobre é dura. Filma. O quê? Dei a ordem: Filma.


Começamos a filmar tudo. Alguns moradores posando a cara na sacada. O trânsito que transita. A sirene da polícia. Hã? A sirene da polícia. Todo filme tem sirene de polícia. E tiro, muito tiro.


Em câmera violenta. Porra, Johnattan pulou o portão de ferro fundido. O porteiro trancou-se no vidro. Apareceu gente de todo tipo. E a ideia não era essa. Tivemos que improvisar.


Sem problema, tudo bem.


Na edição, a gente manda cortar.






(FREIRE, Marcelino. Contos negreiros. Rio de Janeiro: Record, 2005. pp.23-27)










Assinale a afirmativa INCORRETA sobre o conto:


A) O título da narrativa refere-se, provavelmente, ao nome do prédio que os negros desejam visitar;


B) O ponto de vista está centrado exclusivamente na primeira pessoa, em um dos negros que narra a história;


C) Os estereótipos de que o nordestino trabalha de porteiro e que negros das favelas têm nomes estrangeirados são mantidos no conto;


D) O conto ironiza as relações de classe e de raça, invertendo as situações de pesquisa ou documentação.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Teoria do Conto – Nádia Battella Gotlib

O livro teoriza e exemplifica as características comuns das histórias nomeadas como contos, destaca a trajetória do conto desde a sua origem e nos mostra os traços de alguns contistas de renome.


Acesse:
http://pt.scribd.com/doc/30890030/Nadia-Battella-Gotlib-Teoria-do-Conto

domingo, 1 de maio de 2011

Conto 3


Conforme Machado de Assis, o conto “É um gênero difícil, a despeito da sua aparente facilidade”. Já Mário de Andrade lembra que “[...] em verdade, sempre será conto aquilo que seu autor batizou com o nome de conto” e Júlio Cortázar “[...] esse gênero de tão difícil definição, tão esquivo nos seus múltiplos e antagônicos aspectos.”  Ora, quando Cortázar estuda a obra de Alan Poe, define o  conto como “1) relato de um acontecimento; 2. Narração oral ou escrita de um acontecimento falso; 3. Fábula que se conta às crianças para diverti-las.”
Concordo com os autores, uma vez que a definição do conto é tênue. Conto, novela e crônica são gêneros muito próximos. Se alguns críticos literários definem “O alienista”, obra de Machado de Assis, como um conto, quem sou eu para dizer que é uma novela?
Mas algumas características são mais marcantes no conto, como por exemplo, o conflito e a extensão da narrativa. Se na crônica não há o conflito propriamente dito, no conto podemos identificá-lo; ambas as narrativas são breves. Na novela, há o conflito, assim como no conto, e centraliza-se em um personagem, mas a extensão da narrativa é intermediária entre o conto e o romance. Há quem os considere gênero menor, pela brevidade, mas exige do autor domínio da técnica para cativar o leitor.
O conto, portanto, é uma narrativa curta, centrado num só conflito e num só personagem, com uma linguagem enxuta e particular. O escritor de contos é um aracnídeo, que tece docemente as palavras, capaz de atrair sua presa, sem dó e sem piedade, aos “enredados” fios da narrativa. Pobre leitor, nunca mais será o mesmo.

sábado, 23 de abril de 2011

Ponto de vista

          Qualquer narrativa tem um ponto de vista e qualquer história é outra história se muda o ponto de vista. A variação do ponto de vista é um elemento chave em qualquer narrativa. Leia o texto a seguir e observe como ocorre a mudança do ponto de vista. 

Um dia de gato

Heloísa Seixas

       Tudo aconteceu muito rápido. Só me lembro de ter ouvido um estrondo, depois um tremor imenso, um grito em algum lugar distante – foi só. E o mundo acabou.

        Estava dormindo quando aconteceu. Ou adormeci depois, não sei. Acho que desmaiei. Mas é possível que o mundo tenha mesmo acabado porque a verdade é que agora abro os olhos, arregalando-os com toda força até senti-los secos e, ainda assim, não vejo nada.

        Tento mover meus músculos. Estico as costas com cuidado e, no silêncio enorme que me cerca, ouço os pequenos estalos das vértebras. Assim. Estou conseguindo. Devagar. Sinto alguma coisa fria – parece uma parede – colada à lateral do meu corpo, mas acho que se me arrastar para a frente conseguirei sair daqui. O chão está úmido, como se encharcado por uma substância viscosa. Talvez signifique perigo. Mas não devo pensar nisso agora. O importante é que o chão escorregadio facilita meu deslocamento. Vou em frente, esgueirando-me por espaços ínfimos, menores que meu corpo. Sou bom nisso.

        Após alguns minutos de esforço, sou recompensado. Percebo ao longe, como se ao fim de um túnel, uma claridade.

        Agora, aqui está. Mais este obstáculo e estarei livre. Empurro a pedra com o corpo. É uma lasca de cimento, afiada, que me raspa a orelha. Sinto uma dor aguda. Acho que me feri. Mas não vou desistir.

        A luz explode em meus olhos, seu clarão quase me cega. Sinto o ar frio de primavera nas narinas – e sei que este é o cheiro da liberdade. Mas, assim que minhas pupilas se ajustam à luz do dia, tomo um susto: a poucos passos de mim há um homem, segurando uma estranha máquina preta. Será que vai me matar?

* * *

        O cinegrafista ajeita sua câmera e começa a rodar. Diante dele, os escombros de uma casa nos arredores de Pristina, capital do Kosovo, na Iugoslávia. Mais uma casa destruída pelos bombardeios – apenas mais uma, entre tantas.

        De repente, alguma coisa se move entre os escombros. Ele ajeita o foco, atento. E vê, com surpresa, surgir de trás de uma lasca de concreto um gatinho branco, os olhos azuis piscando muito ante a claridade do dia. Sua orelha sangra, o pêlo do pescoço está escuro, as patas também, como se sujos de graxa, mas ele dá um salto para a frente, com grande agilidade. E depois fica parado, olhando o cinegrafista com sua máquina.

        Parece perplexo. Seus donos com certeza estão mortos. Muita gente está morta. Mas ele saiu ileso do bombardeio. Emerge daquele cenário de destruição, com seus olhos azuis cheios de perguntas. É um sobrevivente da fúria dos homens.

Atividades

1. Leia a tirinha a seguir e responda.



a) Que inferência podemos fazer a partir do retrato produzido pelo elefente?
b) Que importância a escolha do ponto de vista passa a ter no texto?

2. Escreva um parágrafo antes da descoberta de um corpo. Você poderá, talvez, descrever como ele se aproximou do cadáver que vai encontrar, ou o local, ou as duas coisas. Seu objetivo é atrair o leitor para o parágrafo seguinte e dar a ele o desejo de saltar algumas linhas para ler adiante, ao mesmo tempo mantendo o interesse pelo seu parágrafo.

3. Descreva uma paisagem através dos olhos de uma velha cujo marido - repelente e detestável - acaba de morrer. Não mencione nem marido nem morte. Variações:


- Descreva um lago pelos olhos de um rapaz que acaba de cometer um assassinato. Não mencione o crime. 

- Descreva um prédio visto por um homem cujo filho acaba de morrer num assalto. Não mencione o filho, o assalto ou o homem.

Depois descreva o mesmo edifício e as mesmas condições e hora do dia, do ponto de vista de um amante feliz. Não mencione amor nem amada.

domingo, 20 de março de 2011

Gênero Fantástico

GÊNERO FANTÁSTICO





O Fantástico é um gênero literário que invadiu o cinema, e que define narrativas ficcionais que possuem elementos não explicados pela lógica da nossa realidade. Ele agrupa três subgêneros: ficção científica, fantasia e o horror (ou Terror)


Tanto no cinema quanto na literatura o gênero fantástico possui as mesmas características.


Mortos andando entre os vivos, monstros das mais variadas formas, árvores, pedras e animais que falam etc., são uns dos eventos que não pertencem à nossa realidade. Nossa lógica não entende e não aceita tais fatos. Tzvetan Todorov cita em seu livro “Introdução à Literatura Fantástica”, que dentro da nossa realidade regida por leis, ocorrências que não podem ser explicadas por essas leis incidem na incerteza de ser real ou imaginário. Para Todorov, um evento fantástico só ocorre quando há a dúvida se esse evento é real, explicado pela lógica, ou sobrenatural, ou seja, regido por outras leis que desconhecemos. “Há um fenômeno estranho que se pode explicar de duas maneiras, por meio de causas de tipo natural e sobrenatural. A possibilidade de se hesitar entre os dois criou o efeito fantástico.” (TODOROV, 1968, p. 31).


Porém, a história não pode parecer de forma alegórica, pois, se o leitor ou espectador interpretar o sobrenatural como uma metáfora, num primeiro momento, ele perde o sentido fantástico. Deve haver uma pré-disposição do leitor para negar a alegoria e hesitar quanto à realidade do fato.




Ficção Científica


Ficção científica é uma forma de ficção desenvolvida no século XIX, que lida principalmente com o impacto da ciência, tanto verdadeira como imaginada, sobre a sociedade ou os indivíduos. O termo é usado, de forma mais geral, para definir qualquer fantasia literária que inclua o factor ciência como componente essencial, e num sentido ainda mais geral, para referenciar qualquer tipo de fantasia literária. Em inglês o termo ficção científica é as vezes abreviado para sci-fi ou SF. Em português, é abreviado para FC.


Este tipo de literatura pode consistir numa cuidadosa e bem informada extrapolação sobre fatos e princípios científicos, ou abranger áreas profundamente rebuscadas, que contrariam definitivamente esses factos e princípios. Em qualquer dos casos, o ser de forma plausível baseado na ciência é um requisito indispensável, e assim obras precursoras deste género, como o romance gótico de Mary Wollstonecraft Shelley, Frankenstein, ou o Prometeu Moderno (1818), ou a obra de Robert Louis Stevenson, O Médico e o Monstro (1886) são considerados ficção científica, enquanto que Drácula, de Bram Stoker (1897), não é.


Há, evidentemente, muitos casos de obras que se situam na fronteira do género, usando a situação no espaço exterior ou tecnologia de aspecto futurista, apenas como decoração para narrativas de aventuras ou de romance, e outros temas dramáticos típicos; um bom exemplo será a série Star Wars (traduzida como Guerra nas Estrelas no Brasil e A Guerra das Estrelas em Portugal e outros países) e muitos filmes de acção produzidos por Hollywood.


Os fans da ficção científica hard verão estes filmes como exemplos de fantasia, enquanto que o público em geral tenderá a colocá-los no âmbito da ficção científica.


A ficção científica só se tornou possível pela ascensão da ciência moderna, sobretudo pelas revoluções operadas na astronomia, na fisica e na sexologia, pois tudo o que se pode pensar sobre ficção tem se relativo e sexo. Além da antiquíssima literatura fantástica, que não é considerada para o efeito, o gênero teve precursores notáveis: viagens imaginárias à Lua ou a outros planetas no século XVIII e viagens espaciais no Micromégas de Voltaire (1752), culturas alienígenas n'As Viagens de Gulliver de Jonathan Swift (1726), e elementos de ficção científica nas histórias de Edgar Allan Poe, Nathaniel Hawthorne e Fitz-James O'Brien, todos do século XIX. O verdadeiro início da ficção científica, contudo, dá-se no final do século XIX com os romances científicos de Júlio Verne, cuja ciência se situava ao nível da invenção, bem como com as novelas, cientificamente orientadas, de crítica social de H. G. Wells


Há outros precursores ilustres e mais antigos. O astrónomo Johannes Kepler (1571 - 1630) escreveu uma história, a que deu o título de Somnium (O Sonho), em que descreve uma viagem até outro planeta. Em 1656, o francês Savinien Cyrano de Bergerac escreveu Histoire Comique des États et Empires de la Lune, que relata também uma viagem até à Lua e a forma como os Selenitas vêem os terrestres.


O desenvolvimento da ficção científica como género consciente de si próprio data de 1926, quando Hugo Gernsback, que cunhou a palavra combinada scientifiction (que se poderia traduzir para português como cientificção), fundou a revista Amazing Stories, dedicada exclusivamente a histórias de ficção científica. Publicadas nesta e noutras revistas pulp com um sucesso grande e crescente, tais histórias não eram vistas pelos sectores literários como literatura, mas sim como sensacionalismo. Com a chegada, em 1937, de um editor exigente, John W. Campbell, da Astounding Science Fiction (fundada em 1930) e com a publicação de contos e novelas por escritores como Isaac Asimov, Arthur C. Clarke e Robert A. Heinlein, a ficção científica emergiu como uma forma de ficção séria. As aproximações ao género por escritores que não se dedicavam exclusivamente à ficção científica, como Aldous Huxley, C. S. Lewis e Kurt Vonnegut, também adicionaram respeitabilidade. Capas de revistas com monstros de olhos esbugalhados e mulheres seminuas preservaram em muitas mentes a imagem de sensacionalismo.


Assistiu-se a um grande incremento na popularidade da ficção científica a seguir à Segunda Guerra Mundial. Alguns trabalhos de ficção científica tornaram-se best-sellers. A crescente sofisticação intelectual do género e a ênfase em assuntos psicológicos e sociais mais latos alargaram de forma significativa o apelo da ficção científica junto do público leitor. Nos países anglo-saxônicos tomou-se consciência de ficção científica escrita noutras línguas, em especial na União Soviética e noutros países da Europa de Leste. É agora comum ver-se crítica séria ao género, e estuda-se ficção científica em instituições de ensino superior de várias partes do mundo (não no Brasil, no entanto), havendo especial interesse nas suas características literárias e na forma como ela se relaciona com a ciência e a sociedade.


Uma das características únicas do género é a sua forte comunidade de fãs, da qual muitos autores também fazem parte. Existem grupos locais de fãs um pouco por todo o mundo que fala inglês, e também no Japão, Europa e noutros locais. É frequente que estes grupos publiquem os seus próprios trabalhos. Existem muitas revistas de fãs (e também algumas profissionais) que se dedicam apenas a informar o fã de ficção científica de todas as vertentes do género. Os principais prémios da ficção científica, os Prémios Hugo, são atribuídos pelos participantes da convenção anual Worldcon, que é organizada quase exclusivamente por fãs voluntários.


O trabalho dos escritores de ficção científica inclui previsões sobre sociedades futuras na Terra, análises das consequências da viagem interestelar e explorações imaginativas de outras formas de vida inteligente e das suas sociedades noutros mundos.


A ficção científica também se tem tornado popular na rádio, na banda desenhada (histórias em quadrinhos, no Brasil), na televisão e no cinema.
Fantasia


Fantasia é um gênero que usa a magia e outras formas sobrenaturais como elemento principal do enredo, da temática e / ou da configuração. Muitos trabalhos dentro do gênero ocorrem em planos de ficção ou planetas onde a magia é comum. A fantasia é geralmente distinguida da ficção científica e horror pela expectativa de que ela fica longe de temas científicos e macabros, respectivamente, embora exista uma grande sobreposição entre os três gêneros (que são subgêneros da ficção especulativa).


Na cultura popular, o gênero da fantasia é dominado por sua forma medievalista, especialmente desde o sucesso mundial de "O Senhor dos Anéis", de "JRR Tolkien" e de "As Crônicas de Narnia". Em seu sentido mais amplo no entanto, a fantasia inclui obras de vários escritores, artistas, cineastas e músicos que, a partir de antigos mitos e lendas, conquistam adeptos de vários partes do mundo.


A fantasia é uma vibrante área de estudo acadêmico em uma série de disciplinas (Inglês, estudos culturais, literatura comparada, estudos de história, medieval, teatral). Os trabalhos nesta área variam amplamente, a partir da teoria estruturalista de Tzvetan Todorov, que enfatiza o fantástico como um espaço liminar para se trabalhar sobre as conexões políticas, históricas e literárias entre o medievalismo e a cultura popular.
Horror


Oficialmente, o horror teve sua primeira definição na literatura como romance gótico ou, como Todorov chama, romance negro. Histórias que possuíam qualidades ligadas à literatura fantástica de provocar medo. Um critério abordado por H. P. Lovecraft, um dos principais nomes do horror literário, é o de utilizar a experiência do medo que o leitor possui para criar o temor.


A literatura gótica trabalha bastante com esse critério de Lovecraft. Criando um ambiente medieval, com castelos em ruínas, bosques escuros e sombrios e famílias da nobreza decadente, os textos góticos utilizam as crenças da época para produzir o horror. O Autor Gordon Melton comenta que o gênero gótico pode ser definido como “literatura de pesadelo”.


O gênero gótico era um tipo de romance popular do século XVIII, que continuou no século XIX, ele surgiu com o conto “O Castelo de Otranto” (The Castle of Otranto, 1763) de Horace Walpole. As histórias descrevem acontecimentos macabros, sobrenaturais, nos quais demônios, o diabo, vampiros, fantasmas cruzam com vítimas castas e puras em lugares incomuns, de preferência na época medieval e de noite ou em tempestades. Os seres sobrenaturais manipulam os fatos da narração transtornando a mente do personagem. Como mencionado antes, a vítima fica entre a razão e a crença até ser atacada pelas reais garras de seus vilões.


Tais histórias fantásticas forneceram ao cinema o contexto para a produção de filmes de horror. Esses filmes proporcionam a impressão da realidade e constroem o medo a partir das experiências do espectador. No entanto, os filmes de horror também trabalham com outros artifícios para criar a sensação de medo.


O prolongamento do tempo é muito usado para produzir o suspense. Por meio da montagem, o cineasta alterna a imagem da vítima, que sossegada está alheia ao perigo iminente, com a imagem do monstro que vem ao seu encalço. Essa extensão do tempo deixa o espectador ansioso por ele estar onipresente, sabendo do destino da vítima e não podendo impedir.


A fotografia também é usada para criar um ambiente de temor. O jogo de luzes e sombras engana as vistas espantadas do público deixando escapar alguns vultos do perigo iminente.


Os ângulos de filmagens que transformam a câmera em uma personagem, apenas sugerem o perigo, não mostrando a situação toda. A sombra de uma garra na parede atrás da cama enquanto a heroína dorme cria a tensão.


E finalmente, a música acentuada e gradativa emana a sensação de suspense. Um exemplo exageradamente citado, mas que comprova a importância da música, ou a falta dela, dependendo da situação, é o filme de Alfred Hitchcock “Psicose” (Psycho, 1960, EUA). A música no filme de Hitchcock é um personagem que junto com a câmera subjetiva antecipa o perigo.


Esse efeito de pavor crescente tem seu auge quando finalmente o perigo se comprova e surge o monstro que ataca a vítima. Além das técnicas da linguagem, a maquiagem, as fantasias e efeitos especiais também auxiliam no susto.


O lado negro da imaginação humana, descrito nos romances góticos, foi revivido no cinema de horror por meio das inúmeras adaptações feitas de textos clássicos desse gênero literário.


Notando que aterrorizando o público podiam lotar os cinemas, os cineastas fizeram vários filmes clássicos do terror, como “Frankenstein” (Frankenstein, 1931, EUA), “O Médico e o Monstro” (Dr. Jekyll and Mr. Hyde, 1920, EUA), “O Corcunda de Notre-Dame” (The Hunchback of Notre Dame, 1923, EUA), “Carmilla, a Vampira de Karnstein”( The Vampire Lovers, 1970, Inglaterra). Porém, um dos títulos que, provavelmente, teve o de maior número de adaptações foi “Drácula” de Bram Stoker.
1.       Leia o conto a seguir:


Um som do trovão

O anúncio na parede parecia tremular sob uma película de água quente. Eckels sentiu suas pálpebras estremecerem sobre seu olhar, e o anúncio queimava, na momentânea escuridão:
SAFARIS NO TEMPO, INC.
SAFARIS PARA QUALQUER ANO DO PASSADO
VOCÊ DIZ QUE ANIMAL.
NÓS O LEVAMOS LÁ.
VOCÊ O ABATE.
Uma flegma quente acumulou-se na garganta de Eckels; engoliu e empurrou-a para baixo. Os músculos ao redor de sua boca forma­ram um sorriso enquanto ele estendeu sua mão lentamente pelo ar, e naquela mão, balançava-se um cheque de dez mil dólares, para o ho­mem atrás da escrivaninha.
— Este safári garante que eu volte vivo?
— Não garantimos nada — falou o funcionário — exceto os dinos­sauros. — Voltou-se. — Este é o Sr. Travis, seu Guia, no safári ao pas­sado. Ele vai dizer-lhe o que e aonde atirar. Se ele disser para não ati­rar, não se atira. Se desobedecer às instruções, há uma pesada multa de mais de dez mil dólares, mais um possível processo do governo, quando voltar.
Eckels olhou, através do amplo escritório, numa completa con­fusão disforme, de fios entrelaçados e caixas de aço zumbindo, para uma aurora que agora reluzia laranja, então prateada, e então, azul. Havia um som como uma descomunal pira queimando todo o Tempo, todos os anos e todos os calendários, todas as horas empilhadas e incendiadas.
Um toque da mão e esta queima, instantaneamente, se reverteria lindamente. Eckels lembrou-se literalmente das palavras da propagan­da. De carvões e cinzas, da poeira e das brasas, como salamandras douradas, os velhos tempos, os anos jovens, podem saltar; rosas sua­vizando o ar; cabelo branco enegrecendo-se, rugas desaparecendo; tu­do ,voltando totalmente à origem, fugir à morte, precipitar-se para o começo de tudo, o sol nascendo nos céus ocidentais, e pondo-se glo­riosamente no leste, luas devorando-se a si mesmas no sentido oposto ao costumeiro, e tudo se sobrepondo, como caixas chinesas, coelhos em cartolas, tudo e todos retornando à morte viva, a morte da se­mente, a morte verde, ao tempo de antes do começo. O toque da mão poderia fazê-lo, o mero toque da mão.
— Inacreditável. — Eckels respirava, com a luz da Máquina sobre seu rosto fino. — Uma verdadeira Máquina do Tempo. — Abanou a cabeça. — É de fazer pensar. Se a eleição tivesse ido mal ontem, eu poderia estar agora me afastando dos resultados. Felizmente Keith ganhou. Será um bom presidente para os Estados Unidos.
— Sim — falou o homem por trás da mesa. — Temos sorte. Se Deutscher tivesse ganho, teríamos a pior ditadura. Há sempre um homem anti-tudo, um militarista, um anti-Cristo, anti-humano, anti-intelectual. O povo nos requisitou, sabe, como que brincando, mas a sério. Diziam que se Deutscher se tornasse presidente, queriam vi­ver em 1492. Claro, não é o nosso negócio conduzir Fugas, mas orga­nizar Safáris. De qualquer maneira, Keth é o presidente, agora. Tudo com que precisa preocupar-se agora é…
— Caçar meu dinossauro — Eckels acabou para ele.
— Um Tyranossaurus rex. O Lagarto Tirano, o monstro mais ina­creditável de toda a história. Assine este termo. O que quer que aconteça com você, não somos responsáveis. Esses dinossauros são muito vorazes.
Eckels animou-se, nervoso. — Tentando assustar-me!
— Francamente, sim. Não queremos que vá alguém que entre em pânico ao primeiro tiro. Seis lideres de safári foram mortos no ano passado, e uma dúzia de caçadores. Estamos aqui para dar-lhe a maior emoção que um caçador de verdade jamais almejou. Mandá-lo de volta sessenta milhões de anos, para pegar a maior caça de to­dos os tempos. Seu cheque ainda está aqui. Pode rasgá-lo.
O Sr. Eckels olhou para o cheque. Seus dedos retorceram-se.
— Boa-sorte — falou o homem atrás da escrivaninha. — Sr. Tra­vis, ele é todo seu.
Moveram-se silenciosamente, atravessando a sala, levando suas armas com eles, em direção à Máquina, rumo ao metal prateado e às luzes gritantes.
Primeiro, um dia e então uma noite e então um dia e então uma noite, e então era dia-noite-dia-noite-dia. Uma semana, um mês, um ano. uma década! 2 055 a. D., 2 019 a. D., 1 999! 1 957! Partida! A máquina rugia.
Puseram suas máscaras de oxigênio e testaram os intercomunica­dores.
Eckels inclinou-se no assento estofado, rosto pálido, maxilar enrijecido. Sentia o tremor em seus braços, olhou para baixo e achou suas mãos firmes no novo rifle. Haviam quatro outros homens na Máquinas. Travis, o líder do Safári, seu assistente, Lesperance, e mais dois outros caçadores, Billings e Kramer. Sentavam-se olhando uns para os outros, e os anos ardiam à volta deles.
— Estas armas podem dar conta de um dinossauro? — Eckels sentiu sua boca dizendo.
— Se os acertar direito — disse Travis pelo rádio do capacete. — Alguns dinossauros têm dois cérebros, um na cabeça e outro no fim da espinha. Ficamos longe destes. É abusar da sorte. Atire as duas primeiras vezes nos olhos, se puder, e cegue-os, e volte a atirar no cérebro.
A Máquina bramia. O Tempo era um filme passado ao contrá­rio. Os sóis voavam e dez milhões de luas, atrás deles. — Pense só — disse Eckels. — Todos os caçadores que jamais viveram nos inveja­riam hoje. Isto faz a África parecer com o Illinois.
A Máquina desacelerou; seu grito caiu para um sussurro. A Má­quina parou.
O sol parou no céu.
A névoa que envolvera a Máquina dissipou-se e estavam num tempo antigo, muito antigo mesmo, três caçadores e dois chefes de safári com suas armas metálicas sobre os joelhos.
— Cristo ainda não nasceu — disse Travis. — Moisés ainda não foi à montanha, para falar com Deus. As pirâmides ainda estão na terra, esperando para serem recortadas e montadas. Lembrem-se disso. Ale­xandre; César; Napoleão; Hitler; nenhum deles existe.
O homem fez que sim.
— Aquilo. — Apontou o Sr. Travis — é a selva de sessenta milhões dois mil e cinqüenta e cinco anos antes do presidente Keith.
Mostrou o caminho de metal que cruzava o verde selvagem, so­bre um amplo pântano, por entre fetos e palmeiras.
E aquele — disse — é o Caminho, colocado por Safáris no Tempo, para seu uso. Flutua a seis polegadas acima da terra. Não toca se­não no máximo uma grama, flor ou árvore. É um metal antigravitacional. Seu propósito é evitar que vocês toquem, de qualquer manei­ra que seja, este mundo do passado. Fiquem no Caminho. Não saiam dele. Repito. Não saiam. Por qualquer razão que seja! Se caírem, se­rão multados. E não disparem em nenhum animal que não aprove­mos.
— Por quê? — perguntou Eckels.
Sentaram-se, na floresta antiga. Gritos distantes de pássaros vieram com o vento, e o cheiro de alcatrão e de um velho oceano salga­do, grama úmida, e flores da cor de sangue.
— Não queremos mudar o Futuro. Não pertencemos ao Passado. O governo não gosta de nós aqui. Temos que pagar muita propina para garantir nossa licença. A Máquina do Tempo é um negócio extremamente delicado. Sem saber, poderíamos matar um animal im­portante, um pequeno pássaro, uma barata; mesmo uma flor, assim destruindo um elo importante, numa espécie em evolução.
— Isso não fica muito claro, — falou Eckels.
— Está bem — continuou Travis, — suponhamos que acidental­mente matemos um rato, aqui. Isso quer dizer que todos as futuras famílias deste rato, em particular, serão destruídas, certo?
— Certo.
— E todas as famílias das famílias, daquele rato! Com um pisão de seu pé, você aniquila primeiro um, então uma dúzia, então mil, um milhão, um bilhão de ratos, possivelmente!
— Então estarão mortos; e daí?
— E daí? — Travis torceu o nariz. — Bem, e as raposas que preci­sariam daqueles ratos para sobreviver? Para cada dez ratos a menos, morre uma raposa. Para cada dez raposas a menos, um leão morre de fome. Para cada leão a menos, insetos, abutres, infinitos bilhões de formas de vida são lançados ao caos e à destruição. Eventualmente, tudo recai no seguinte: cinqüenta e nove milhões de anos depois, um troglodita, um, de uma dúzia no mundo inteiro, vai caçar javalis ou tigres de dentes de sabre para comer. Mas você, amigo, pisou em todos os tigres daquela região. Pisando num só rato. Assim o troglodita morre de fome. E este homem das cavernas, note bem, não é qualquer um dispensável, não senhor! Ele é toda uma nação futura. Dele, teriam saído dez filhos. E destes, mais cem, e assim por diante, até a civilização. Destruindo este único homem, destrói-se uma raça, um povo, toda uma história. É comparável a matar um neto de Adão. O pisão de seu pé, num rato, poderia principiar um terremoto, cujos efeitos poderiam abalar nossa terra e destinos pelo Tempo afo­ra, até seus alicerces. Com a morte daquele troglodita, um bilhão de outros ainda não nascidos são mortos no útero. Talvez Roma nunca se erga sobre suas sete colinas. Talvez a Europa fique para sempre uma floresta espessa, e apenas a Ásia cresça, forte e saudável. Pise num rato e esmagará as Pirâmides. Pise num rato e deixará sua mar­ca, como um Grand Canyon, pela Eternidade. A rainha Elizabete poderá nunca nascer. Washington poderá não cruzar o Delaware, po­derá nunca haver Estados Unidos. Portanto, seja cuidadoso. Fique no caminho. Nunca pise fora!
— Percebo — comentou Eckels. — Então não poderíamos nem tocar a grama?
— Exato. Esmagar certas plantas poderia causar somas infinitesi­mais. Um erro mínimo seria multiplicado por sessenta milhões de anos, desmesuradamente. Claro, talvez nossa teoria esteja errada. Tal­vez o Tempo não possa ser alterado por nós. Ou talvez só possa ser alterado de maneiras sutis. Um rato morto aqui causa um desequilí­brio dos insetos ali, uma desproporção populacional mais tarde, uma colheita má mais adiante, uma depressão, fome, e finalmente uma mudança no temperamento social em países remotos. Algo muito mais sutil, como isso. Talvez algo ainda muito mais sutil. Talvez ape­nas uma respiração, um sussurro, um cabelo, um pólen no ar, uma mudança tão levezinha que se olhasse atentamente, não notaria. Quem sabe? Quem pode dizer que realmente sabe? Não sabemos. Estamos só adivinhando. Mas até que tenhamos certeza, se nossos passeios pelo Tempo podem fazer um barulhão ou um barulhinho na História, seremos cuidadosos.. Esta Máquina, este Caminho, suas rou­pas e corpo, foram esterilizados, como sabem, antes da viagem. Usa­mos estes capacetes de oxigênio de modo que não possamos introdu­zir bactérias nesta atmosfera primitiva.
— Como sabemos que animais abater?
— Estão marcados com tinta vermelha — explicou Travis. — Ho­je, antes da viagem, mandamos Lesperance aqui com a Máquina. Ele veio a esta época em particular e seguiu certos animais.
— Estudando-os?
— Isso — falou Lesperance. — Sigo-os por toda sua vida, obser­vando quais vivem mais. Quantas vezes se acasalam. Poucas vezes. A sua vida é curta. Quando vejo que algum vai morrer com uma árvore caindo em cima dele, ou um que se afoga num poço de alcatrão, ano­to a hora, minuto, e segundos exatos. Disparo um revólver de tinta. Deixa uma marca vermelha em seus flancos. Não podemos nos enga­nar. Então correlaciono com a chegada ao Caminho, de modo que encontremos o monstro a não mais de dois minutos de sua morte, inevitável. Desta forma, matamos apenas animais sem futuro, que nunca vão se acasalar de novo. Vê como somos cuidadosos?
— Mas se esta manhã você voltou no tempo, deve ter cruzado conosco mesmos, nosso safári! Como nos saímos? Tivemos sucesso? Conseguimos voltar todos… vivos?
Travis e Lesperance entreolharam-se.
— Isso seria um paradoxo, — falou este último. — O tempo não permite esse tipo de confusão; um homem encontrando a si mesmo. Quando há o risco de tais situações, o tempo desvia-se. Como um avião passando por um vácuo. Sentiu a Máquina pular antes de pararmos? Éramos nós passando por nós mesmos, a caminho do Futuro. Não vimos nada. Não há meio de dizer se esta expedição teve suces­so; se pegamos nosso monstro, ou se todos nós, isto é, o senhor, Sr. Eckels, saiu vivo.
Eckels sorriu, palidamente.
— Parem com essa conversa — interrompeu Travis. — Todos de pé!
Estavam prontos para deixar a Máquina.
A selva era alta, a selva era larga, e a selva era todo o mundo, pa­ra sempre. Sons como música, e sons como tendas voando, encheram o ar, e eram pterodátilos planando com cavernosas asas cinzentas, morcegos gigantescos de delírio e febre noturna. Eckels, equilibrado no estreito Caminho, apontou seu rifle, bem-humorado.
— Pare! — falou Travis. — Não aponte nem mesmo por brinca­deira, idiota! Se a arma dispara…
Eckels enrubesceu. — Aonde está nosso Tyranossaurus?
Lesperance checou seu relógio de pulso. — Logo à frente. Vamos estar no caminho dele em sessenta segundos. Atenção para a tinta vermelha! Não atire até que eu mande. Fique no caminho. Fique no Caminho!
Moveram-se adiante, pelo vento da manhã.
Estranho — murmurou Eckels. — Lá adiante, daqui a sessenta milhões de anos, fim das eleições. Keith presidente. Todos celebran­do. E aqui estamos, perdidos num milhão de anos, e eles não existem ainda. As coisas que nos preocuparam por meses, por uma vida intei­ra, nem nasceram nem foram idealizadas, ainda.
— Soltar as travas, todos! — ordenou Travis. Você dá o primeiro tiro, Eckels, Billings o segundo, e Kramer o terceiro.
— Já cacei tigre, javali, búfalo, elefante, mas agora, isto é incomparável — disse Eckels. — Estou tremendo como uma criança.
— Ah — fez Travis. Todos pararam.
Travis ergueu a mão. — À frente — falou, em voz baixa. — Na ne­blina. Lá está ele. Ali está Sua Majestade Real, agora.
A selva era ampla, e cheia de gorjeios, farfalhares, murmúrios e suspiros.
Subitamente, tudo cessou, como se alguém tivesse fechado a porta.
Silêncio.
Um som de trovão.
Da neblina, a cem jardas, vinha o Tyranossaurus rex.
— É ele — cochichou Eckels, — é ele… —Psss!
Ele veio sobre grandes pernas, oleosas, resilientes. Erguia-se a trinta pés, acima da metade das árvores, um grande deus do mal, do­brando suas delicadas garras de relojoeiro perto de seu peito oleoso, reptílico. Cada pata inferior era um pistão, mil libras de osso branco, mergulhadas em grossas cordas de músculos, revestidas por um brilho de uma pele pedregosa, como a malha de um terrível guerreiro. Cada coxa, uma tonelada de carne, marfim, e aço trançado. E da grande gaiola arquejante da parte superior do corpo, aqueles dois braços de­licados pendurados para a frente, braços que poderiam erguer e exami­nar os homens como brinquedos, enquanto se dobrava o pescoço de serpente. E a cabeça mesmo, uma tonelada de pedra esculpida, ergui­da com facilidade contra o céu. Sua boca escancarava-se, expondo uma cerca de dentes como dardos. Seus olhos rolavam, ovos de aves­truz, vazios de qualquer expressão, exceto fome. Fechava a boca num sorriso da morte. Corria, seus ossos pélvicos derrubando para os lados árvores e arbustos, seus pés, com garras, afundando-se na terra úmida, deixando marcas de seis polegadas de profundidade aonde quer que apoiasse seu peso. Corria com um passo deslizante de ballet, muito aprumado e equilibrado para suas dez toneladas. Movia-se, cansado, numa arena ensolarada, suas mãos lindamente reptilianas tateando o ar.
— Ora, vejam — Eckels torceu a boca. — Poderia esticar-se e pegar a lua.
— Pssst! — fez Travis, nervoso. — Ele ainda não nos viu.
— Não pode ser morto. — Eckels pronunciou seu veredito, quie­to, como se não pudesse haver discussão. Tinha avaliado a evidência, e era esta sua abalizada opinião. O rifle em sua mão parecia uma ar­ma de brinquedo. — Fomos loucos de ter vindo. Isto é impossível.
— Cale-se! — silvou Travis.
— Pesadelo.
— Dê meia volta — comandou Travis. — Vá em silêncio para a Máquina. Podemos reembolsar-lhe metade de sua passagem.
— Não percebia como seria grande, — falou Eckels. — Avaliei mal, foi isso. E agora, quero desistir.
— Ele nos viu!
Lá está a tinta vermelha em seu peito!
O Lagarto Tirano levantou-se. Sua carne de armadura rebrilhava como mil moedas verdes. As moedas, com uma crosta de lama, fer­viam. No lodo, pequenos insetos esperneavam, de modo que todo o corpo parecia retorcer-se e ondular, mesmo enquanto o monstro não se movia. Expirou. O cheiro de carne crua foi soprado pelos ermos.
— Deixe-me sair daqui — disse Eckels. — Nunca foi como isto, agora. Eu sempre estava certo de que poderia sair vivo. Eu tinha bons guias, bons safáris, e segurança. Desta vez, enganei-me. Encontrei algo que me supera, e reconheço. É demais para eu enfrentar.
— Não corra — falou Lesperance. — Dê a volta. Esconda-se na Máquina.
— Sim, — Eckels parecia entorpecido. Olhou para seus pés, como que tentando fazê-los mover-se. Deu um grunhido, incapaz.
— Eckels!
Deu alguns passos, piscando, hesitante,
— Não por aí!
O Monstro, ao primeiro movimento, impulsionou-se para a fren­te com um grito terrível. Cobriu cem jardas em seis segundos. Os rifles ergueram-se rapidamente e iluminaram-se, com o fogo. Um ven­daval da boca da besta engolfou-os na fedentina do lodo, e sangue envelhecido. O Monstro rugiu, dentes brilhando ao sol.
Eckels, sem olhar para trás, caminhou cegamente para a borda do Caminho, sua arma carregada frouxamente em seus braços, saiu do caminho, e andou, inadvertidamente, pela floresta. Seus pés afun­daram em musgo verde. Suas pernas o carregavam, e ele se sentia só e afastado dos eventos lá atrás.
Os rifles dispararam de novo. O som perdeu-se no grito e no tro­vão do lagarto. O grande volume da cauda do animal lançou-se para cima, e para o lado. Árvores explodiram em nuvens de folhas e ra­mos. O Monstro torceu suas mãos de joalheiro para acariciar os ho­mens, para dobrá-los ao meio, para esmagá-los, como frutinhas, para empurrá-los para seus dentes e sua garganta ruidosa. Seus olhos, quais rochedos, estavam ao nível dos homens. Viram-se espelhados. Dispararam nas pálpebras metálicas e na luminosa íris.
Como um ídolo de pedra, como uma avalanche de montanha, o Tyranossaurus caiu. Trovejando, agarrou árvores, e puxou-as consigo. Agarrou e cortou o Caminho. Os homens precipitaram-se para trás, e para longe. O corpo abateu-se, dez toneladas de carne fria e pedra. Os rifles dispararam. O Monstro brandiu sua cauda blindada, crispou suas mandíbulas de serpente, e imobilizou-se. Uma fonte de sangue jorrava de sua garganta. Em algum lugar lá dentro, um saco de fluido estourou. Borbotões nauseantes inundaram os caçadores. Lá estavam vermelhos, brilhantes.
O trovão dissipou-se.
A selva estava silenciosa. Depois da avalanche, uma paz verde. Depois do pesadelo, o amanhecer.
Billings e Kramer praguejavam pesadamente, com seus rifles ain­da fumegando.
Na Máquina do Tempo, face abatida, Eckels tremia. Tinha con­seguido voltar ao caminho, e subira na Máquina.
Travis chegou, olhou para Eckels, pegou gaze de algodão e, virou-se para os outros, que estavam sentados sobre o Caminho.
— Limpem-se.
Limparam o sangue de seus capacetes. Começaram a resmungar, também. O Monstro jazia ali como uma montanha de carne. Dentro dele, podia-se ouvir os sopros e murmúrios, enquanto seus recessos iam morrendo, os órgãos parando de funcionar, líquidos circulan do um último instante, de saco para a bolsa, para vesícula, tudo des­ligando-se, parando para sempre. Era como ficar perto de uma loco­motiva acidentada, ou uma escavadeira a vapor, no momento de des­ligar, com todas as válvulas sendo desativadas. Ossos estalavam; a tonelagem de sua própria carne, desequilibrada, peso morto, quebrava os delicados braços, do lado de baixo. A carne se assentava aos tre­mores.
Outro estalido. Mais acima, um enorme galho de árvore partiu de sua pesada ancoragem, caiu. Golpeou certeiramente a fera morta.
— Pronto. — Lesperance verificou seu relógio. — Bem na hora. Essa era a grande árvore que deveria cair e matar este animal, origi­nalmente. — Olhou para os dois caçadores. — Querem tirar a foto de troféu?
— Quê?
— Não podemos levar o troféu para o Futuro. O corpo deve fi­car aqui, aonde deveria originalmente morrer, de modo que os inse­tos, pássaros, e bactérias possam devorá-lo, como devem. Tudo equi­librado. O corpo fica. Mas podemos tirar uma fotografia de vocês a seu lado.
Os dois homens fizeram força para pensar, mas desistiram, aba­nando as cabeças.
Deixaram-se guiar ao longo do Caminho de metal. Afundaram cansados, nos assentos da Máquina. Olharam de novo para o Monstro arruinado, o montículo em estagnação, aonde já estranhos pássaros reptilianos e insetos dourados estavam ocupados com a fumegante armadura.
Um som no chão da Máquina do Tempo deixou-os tensos. Eckels estava lá, tremendo.
— Lamento muitíssimo — disse.
— Levante-se! — gritou Travis. Eckels levantou-se.
— Vá para o Caminho sozinho — falou Travis, com seu rifle apontado. Não vai voltar para a Máquina. Vamos deixá-lo aqui!
Lesperance agarrou o braço de Travis. — Espere…
— Fique fora disto! — Travis desvencilhou-se de sua mão. — Este louco quase matou-nos. Mas isso não é tanto assim. Vejam seus sapa­tos! Vejam! Ele saiu do Caminho. Isso nos arruína! Seremos multa­dos! Milhares de dólares de seguro! Garantimos que ninguém deixa o Caminho, e ele o deixou. Ora, o louco! Terei de informar o Governo. Poderão cancelar nossa licença para viajar. Quem sabe o que ele fez ao Tempo, à História!
— Calma, tudo o que ele fez foi pisar em alguma sujeira.
— Como saber? — gritou Travis. — Não sabemos nada! É um mistério! Saia, Eckels!
Eckels mexeu em sua camisa. — Pago qualquer coisa. Mil dóla­res!
Travis olhou para o talão de cheques de Eckels e cuspiu. — Saia. O Monstro está perto do Caminho. Afunde os braços até os cotove­los na boca dele. Então poderá voltar conosco.
— Isto é irrazoável!
— O Monstro está morto, seu idiota. As balas! As balas não po­dem ser deixadas para trás. Elas não pertencem ao Passado; poderão mudar alguma coisa. Aqui está a minha faca. Cave-as!
A selva estava viva de novo, cheia de antigos tremores e do baru­lho dos pássaros. Eckels voltou-se lentamente para olhar o monte de carniça primordial, aquela montanha de pesadelos e terror. Depois de um longo tempo, como um sonâmbulo, arrastou-se ao longo do Caminho.
Voltou, tremendo, cinco minutos depois, com seus braços enso­pados e vermelhos até os cotovelos. Estendeu as mãos. Cada uma se­gurava algumas balas de aço. Então caiu e ficou lá, imóvel.
— Você não precisava obrigá-lo a isso — comentou Lesperance.
— Não? É cedo ainda para dizer. — Travis tocou o corpo, com o pé. — Viverá. Da próxima vez não vai sair para caçar este tipo de ca­ça. OK. — Ergueu o polegar para Lesperance. — Dê a partida. Vamos para casa.
1492 . 1776 . 1812 .
Limparam suas mãos e faces. Trocaram de roupa. Eckels estava de pé de novo, mudo. Travis olhou para ele por dez minutos.
— Não olhe para mim, — exclamou Eckels. — Não fiz nada.
— Quem pode saber?
— Apenas saí do Caminho, foi tudo, um pouco de lama em meus sapatos; que quer que eu faça? Que me ajoelhe e reze?
— Talvez precisemos disso. Estou lhe avisando, Eckels! Posso matá-lo, ainda. Minha arma está engatilhada.
— Estou inocente. Não fiz nada! 1999 . 2000 . 2055 .
A Máquina parou.
— Saia — ordenou Travis.
A sala lá estava, tal como quando saíram. Mas não exatamente a mesma. O mesmo homem atrás da mesma escrivaninha. Mas o mes­mo homem não parecia estar sentado exatamente atrás da mesma escrivaninha.
Travis olhou em volta, depressa. — Tudo em ordem por aqui? — foi logo perguntando.
— Claro. Bem vindos ao lar!
Travis não relaxou. Parecia estar olhando para os próprios áto­mos do ar, e para o modo pelo qual o sol entrava pela janela alta.
— OK, Eckels, saia. E nunca mais volte. Eckels não podia mover-se.
— Ouviu-me, — falou Travis. — Para o quê está olhando? Eckels ficou, cheirando o ar, e havia algo no ar, uma substância tão tênue, tão sutil, que apenas um fraco aviso de seus sentidos su­bliminares avisavam-lhe que estava ali. As cores, branco, cinza, azul, laranja, na parede, na mobília, no céu, pela janela, eram… eram… E havia uma sensação. Sua carne crispava-se. Ficou bebendo aquela estranheza com os poros de seu corpo. Em algum lugar, alguém devia estar soprando naqueles apitos que só os cães podem ouvir. Seu cor­po gritava silenciosamente, em resposta. Além deste aposento, além desta parede, além deste homem, que não era exatamente o mesmo homem que estava sentado àquela mesa, que não era bem a mesma mesa… estava todo um mundo de ruas e gente. Que espécie de mun­do era agora, não havia como dizer. Ele podia senti-los mover-se ali, além das paredes, quase, como peças de xadrez por um vento quen­te…
Mas a coisa mais imediata era o anúncio pintado na parede do escritório, o mesmo que havia lido hoje ao entrar. De alguma forma, o anúncio havia mudado:
SEFARIS NU TENPO, INC.
SEFARIS PRA QUALQUER ANO PAÇADO.
CÊ DIS QUI ANIMAU.
NÔIS LEVAMOS CÊ LÃ.
CÊOABAT.
Eckels sentiu-se caindo numa cadeira. Ficou mexendo, como louco, na lama em suas botas. Ergueu um pedaço de algo enlameado, tremendo. — Não, não pode ser, não uma coisinha assim, não!
Embebida na lama, brilhando em verde e dourado e preto, havia uma borboleta, muito bela, e muito morta.
Não uma coisa assim! Não uma borboleta! — gritou Eckels.
Caiu ao chão, uma coisa exótica, pequena, que poderia desman­char equilíbrios e derrubar uma fila de dominós pequenos, e então grandes dominós, e então dominós gigantes, por todos os anos atra­vés do Tempo. A mente de Eckels turbilhonava. Não podia mudar as coisas. Matar uma borboleta não podia ser tão importante! Ou pode­ria?
Seu rosto estava frio. Sua boca hesitava, ao perguntar: — Quem… quem ganhou a eleição presidencial ontem?
O homem atrás da escrivaninha riu-se. — Está brincando? Sabe muito bem. Deutscher, claro! Quem mais? Não aquele maluco pusi­lânime do Keith. Temos um homem de ferro, agora, um homem de peito! — O funcionário parou. — O que há de errado?
Eckels gemeu. Caiu de joelhos. Examinava a borboleta dourada com dedos trêmulos. — Não podemos — implorava ao mundo, a si mesmo, aos funcionários, à Máquina. — Não podemos levá-la de vol­ta, não podemos fazê-la viver de novo? Não podemos recomeçar? Não poderíamos…
Não se moveu. Olhos fechados, esperou, abalado. Ouviu Travis ofegando, na sala; ouviu Travis apontar o rifle, destravá-lo.
Houve um som de trovão.

Fonte: BRADBURY, Ray. Os Frutos Dourados do Sol. São Paulo: Círculo do Livro.

2.       Depois de ler o conto, assista ao filme “O som do trovão” baseado no conto homônimo de Ray Bradbury, autor do clássico de ficção científica Fahgrenheit 451.

3.       Leia a notícia de jornal abaixoJ



NOVA YORK - Investigadores federais prenderam um enigmático aplicador  de  Wall Street acusado de ter acesso a informações internas e  privilegiadas.

E, incrivelmente, ele alega ser um viajante do tempo do ano 2256!
Fontes da Comissão de Segurança confirmam que Andrew Carlssin, de 44  anos, ofereceu esta bizarra explicação para seu incrível sucesso no mercado  de ações, após ser levado algemado em 28 de janeiro. "Não acreditamos na  história desse cara - ou ele é um lunático ou um mentiroso patológico", disse um membro da Comissão. "Mas o fato é que, com um investimento inicial  de apenas 800 dólares, em duas semanas ele tinha um portfólio avaliado em 350 milhões de dólares. Toda transação que ele fez deu lucros, em áreas inesperadas dos negócios, o que não pode ser simplesmente sorte.  
Ele só pode ter conseguido através de informações internas ilegais. Ele  vai ficar sentado em uma cela na Ilha Riker até concordar em divulgar suas  fontes".
Quando investigadores pressionaram Carlssin durante o interrogatório, foram surpreendidos por uma confissão que durou quatro horas. Carlssin declarou que viajou de volta no tempo a partir de 200 anos no futuro e que seu  conhecimento dessa era lhe permitiu acumular a fortuna que obteve.
"Era tentador demais para resistir", teria dito Carlssin durante a confissão, que foi gravada em videotape. Para provar que estava falando a verdade, Carlssin se ofereceu para falar sobre "fatos históricos" como a cura da AIDS e o real esconderijo de Osama Bin Laden.
Tudo o que ele quer é que permitam que volte ao futuro em sua "nave temporal". Mas ele se recusa a revelar a localização da máquina ou falar como ela funciona, supostamente com medo de que a tecnologia "caia em mãos erradas".
O mais intrigante é que os agentes ainda não encontraram nenhum registro existente sobre qualquer Andrew Carlssin antes de dezembro de 2002.  
4.       Pergunte aos alunos quais filmes ou livro de literatura que eles conhecem com o tema “viagem no tempo.

5.       Peça aos alunos que respondam: Se você fosse um viajante do tempo para onde viajaria e por quê?


Produção textual: conto de ficção científica

a) A partir dessas informações, continue a narrativa a seguir, retirada do romance “A máquina do tempo” de H.G. Wells

“Temo que não me seja possível transmitir com precisão as peculiares sensações que nos produz a viagem no Tempo. São muito desagradáveis. Ela nos produz uma sensação semelhante à que nos dá uma montanha-russa – a de um movimento irresistível para a frente! E o tempo inteiro eu sentia o mesmo pressentimento de uma colisão iminente. Quando fui ganhando mais velocidade, a sucessão de dias se assemelhava ao bater de uma imensa massa negra”. (WELLS, 2010, p. 78).


Despertando a imaginação

1.       Contos de autores brasileiros no site: http://www.contosfantasticos.com.br/

2.       Assista aos vídeos do youtube:
a)        Filme de 1928 mostra mulher ao celular  http://www.youtube.com/watch?v=4i6v2Jq8ENY
b)       Foto do viajante do tempo 1941 http://www.youtube.com/watch?v=kjwPdWKF5oc&feature=related
c)       Mais fotos de viajantes do tempo http://www.youtube.com/watch?v=9tkn8bBK-fg&feature=related
d)       John Titor – viajante zero http://www.youtube.com/watch?v=uDWIkNFrLBM&feature=related

3.       Assista também ao filme “Caçadores de emoção”