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quarta-feira, 10 de abril de 2013

Jeca Tatu


Leia os textos a seguir:

Texto 01

JECA TOTAL

Jeca Total deve ser Jeca Tatu
Presente, passado
Representante da gente no Senado
Em plena sessão
Defendendo um projeto
Que eleva o teto
Salarial do sertão
Jeca Total deve ser Jeca Tatu
Doente curado
Representante da gente na sala
Defronte da televisão
Assistindo Gabriela
Viver tantas cores
Dores da emancipação
Jeca Total deve ser Jeca Tatu
Um ente querido
Representante da gente no Olimpo
Da imaginação
Imaginacionando o que seria a criação
De um ditado
Dito popular
Mito da mitologia brasileira
Jeca Total
Jeca total deve ser Jeca Tatu
Um tempo perdido
Interessante a maneira do tempo 
Ter perdição
Que dizer, se perder no correr
Decorrer da história
Glória, decadência, memória
Era de Aquarius
Ou mera ilusão
Jeca Total deve ser Jeca Tatu
Jorge Salomão
Jeca Total Jeca Tatu Jeca Total Jeca Tatu
Jeca Tatu Jeca Total Jeca Tatu Jeca Total
(GIL, Gilberto. Todas as Letras. Organização de Carlos Rennó. São Paulo: Companhia das Letras, 1996, p. 171.)


Texto 02
“Jeca Tatu! Eis o melhor exemplar que médicos, políticos, ou simples curiosos poderiam apresentar. Ali estava êle, o pobre Jeca, sempre de cócoras, incapaz de ação, amarelo e fraco, chupado pelas verminoses. Elemento negativo, entre as fôrças produtivas da nação, era preciso curá-lo, limpá-lo das gafeiras. O diagnóstico fora feito. Vozes autorizadas afirmavam que o problema vital do Brasil não era o de uma simples reforma constitucional, como apregoava a oposição, nem a simples modificação dos nossos costumes políticos, ou a militarização da mocidade, como viria pregando o poeta Olavo Bilac. O problema número um do país [...] residia no saneamento do país.”
(CAVALHEIRO, Edgar. Monteiro Lobato. Vida e Obra.São Paulo: Editora Nacional, 1955, p. 229-230.)


Texto 03
“A canção é uma metáfora da, ainda que penosa e minimamente processada, emancipação do homem do povo do Brasil, dentro do grande ciclo histórico da politização das massas, simbolizada num ente idealizado em lugar da imagem depreciativa do brasileiro inviável, paupérrimo, esfarrapado, descalço e cheio de verme.”
(GIL, Gilberto. Todas as Letras. Organização de Carlos Rennó. São Paulo: Companhia das Letras, 1996, p. 171.)


De acordo com os textos transcritos acima, entende-se que
A) há um consenso entre os projetos de nação que se apresentam na canção de Gilberto Gil e no personagem de Monteiro Lobato.
(B) há um contraponto idealizado entre os projetos de nação que se apresentam na canção de Gilberto Gil e no personagem de Monteiro Lobato.
C) há, tanto em Gilberto Gil quanto em Monteiro Lobato, uma metáfora do Brasil que se coloca em um patamar progressista no tocante à identidade da nação.
D) há, tanto em Gilberto Gil quanto em Monteiro Lobato, uma ideia de avanço que representa a valoração política do homem comum.


fonte:

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Realismo e Naturalismo - pesquisa


Trabalho de Literatura – Realismo/Naturalismo

1. Quais obras dão início ao Realismo/Naturalismo no Brasil? Quem são os seus autores?
2. Por que os artistas da época atribuíram à arte uma função social?
3.  Que diferenças existem entre o Realismo e o Naturalismo?
4. Explique por que o Naturalismo pode ser entendido como um aprofundamento do Realismo?
5. Leia atentamente o texto de Alceu Valença:   Como Dois Animais

Uma moça bonita
de olhar agateado
deixou em pedaços
o meu coração

Uma onça pintada
e seu tiro certeiro
deixou os meus nervos
de aço no chão

Foi mistério e segredo
e muito mais
foi divino o brinquedo
e muito mais
se amar como dois animais

Meu olhar vagabundo
de cachorro vadio
olhava a pintada
e ela estava no cio.

Era um cão vagabundo
e uma onça pintada
se amando na praça
como os animais

a) Você diria que o texto acima apresenta pontos comuns com o Naturalismo? Justifique sua resposta.

Leia o texto e responda as questões 6, 7 e 8.
"Mas o livro é enfadonho, cheira a sepulcro, traz certa contração cadavérica; vício grave, e aliás ínfimo, porque o maior defeito deste livro és tu, leitor. Tu tens pressa de envelhecer, e o livro anda devagar; tu amas a narração direita e nutrida, o estilo regular e fluente, e este livro e o meu estilo são como os ébrios, guinam à direita e à esquerda, andam e param, resmungam, urram, gargalham, ameaçam o céu, escorregam e caem..."
MACHADO DE ASSIS. Memórias Póstumas de Brás Cuba. In: Obra completa.
6.  Uma das mais evidentes características da ficção de Machado de Assis é a utilização da metalinguagem. O que vem a ser esse recurso? Exemplifique com o trecho.
7.  Como é a relação do narrador com o leitor, de acordo com o texto?
8. A ironia machadiana, tão celebrada, expressa-se também nesse trecho, através de uma certa visão do leitor e de seu gosto literário.
a)  Segundo o narrador, que preferências do leitor  o impediriam de gostar do livro?
b)  Essas preferências de estilo foram atendidas por que movimento  literário ironizado pelo narrador?

Se eu morresse amanhã!


(UFSCAR 2010) Leia o texto de Manoel Carlos.
Envelhecer já foi um milagre, um sonho e também uma sentença cruel. Nossos poetas românticos, por exemplo, almejavam a vida curta, cravejada de muita tosse, e olhos fundos, aureolados de acentuadas olheiras. E, quando a vida se estendia, sentiam-se traídos pelo Destino, envergonhados diante da posteridade. Consta mesmo que um deles, aos 22 anos, preocupado com a hora final que tardava a soar, declarava-se com 20 anos – a fim de ampliar a chance de ser colhido ainda na juventude. Acabou não desapontando ninguém, nem a si próprio. Foi ceifado aos 23 anos.
Não fosse o fim precoce de seus autores, a maior parte da poesia romântica não teria sido escrita. A maior e a melhor, porque em toda a obra de Álvares de Azevedo poucos poemas se comparam à beleza de Se Eu Morresse Amanhã. O poeta deu o último suspiro aos 20 anos.
(Veja, 15.07.2009.)

a) Identifique a vertente da literatura romântica brasileira referida no texto e aponte duas de suas características.

b) Leia o poema de Álvares de Azevedo, transcreva um fragmento e explique por que ele exemplifica as considerações sobre a literatura romântica brasileira apresentadas por Manoel Carlos.


Se Eu Morresse Amanhã!

Se eu morresse amanhã, viria ao menos
Fechar meus olhos minha triste irmã;
Minha mãe de saudades morreria
Se eu morresse amanhã!

Quanta glória pressinto em meu futuro!
Que aurora de porvir e que manhã!
Eu perdera chorando essas coroas
Se eu morresse amanhã!

Que sol! que céu azul! que doce n’alva
Acorda a natureza mais louçã!
Não me batera tanto amor no peito
Se eu morresse amanhã!

Mas essa dor da vida que devora
A ânsia de glória, o dolorido afã...
A dor no peito emudecera ao menos
Se eu morresse amanhã!

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Navio Negreiro


PROCESSO SELETIVO UNAMA 2012/1
LEIA OS TEXTOS VERBAIS E O VISUAL A SEGUIR PARA RESPONDER ÀS QUESTÕES 01 E 02

Navio Negreiro
(Castro Alves)
(...) Desce do espaço imenso, ó águia do oceano!
Desce mais ... inda mais... não pode olhar humano
Como o teu mergulhar no brigue voador!
Mas que vejo eu aí... Que quadro d'amarguras!
É canto funeral! ... Que tétricas figuras! ...
Que cena infame e vil... Meu Deus! Meu Deus! Que horror!
(...) Era um sonho dantesco... o tombadilho
Que das luzernas avermelha o brilho.
Em sangue a se banhar.
Tinir de ferros... estalar de açoite...
Legiões de homens negros como a noite,
Horrendos a dançar...
(...) No entanto o capitão manda a manobra,
E após fitando o céu que se desdobra,
Tão puro sobre o mar,
Diz do fumo entre os densos nevoeiros:
"Vibrai rijo o chicote, marinheiros!
Fazei-os mais dançar!..."

Todo camburão tem um pouco de Navio Negreiro
(Marcelo Yuka – O Rappa)
(...) quem segurava com força a chibata
agora usa farda
engatilha a macaca
escolhe sempre o primeiro
negro pra passar na revista
pra passar na revista
todo camburão tem um pouco de navio negreiro
todo camburão tem um pouco de navio negreiro.


Garimpeiros da Serra Pelada (Sul do Pará)
(Sebastião Salgado (1986) http://www.terra.com.br/sebastiaosalgado)

01. O diálogo entre textos verbais e imagéticos não só é possível como também necessário para se ampliar possibilidades de estudo entre linguagens. A leitura dos textos do poeta Castro Alves, dos músicos da banda O Rappa e do fotógrafo documentarista Sebastião Salgado, nos permitem afirmar que há dialogismo entre eles.
Com base no comentário acima, avalie as afirmativas.
I. O poema de Castro Alves, as fotografias de Sebastião Salgado e a música de O Rappa, em suas formas de linguagem distintas, abordam o mesmo tema e promovem denúncias contra a violência.
II. A posição de visão (do alto) do fotógrafo, para realizar as fotos dos garimpeiros, remete à visão “condoreira” do poeta romântico, presente nos fragmentos de Navio Negreiro oferecidos à leitura.
III. Um movimento humano e árduo, evidente nos versos de Castro Alves, está sugerido plenamente também no texto imagético de Sebastião Salgado.
IV. A falta de individualidade no amontoado de pessoas retratado por Castro Alves também existe na “legião” de homens sem rostos tentando subir a serra, na imagem captada por Salgado.

O correto está em
a) II, apenas.
b) I e IV, apenas.
c) II e III, apenas.
d) I, II, III e IV.

02. “Baseando-se no conceito de cultura popular como apropriação de um determinado fato sociocultural, temos a correspondência intertextual da banda O Rappa (1994), buscando no Navio Negreiro de Castro Alves, século XIX, uma equivalência nas críticas sociais.”
(Juliana Machado de Brito, Darandim - Revista Eletrônica .www.ufjf.br/darandim).
Com base no comentário acima e nos textos lidos, avalie as afirmativas a respeito de Castro Alves, Sebastião Salgado e o grupo Rappa.
I. Estilizam violências de suas épocas buscando a mesma dimensão de impacto social.
II. Fazem parte de uma arte engajada que representa o Brasil metafórico da escravidão, da exclusão, da desigualdade.
III. Assumem o compromisso de interferir politicamente no processo social de conscientização da nação brasileira, criando um elo possível entre literatura, artes visuais, música e sociedade.
IV. Têm como única preocupação a concepção estética de uma vivência cotidiana mais aproximada da realidade.

O correto está apenas em
a) I, II e III.
b) II e III.
c) III e IV.
d) I. 

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Arcadismo - Um soneto para Marília


UEMG/ 2010
TEXTO 1
Irás a divertir-te na floresta,  
Sustentada, Marília, no meu braço, 
Aqui descansarei a quente sesta 
Dormindo um leve sono em teu regaço;  
Enquanto a luta jogam os pastores,  
e emparelhados correm nas campinas,
toucarei teus cabelos de boninas,
nos troncos gravarei os teus louvores 
Graças, Marília bela,
graças à minha estrela!
   (Tomás Antônio Gonzaga)

TEXTO 2
UM SONETO PARA MARÍLIA
                    À maneira de Dirceu

Eis que um dia na mata se banhava
Enquanto o deus as costas lhe voltava.
Cupido... e estava nu, inteiramente,                   
Pois que deixara à margem da corrente 

O arco terrível e a repleta aljava.                        
Só aguardava ocasião... E, de repente              
As armas furta sorrateiramente,
Surgem então as fauces escarninhas

Dos silvanos e sátiros astutos.
Põem-se a vaiar o Amor, sem mais cautelas
Marília que, às ocultas, o espreitava

—Ah! Temíeis as frechas quando minhas!
(E o deus sorri) Vereis agora, ó brutos,
O que Marília há de fazer com elas!
   (MARIO QUINTANA)

A respeito dos dois textos, observe os seguintes comentários:
I. Quanto ao gênero literário, o TEXTO 1  revela, encoberto na cena descritiva, um lirismo confessional, através do qual o eu poético expressa o seu amor, sua paixão.
II. O TEXTO 2 se constitui como paráfrase  do TEXTO I, ao reproduzir as mesmas ideias deste.
III. O TEXTO 2 mostra um locutor mais distanciado dos sentimentos e do confessionalismo amoroso;  quanto ao gênero literário, este texto traz uma tendência dominante do gênero narrativo.
IV. O TEXTO 2 contém insinuações humorísticas e sensuais que ‘desconstroem’ o clima lírico e confessional, presente na cena do TEXTO 1.
V. O TEXTO 2 centraliza seu foco de atenção à personagem Marília, numa tentativa de recuperar o confessionalismo amoroso escamoteado no TEXTO 1
VI. O TEXTO 2 desconstrói e dessacraliza a cena e o sentimento amoroso do TEXTO 1, constituindo-se como  paródia deste.

Está CORRETO o que se afirmou
A) apenas nos itens II, IV, V, VI.
B) apenas  nos itens I, III, V, VI.
C) apenas nos itens II, III, V, VI.
D) apenas nos itens I, III, IV, VI.

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Trabalho de equipe: Entrevista ficcional com o escritor Érico Verissimo


sábado, 7 de julho de 2012

Sermão do Mandato - Pe. Antônio Vieira

Leia o excerto do Sermão do Mandato de Pe. Antônio Vieira e responda às questões de 1, 2,3,4 e 5.

O amor sempre é amoroso; mas umas vezes é amoroso e unitivo, outras vezes amoroso e forte. Enquanto amoroso e unitivo, ajunta as extremidades mais distantes: enquanto amoroso e forte, divide os extremos mais unidos. Quais são os extremos mais distantes e mais unidos que há no mundo? O nosso corpo, e a nossa alma. São os extremos mais distantes; porque um é carne, outro espírito: são os extremos mais unidos; porque nunca jamais se apartam.
Juntos nascem, juntos crescem, juntos vivem: juntos caminham, juntos param, juntos trabalham, juntos descansam: de noite e de dia; dormindo e velando: em todo o tempo, em toda a idade, em toda a fortuna: sempre amigos, sempre companheiros, sempre abraçados, sempre unidos. E esta união tão natural, esta união tão estreita, quem a divide? A morte. Tal é o amor: Fortis est ut mors dilectio*. O amor, enquanto unitivo, é como a vida; enquanto forte, é como a morte. Enquanto unitivo, por mais distantes que sejam os extremos, ajunta-os: enquanto forte, por mais unidos que estejam, aparta-os.
Antes da Encarnação do Verbo, quais eram os extremos mais distantes? Deus e o homem. E que fez o amor unitivo? Trouxe a Deus do Céu à Terra, e uniu a Deus com os homens. Depois da Encarnação, quais eram os extremos mais unidos? Cristo, e os homens. E que fez o amor forte? Leva hoje a Cristo da Terra ao Céu.
* A morte é deleite do forte. (VIEIRA, A . Sermões. Porto: Lello e Irmão, 1959.)

Questão 1

A qual conceito de amor o texto de Vieira conduz?

A) Cristo e os homens amam diferentemente, o amor humano busca a união, o divino, a separação. 
B) O amor superior é capaz de buscar tanto a aproximação quanto a separação, se for benéfica ao ser amado. 
C) Forte é o amor capaz de vencer a todos os obstáculos para garantir a felicidade na relação amorosa. 
D) A morte é a conseqüência prevista quando se comprova a falta de amor entre as pessoas. 
E) Pessoas que amam verdadeiramente jamais abandonam o outro, permanecendo juntos sob qualquer dificuldade. 


Questão 2

A respeito do texto, assinale V para as afirmativas verdadeiras e F para as falsas. 
( ) Caracteriza-se pela função poética embora pertença a um gênero em que predomina a função referencial da linguagem. 
( ) Apresenta o propósito fundamental de persuadir, o que implica o desenvolvimento da arte de convencer, seja usando jogos de idéias, seja de palavras. 
( ) Revela o princípio barroco do fusionismo, procurando diluir conflitos. 
( ) Traz subjacentes ao significante alegórico uma conotação política e a intenção de transformação do universo social português. 

Assinale a seqüência correta.

A) F, F, V, V
B) F, V, F, V
C) V, F, V, F
D) F, V, V, F
E) V, V, V, F


Questão 3

A argumentação no texto de Vieira caracteriza-se por

A) apresentação esquemática das informações, elencadas de forma concisa e objetiva.
B) construção do tema sob a forma de tópicos, independentes entre si.
C) reiteração de informações, inclusive pela repetição de vocábulos e cognatos.
D) jogo de perguntas/respostas que interrompem a explanação, possibilitando a participação do ouvinte.
E) preferência pela linguagem denotativa, evitando o uso de analogias e alegorias.

Questão 4

Que idéias NÃO são colocadas em relação antitética no texto?
A) Corpo / alma (linha 3)
B) Unitivo / forte (linha 9)
C) Trouxe / leva (linhas 12 e 13)
D) Amoroso / unitivo (linha 1)
E) Ajunta / divide (linha 2)


Questão 5

O Barroco dá especial atenção à sintaxe textual. A esse respeito, marque a afirmativa INCORRETA.

A) O uso dos conectores – umas vezes/outras vezes (linha 1), enquanto/enquanto (linhas 1 e 2) – exemplifica uma sintaxe de caráter contrastivo. 
B) As orações coordenadas assindéticas Juntos nascem, juntos crescem, juntos vivem constituem uma gradação de caráter temporal. 
C) Em O amor, enquanto unitivo, é como a vida; enquanto forte, é como a morte., há indicação de proporção, paralelismo entre as partes. 
D) Em todo o tempo, em toda a idade, em toda a fortuna é exemplo de enumeração, traço constitutivo do texto de Vieira.
E) Em Enquanto unitivo, por mais distantes que sejam os extremos, ajunta-os: enquanto forte, por mais unidos que estejam, aparta-os., as orações grifadas expressam condição necessária em relação a ajuntar e apartar.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Exercícios literários - literatura afro-brasileira

Texto I
Essa Negra Fulô
O sinhô foi açoitar
sozinho a negra Fulô.
A negra tirou a saia
e tirou o cabeção,
de dentro dele pulou
nuinha a negra Fulô
Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!
(…)
Cadê, cadê teu Sinhô
que nosso Senhor me mandou?
Ah! foi você que roubou,
Foi você, negra Fulô?
Essa negra Fulô!
Jorge de Lima

Questão 01
É possível inferir do texto I que:
a) A temática social explorada pelo autor não toca na problemática racial, visto que no século XX, quando o poema foi escrito, isso já não havia mais.
b) A sensualidade da mulher negra aparece explorada no texto como forma de justificar a fraqueza do homem branco diante de tamanha abundância de formas em que se vê irremediavelmente perdido, pois, sozinho, não consegue resistir à tentação da carne.
c) O trecho é um bom exemplo de como era vista a mulher negra dentro daquele contexto social racista do homem branco: ela servia sempre de escrava sexual para ele.
d) O ato de açoitar a negra Fulô sem a presença de testemunhas pode ser um indicativo de que já havia uma intenção sexual implícita por parte do Sinhô.
e) O fato de o Sinhô fugir com a negra Fulô, deixando a Sinhá abandonada, procura mostrar como o cruzamento de raças se dava naquele tempo. Mostra, também, que a mulher branca não conseguia competir sexualmente em relação à mulher negra, pois as mulheres brancas eram mais reservadas na área sexual.

Questão 02

Texto II
OUTRA NEGA FULÔ
O sinhô foi açoitar
a outra nega Fulô
— ou será que era a mesma?
A nega tirou a saia,
a blusa e se pelou.
O sinhô ficou tarado,
largou o relho e se engraçou.
A nega em vez de deitar
pegou um pau e sampou
nas guampas do sinhô.
— Essa nega Fulô!
Esta nossa Fulô!,
dizia intimamente satisfeito
o velho pai João
pra escândalo do bom Jorge de Lima,
seminegro e cristão.
E a mãe-preta chegou bem cretina
fingindo uma dor no coração.
— Fulô! Fulô! Ó Fulô!
A sinhá burra e besta perguntou
onde é que tava o sinhô
que o diabo lhe mandou.
— Ah, foi você que matou!
— É sim, fui eu que matou —
disse bem longe a Fulô
pro seu nego, que levou
ela pro mato, e com ele
aí sim ela deitou.
Essa nega Fulô!
Esta nossa Fulô!
SILVEIRA, O. Outra nega fulô. Cadernos negros: os melhores poemas. São Paulo: Quilombhoje, 1998. p. 109-110.

Com base no poema, é verdadeiro o que se afirma nas seguintes proposições:
( ) O título do poema contextualizado — Outra nega Fulô — conduz a uma leitura de que a relação senhor/escrava persiste nos mesmos moldes escravistas dos séculos passados.
( ) O verso 12 — “Esta nossa Fulô!” —, reiterado no final do poema, evidencia um sujeito-poético afro-brasileiro, com suas ideias e sentimentos.
( ) O poema dialoga explicitamente com “Essa negra Fulô”, escrita pelo poeta Jorge de Lima.
( ) O uso de uma linguagem simples, informal, e a rejeição à gramática normativa constituem características da poética moderna presentes no texto.
( ) O poema reitera o estereótipo depreciativo da “Nega Fulô”, que se deita com o “sinhô”.

a) F V V V F
b) V F V F F
c) V V V F F
d) F F V V F
e) V V F V F

Questão 03
Os versos do texto I são do poema Essa Nega Fulô, que faz parte da chamada poesia negra de Jorge de Lima. Trata-se de um poema ______.
a) descritivo
b) abolicionista
c) dissertativo
d) narrativo
e) épico

Questão 04
Tendo como base o texto I como exemplo do Modernismo de 30, só não se pode afirmar que:
a) Os modernistas procuraram estabilizar suas conquistas e dar ênfase às questões sociais e à introspecção.
b) Os poetas que se destacaram no início da década de trinta, já semeavam num campo preparado pela geração de vinte e dois.
c) A geração de trinta, despreocupada com as questões imediatas de vinte e dois, ( o nacionalismo, o folclore, a destruição do passado, etc.), volta-se para as questões universais do homem, o “desconcerto do mundo” e os problemas da sociedade capitalista.
d) A religiosidade e o misticismo também são incorporados na obra de alguns poetas, como Jorge de Lima, Murilo Mendes e Cecília Meireles.
e) A partir de trinta, a poesia brasileira adquire preocupações esteticistas, através de uma geração que procurou restaurar a disciplina expressiva, o estudo da poética e a investigação verbal.

domingo, 23 de outubro de 2011

Marília de Dirceu






segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Barroco - poesias satíricas

Leia e responda ao que se pede:

I- Poema Barroco: Gregório de Matos – séc XVII

Triste Bahia! Ó quão dessemelhante
Estás e estou do nosso antigo estado!
Pobre te vejo a ti, tu a mi empenhado,
Rica te vi eu já, tu a mi abundante.

A ti trocou-te a máquina mercante,
Que em tua larga barra tem entrado,
A mim foi-me trocando e tem trocado
Tanto negócio e tanto negociante.

Deste em dar tanto açúcar excelente
Pelas drogas inúteis, que abelhuda
Simples aceitas do sagaz Brichote.

Oh quisera Deus que de repente
Um dia amanheceras tão sisuda
Que fora de algodão o teu capote!
***
II- Canção: Caetano Veloso – década de 70

Triste Bahia, oh, quão dessemelhante estás
E estou do nosso antigo estado
Pobre te vejo a ti, tu a mim empenhado
Rico te vejo eu, já tu a mim abundante
Triste Bahia, oh, quão dessemelhante

A ti tocou-te a máquina mercante
Quem tua larga barra tem entrado
A mim vem me trocando e tem trocado
Tanto negócio e tanto negociante

Triste, oh, quão dessemelhante, triste…
Pastinha já foi à África
Pastinha já foi à África
Pra mostrar capoeira do Brasil
Eu já vivo tão cansado
De viver aqui na Terra

Minha mãe, eu vou pra lua
Eu mais a minha mulher
Vamos fazer um ranchinho
Todo feito de sapê, minha mãe eu vou pra lua
E seja o que Deus quiser

Passos:
1- Leitura dos dois poemas acima.
2- Discutir sobre o tema provocado pela letra  da música: “Os elementos citados, como Bahia, pobreza, máquina mercante, entre outros, se associam ao quadro político-econômico do país na época: valeria a pena, em nome do desenvolvimento econômico do país, abrir as portas ao capital estrangeiro e suprimir a liberdade de expressão? Comentar sobre esta “pobreza” política e espiritual de um país que já tinha sido livre e alegre no passado.
3- Em seguida, observar os aspectos formais do poema (letra da música): a disposição dos versos, a seleção do vocabulário. Comparamos a linguagem barroca com a modernista.
4- Os alunos são desafiados a criar um poema, tomando os dois versos iniciais de Gregório de Matos, como o fez Caetano, e dessem continuidade ao poema, falando de sua cidade ou de seu país hoje.
 
 
Nota: não sei qual é a fonte.

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Barroco - sermões do pe. Antônio Vieira

Leia um fragmento do Sermão do Mandato, do orador barroco Antônio Vieira (1608-1697)

Sermão do Mandato

Começando pelo amor. O amor essencialmente é união, e naturalmente a busca: para ali pesa, para ali caminha, e só ali pára. Tudo são palavras de Platão, e de Santo Agostinho. Pois se a natureza do amor é unir, como pode ser efeito do amor o apartar? Assim é, quando o amor não é extremado e excessivo. As causas excessivamente intensas produzem efeitos contrários. A dor faz gritar; mas se é excessiva, faz emudecer: a luz faz ver; mas se é excessiva, cega: a alegria alenta e vivifica; mas se é excessiva, mata. Assim o amor: naturalmente une; mas se é excessivo, divide: Fortis est ut mors dilectio: o amor, diz Salomão, é como a morte. Como a morte, rei sábio? Como a vida, dissera eu. O amor é união de almas; a morte é separação da alma: pois se o efeito do amor é unir, e o efeito da morte é separar, como pode ser o amor semelhante à morte? O mesmo Salomão se explicou. Não fala Salomão de qualquer amor, senão do amor forte? Fortis est ut mors dilectio: e o amor forte, o amor intenso, o amor excessivo, produz efeitos contrários. É união, e produz apartamentos. Sabe-se o amor atar, e sabe-se desatar como Sansão: afetuoso, deixa-se atar; forte, rompe as ataduras. O amor sempre é amoroso; mas umas vezes é amoroso e unitivo, outras vezes amoroso e forte. Enquanto amoroso e unitivo, ajunta os extremos mais distantes: enquanto amoroso e forte, divide os extremos mais unidos.

Responda:
1. O trecho transcrito do sermão de Vieira apresenta traços peculiares do barroco. Verifique, numa leitura atenta, esses traços e, a seguir,
a) mencione e explique uma característica do estilo barroco que Vieira explora com insistência no seguinte trecho: "O amor é união de almas; a morte é separação da alma: pois se o efeito do amor é unir, e o efeito da morte é separar, como pode ser o amor semelhante à morte?";


2. Vieira, em seu sermão, afirma que uma mesma causa pode produzir efeitos contrários, conforme a presença ou não de determinado fator. O fator que, segundo Vieira, é responsável por fazer com que uma mesma causa produza efeitos contrários é:
( A ) o amor
( B ) a morte
( C ) o excesso
( D ) a união

3. Indique o fenômeno físico que Vieira apresenta como uma das provas do que afirma.

4. Um papa do século XVII, Clemente X, disse a respeito de Vieira: "Devemos dar muitas graças a Deus por fazer este homem católico, porque se o não fosse poderia dar muito cuidado à Igreja de Deus". Comente.

5. Por que ler o sermões do Pe. Antônio Vieira, escritos e pregados a cerca de 350 anos?

6. Assista a um dos sermões proferido no filme "Dúvida" e responda qual é a intenção do sermão?

domingo, 14 de agosto de 2011

Romantismo - A vingança feminina

1. Assista a cena de "Insensato Coração"
CAP.141-NORMA E LEO REENCONTRO 29/06/2011 PART-03



2. Assista trechos da novela "Essas Mulheres", baseada no romance "Senhora" de José de Alencar

- Noite de Núpcias 02


- Noite de Núpcias 03


- Noite de Núpcias 04



Reflexão

Analisando as cenas das novelas, comente sobre a atitude das personagens femininas (Norma e Aurélia). O que você faria numa situação como essa? Se vingaria também?

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Brasil 500 anos


Comercial dos Correios com texto da Carta de Pero Vaz de Caminha.

Anunciante: Correios
Título: Transformação
Agência: Ogilvy
Direção de Criação: Camila Franco

Releituras

1. Uma proposta interessante é pedir aos alunos releituras da Carta de Caminha, seguindo a proposta dos poetas Modernistas - com olhar crítico do processo de colonização:


Tupi or not tupi - This is the question
Oswald de Andrade

Brasil


O Zé Pereira chegou de caravela
E preguntou pro guarani da mata virgem
— Sois cristão?
— Não. Sou bravo, sou forte, sou filho da Morte
Teterê Tetê Quizá Quizá Quecê!
Lá longe a onça resmungava Uu! ua! uu!
O negro zonzo saído da fornalha
Tomou a palavra e respondeu
— Sim pela graça de Deus
Canhém Babá Canhém Babá Cum Cum!
E fizeram o Carnaval


Erro de português

Quando o português chegou
Debaixo duma bruta chuva
Vestiu o índio
Que pena!

Fosse uma manhã de sol
O índio tinha despido
O português


2.  Ou ainda releitura da carta como os modelos de Luís Fernando Veríssimo e outros que circulam pela internet. Quem sabe enviar um e-mail ao rei ou tuitar contando as novas sobre o Achamento da Nova Terra?

A derradeira carta do escrivão do Rei


            Pero Vaz de Caminha, o primeiro repórter no Brasil, não teve tempo de escrever tudo o que gostaria. Então, alguém tomou seu lugar
Imaginem uma segunda carta de Pero Vaz de Caminha ao rei dom Manuel. Ela teria sido escrita em Calicute, na costa ocidental da Índia, onde a frota de Cabral ancorou em 13 de setembro de 1500, depois do "achamento" do que ainda pensavam ser uma ilha, que chamaram de Vera Cruz. Às vésperas de morrer nas mãos dos indianos, junto com outros portugueses, Caminha fica sabendo que sua primeira carta, com o pedido para que o genro fosse trazido de volta do desterro, nem chegou às mãos do rei. Segue-se um trecho da missiva desconhecida até hoje:

Dos infortúnios da nossa viagem da terra nova, de onde saíram 11 naus, a Calicute, onde chegaram cinco, sabe ou ainda não sabe Vossa Alteza, mas não serei eu a atormentá-Lo como os ventos do Cabo Tenebroso nos atormentaram, pois muitas vezes mais cruel é o contar do que o acontecido. Saiba apenas que se muitos mareantes afundaram, afundaram com Vossa Alteza no pensamento, e que os peixes se banquetearam de boa fibra portuguesa. Bartolomeu Dias, sabe ou ainda não sabe Vossa Alteza, deu segundo turno à Natureza que um dia humilhou, e desta vez perdeu. Naufragou ao Cabo que deu nome, o da Boa Esperança. Seu nobre coração repousa entre os corais do fundo, e não brilha menos.
Viajávamos ainda ao longo da terra nova, antes das tormentas, quando uma noite encontrei o Capitão-mor, sozinho, barba ao vento, na amurada. Olhava para a silhueta negra da costa e sua própria silhueta era outro silêncio negro, até falar. "É grande a ilha, Caminha", disse-me ele, embora não tivesse dado sinal de me distinguir do breu. E eu disse: "É gigantesca a ilha, Capitão", e ele grunhiu um assentimento. Viajávamos já léguas para o sul sob as estrelas cruzadas e ainda não tínhamos encontrado o fim do gigante. "Ou não é ilha", disse o Capitão, e eu grunhi nem sim nem não.
O Capitão bateu com os dois punhos no peito e disse que sentia um continente por trás da silhueta negra que olhávamos. Sentia outro mundo, e sentia-o no peito. Disse: "Talvez mundo demais", e meu grunhido foi ainda mais precavido. E disse o Capitão: "Penso comigo que despertamos alguma coisa. Penso comigo, Caminha, que mexemos em alguma coisa demais". Grunhi de novo. E perguntei: "Quanto mais mundo haverá neste Ocidente?" E disse o Capitão que, quanto mais mundo houvesse, não faltariam portugueses para lhe dar nome. E passamos o resto do encontro em louvação a Portugal e a Vossa Alteza.
Em outro encontro na amurada, em outra noite, contei ao Capitão meu pensamento, que não tive tempo de incluir na carta para Vossa Alteza que seguiu na nau dos mantimentos, para o ingrato esquecimento. Pensei que o gentio pardo da ilha talvez não fossem cabaças vãs que receberiam a fé cristã como água, mas que continham outra devoção que a água do Senhor lavaria. Que nelas não haveria um vazio a se encher com alma, mas antes se trocaria uma alma por outra, como água ruim se troca por boa, ou borra por vinho novo. Pois não era só a inocência dos bichos que ali existia, antes dos portugueses e da Santa Cruz, e sim um povo e suas crenças. Que teriam pensado os pardos, ouvindo o latim das nossas missas? Que há séculos falavam com Deus na língua errada, e por isso tinham nada, enquanto os portugueses tinham camisas de linho, grandes barcos e grandes barbas, porque Deus os entendia.
Disse o Capitão, a silhueta sábia, que o que se olha e o que se vê são coisas diferentes, pois um olha as estrelas e vê um caranguejo e outro olha e vê os lampiões dos pescadores num mar noturno, e o que parecia inveja seria ira guerreira. Pois tínhamos desarrumado alguma coisa entre eles, pois tínhamos mexido em alguma coisa em suas vidas e suas mentes selvagens. E que o que diziam e não entendíamos era que nos queriam longe da sua terra, com nossa Cruz, nossas barbas e nossa maldita outra língua. E disse mais o Capitão que o gentio pardo nos queria longe como a uma doença, e quem poderia dizer se estavam certos? "A Europa é uma doença, Caminha?", perguntou o Capitão, e mal o entendi também. "Bendita doença, Capitão, que leva Cristo e traz gengibre." Foi a vez dele grunhir.
No nosso terceiro encontro na amurada, já em mar alto, o Capitão disse que olhar e ver eram tão diferentes que quem olhasse nossa chegada à ilha dos papagaios não saberia se naquilo via intenção ou acaso. Perguntei se Vossa Alteza e o Capitão já sabiam da existência da ilha, se não das suas gentes sem panos, ou se o acaso e o mau cálculo para lá nos tinham levado, mas quando ele ia responder ouviu-se um grito do vigia, "Cometa, cometa", e olhamos o céu indicado, e saíram os homens do seu recolhimento e olharam o céu indicado. E todos vimos a mesma coisa, uma estrela com uma longa cauda azul, e ninguém viu o mau agouro.
Não mais encontrei o Capitão na amurada, nas dez noites em que o cometa nos acompanhou. Depois começou a tormenta que nos levou tantas almas, e de que sabe ou não sabe Vossa Alteza. E da nossa última noite na amurada guardei do Capitão resposta à minha pergunta sobre a terra à qual nos levara desígnio ou acaso. O que tínhamos lá começado, depois de lhe dar o nome? E disse o Capitão: "Em 500 anos saberemos".
Por Luis Fernando Verissimo

Praga
Luis Fernando Veríssimo

Um índio, que até então nem sabia que era índio, estendeu a mão e ofereceu a Cristóvão Colombo um tomate.
- Um pomo d’oro! - exclamou o almirante, confundindo o fruto que brilhava ao sol da nova América com uma maçã selvagem. Depois examinou o fruto mais de perto e perguntou:
- Para o que serve?
- Saladas - respondeu o índio. - Refogados. Molhos.
- Para o espaguete! - exclamou Colombo, compreendendo por que o destino o trouxera até ali. Lembrando que seu nono, em Gênova, vivia elogiando Marco Polo por ter trazido o espaguete do Oriente e sua nona vivia dizendo que sim, o espaguete era bom, mas faltava alguma coisa. Sua missão estava revelada: numa só viagem, superara o Marco Polo do nono e descobrira o que faltava na macarronada da nona. Ficou com o tomate.
- O que você me dá em troca? - quis saber o índio.
Não se sabe que língua falavam. A linguagem mágica dos grandes encontros. Não interessa.
- Dou em troca um dos produtos supremos de nossa civilização. Uma preciosidade. Um dos frutos da indústria que breve chegará aqui e transformará este mato em outra Europa.
E Colombo deu uma miçanga ao índio.
Colombo perguntou que outra novidade o índio tinha para lhe dar. E o índio ofereceu uma batata.
- O que faremos com isto? - perguntou Colombo, olhando a feia batata com pouco entusiasmo.
O índio descreveu o futuro da batata, desde a sua importância na alimentação dos camponeses europeus em fomes ainda por vir até a “noisette” e as fritas. E Colombo botou a batata na algibeira e deu em troca uma moedinha de valor tão baixo, que em vez da cara mostra o joelho do rei. O que mais o índio tinha para lhe dar?
O fruto do cacaueiro, de onde sairia o chocolate. O índio descreveu o significado do chocolate para a história do mundo, especialmente da Suíça e da Bahia, e como seriam os bombons, e as barras recheadas com avelãs, e suspeita-se que tenha mencionado até a mousse. E Colombo trocou o cacau por um espelhinho. Que mais?
Fumo! Em breve, todos estariam experimentando as delícias do tabaco e o novo hábito dominaria o mundo. E para quem quisesse um barato ainda maior, o índio incluía a planta da coca junto com a planta do fumo em troca das contas que Colombo lhe oferecia. Que mais?
Milho. Aipim. Um papagaio.
- E isso que você tem no nariz? - perguntou Colombo, apontando para a argola de ouro.
- O que você me dá em troca?
Colombo ofereceu mais miçangas, que o índio não quis. Outra moedinha. Comprimidos. Vale transporte. Finalmente apontou sua pistola para a cabeça do índio e disse “Isto”. E disparou. Depois deu ordens a seus homens para recolher todo o ouro à vista, mesmo que tivessem que trazer os narizes juntos.
Do chão, antes de morrer, o índio amaldiçoou Colombo e praguejou. Que a batata tornasse a sua raça obesa, que o chocolate enchesse as suas artérias de colesterol, que o fumo lhe desse câncer, que a cocaína o enlouquecesse e que o ouro destruísse a sua alma. E que o tomate - pediu o índio aos céus, com seu último suspiro - se transformasse em ketchup e molho enlatado sem graça que estragasse o espaguete para todo o sempre. E assim aconteceu.
(OESP - 1.10.95)


Texto 2

Senhor: Posto que o capitão-mor desta vossa frota, assim como os outros capitães e o piloto escrevam a Vossa Alteza sobre onde estamos e como aqui chegamos, cabe-me relatar o que vimos, pois se, como escritor, pouco sei de marinhagem e singraturas, muito sei de espantos.
A partida de Belém para Calicute, como Vossa Alteza sabe, foi segunda-feira, 9 de março. No domingo, 22 do dito mês, nos vimos em calmaria à vista da Ilha de Cabo Verde, e rezamos todos por uma aragem que dali nos deslocasse, e tanto rezamos que do horizonte ergueu-se um rosto gigantesco, desses que se vêem nos mapas soprando os ventos, e perguntou: "Sois portugueses?". À nossa reposta positiva, e dado que o Mar é o Tejo sem as margens e nele reina Portugal, inflou suas bochechas quilométricas e nos pôs a caminho como Vossa Alteza é servida. Mas soprou demais, tanto que atravessamos não apenas léguas mas séculos, e antes de toparmos com a nova terra topamos com seus nativos, que nos cercaram, montados em barulhentos bichos anfíbios que na língua deles é "jetisquis". Foram eles que nos disseram, no seu linguajar que em alguns momentos parece cristão e em outros não, que sua terra se chamava "Bahia", que estávamos no ano 2000 e que, sim nos guiariam até a praia. Na língua deles "sim" é "oquei".
Ao desembarcarmos na praia fomos cercados por um gentio pardo, todos seminus, alguns com argolas nas orelhas, no nariz ou no umbigo ou com desenhos feitos na pele. As mulheres mal cobrem suas vergonhas, que são limpas das cabeleiras, e quando perguntamos, com gestos, que nome davam às vergonhas glabras, reponderam "de-pi-lação". Os nossos não acertaram a pronúncia, pois quando dias depois Nicolau Coelho disse que queria "de-pi-lação" foi levado para um lugar afastado onde algo lhe aconteceu que ele nunca nos contou, mas obviamente não era o que esperava. As moças andam com os peitos destapados e os peitos são altos e roliços. Peito, na língua deles, é "silicone", se bem os entendemos.
Aos poucos, usando a mímica, e já que todos eram extremamente amáveis, fomos aprendendo o linguajar do gentio e detalhes da sua vida e dos seus costumes. Eles comem em grandes construções chamadas "mac-do-naldis", ou refeitórios, e sua comida consiste em rodelas de carne moída entre pedaços de pão, às vezes com queijo, e nacos de um vegetal que ainda não conhecíamos, uma espécie de inhame chamado "fritas". Bebem um líquido preto, a "coca", ou cerveja. Vivem em construções de pedra de diversos andares mas muitos parecem morar em pequenas choupanas de metal enfileiradas, uma atrás da outra, chamadas "engarrafamento", e que, embora tenham rodas, não se mexem, pois não há cavalos para puxá-las. Outros vivem em casas mal construídas, com tábuas e latas ou dormem ao relento mesmo, pois o clima é ameno e dispensa cobertor e teto. As casa de muitos andares são chamadas de "flat", "flat services" ou outras palavras que, estranhamente, lembram o inglês. O que levou Bartolomeu Dias a sugerir que os ingleses talvez tenham estado por aqui, o que nos pôs todos a rir, pois, como bem sabe Vossa Alteza, nem em 500 anos a Inglaterra se igualará a Portugal como potência marítima, ora tem piada.
Eles usam uma espécie de dinheiro, que chamam de "porcaria", e aqui como em Portugal uma minoria tem muito e a maioria tem pouco. Com a diferença que aqui a minoria não é nobre, e portanto com o direito divino a ter muito, como em Portugal. O sistema de governo é monáquico e o rei é chamado de "antônio carlos", mas quando pedimos para falar com o líder deles houve uma grande discussão, com alguns querendo nos levar para um lado e outros para o outro, e concluímos que divergem sobre quem é o seu "antônio carlos".
Eles parecem não ter religião, embora passem muito tempo sentados em volta de um tabernáculo do qual emana uma intensa luminosidade, e que chamam de "novela", mas quando o padre frei Henrique, a pedido do nosso capitão-mor, celebrou a primeira missa na praia poucos demonstraram interesse. Um dos nativos aconselhou o padre frei Henrique a modificar a liturgia para atrair o pessoal e na segunda missa nosso bom padre cantou e dançou e pediu para todos cantarem com ele, e o gentio veio e cercou o altar improvisado e mostrou grande devoção, mas roubaram a cruz.
A terra, Senhor, é mui formosa. Águas são muitas, infindas, e em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo, por bem das águas que tem. Porém o melhor fruto que nela se pode fazer será salvar essa gente, mesmo que me pareça que para isso já é tarde. E por falar em salvar, peço que Vossa Alteza me faça a singular mercê de mandar vir da Ilha de São Tomé a Jorge de Osório, meu genro, e salvar um casamento. E assim partiremos desta vossa nova terra para Calicute, onde esperamos chegar antes dos ingleses. Todos menos o padre frei Henrique, que decidiu ficar e fazer carreira.
Beijo as mãos de Vossa Alteza.
Luis Fernando Veríssimo


Carta de Pero Vaz Atualizada:

Olá meu amado Rei, aqui quem fala é o Pero Vaz. Está me ouvindo bem? Peguei emprestado o celular de um nativo aqui da nova terra.
Tudo bem, o Capitão Pedro está lhe mandando um abraço. Chegamos na terça, 21 de abril, mas deixei para ligar no Domingo porque a ligação é mais barata.
É aqui tem dessas coisas. Os nativos ficaram espantados com a nossa chegada por mar, não achavam que éramos Deuses, Majestade.
Acharam que éramos loucos de pisar em um mar tão sujo. A ligação está boa? Pois é, essa terra é engraçada. Tem telefonia celular, digital, automóveis importados, acesso gratuito à Internet mas ainda tem gente que morre de malária e está cheia de criança barriguda de tanto verme. É meio complicado explicar. Se já encontramos o chefe? Olha Rei, tá meio complicado. Aqui tem muito cacique para pouco índio. Logo que chegamos a Porto Seguro tinha um cacique lá que dizia que fazia chover, que mandava prender e soltar quem ele quisesse. É, um cacique bravo mesmo...Mais para o Sul encontramos outra tribo, uma aldeia maravilhosa e muito festiva, com lindas nativas quase nuas. Seguindo em direção ao Sul, saímos do litoral e adentramo-nos ao planalto. Lá encontramos uma tribo muito grande. A dos índios Sampa. Conhecemos o seu cacique, que tinha apito mas que não apitava nada, coitado.
Dizem até que ele apanha da mulher. O senhor está rindo, Majestade?
Juro que é verdadeiro o meu relato. Como vossa Majestade pode perceber, é uma terra fácil de se colonizar, pois os nativos não falam a mesma língua. Sim, são pacíficos sim. É só verem um côco no chão para eles começarem a chutá-lo e esquecerem da vida.
Sabem, sabem ler, mas não todos. A maioria lê muito mal e acredita em tudo que é escrito.
Vai ser moleza, fica frio.
Parece que há um "Cacicão Geral", mas ele quase não é visto.
O homem viaja muito. Dizem que se a intenção for evitar encontrá-lo, é só ficar sentado no trono dele. Engraçado mesmo é que a "indiaiada" trabalha a troco de banana!!! Todo mês eles recebem no mínimo 200 bananas.
Não é piada, Majestade!! É sério!! Só vindo aqui prá ver. Olha, preciso desligar. O rapaz que me emprestou o telefone celular precisa fazer uma ligação. Ele é comerciante.
Disse que precisa avisar ao povo que chegou um novo carregamento de farinha. Engraçado... eles ficam tão contentes em trabalhar...
A cada mercadoria que chega, eles sobem o morro e soltam rojões.
É uma terra muito rica, Majestade. Acho que desta vez acertamos em cheio.
Isso aqui ainda vai ser o país do futuro...
Autor desconhecido