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terça-feira, 21 de março de 2017

exercícios para estimular o cérebro


A perseguição de carro


Um BMW em alta velocidade contornou o tribunal, perseguido por um Mercedes preto. Cantando pneu, furou um sinal que estava passando para o vermelho e, por pouco, não atropelou um idoso que atravessava a rua com uma bengala e uma sacola de supermercado. Um carro da polícia vinha no sentido oposto com as luzes e a sirene ligadas. O BMW desviou-se para evitar o carro da polícia, mas o Mercedes bateu num hidrante, que começou a esguichar água, fazendo a alegria das crianças no bairro.


PERGUNTAS

1 – Em que direção vinha o carro da polícia?

2 – Quantas coisas o idoso carregava?

3 – Qual a cor do sinal de trânsito?

4 – Qual dos carros bateu no hidrante?

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Exercícios da "máquina registradora"


EXERCÍCIO DA "MÁQUINA REGISTRADORA" 


A HISTÓRIA: Um negociante acaba de acender as luzes de uma loja de calçados, quando surge um homem pedindo dinheiro. O proprietário abre uma máquina registradora. O conteúdo da máquina registradora é retirado e um homem corre. Um membro da polícia é imediatamente avisado. 

Declarações acerca da história: Verdadeiro – Falso – Desconhecido

1. Um homem apareceu assim que o proprietário acendeu as luzes de sua loja de calçados.

( ) Verdadeiro ( ) Falso ( ) Desconhecido

2. O ladrão foi um homem.

( ) Verdadeiro ( ) Falso ( ) Desconhecido

3. O homem não pediu dinheiro.

( ) Verdadeiro ( ) Falso ( ) Desconhecido

4. O homem que abriu a máquina registradora era o proprietário.

( ) Verdadeiro ( ) Falso ( ) Desconhecido

5. O proprietário da loja de calçados retirou o conteúdo da máquina registradora e fugiu.

( ) Verdadeiro ( ) Falso ( ) Desconhecido

6. Alguém abriu a máquina registradora.

( ) Verdadeiro ( ) Falso ( ) Desconhecido

7. Depois que o homem que pediu o dinheiro apanhou o conteúdo da máquina registradora, fugiu.

( ) Verdadeiro ( ) Falso ( ) Desconhecido

8. Embora houvesse dinheiro na máquina registradora, a história não diz a quantidade.

( ) Verdadeiro ( ) Falso ( ) Desconhecido

9. O ladrão pediu dinheiro ao proprietário.

( ) Verdadeiro ( ) Falso ( ) Desconhecido

10. A história registra uma série de acontecimentos que envolvem três pessoas: o proprietário, um homem que pediu dinheiro e um membro da polícia.

( ) Verdadeiro ( ) Falso ( ) Desconhecido

11. Os seguintes acontecimentos da história são verdadeiros: alguém pediu dinheiro - uma máquina registradora foi aberta - seu dinheiro foi retirado e um homem fugiu da loja.

( ) Verdadeiro ( ) Falso ( ) Desconhecido

domingo, 10 de abril de 2011

Como se tornar um poeta sensível

domingo, 3 de abril de 2011

Exercícios de liberação da linguagem e do pensamento 2


"A função da poesia é encantar palavras. Tem outra: enlouquecer as palavras para que elas transmitam nossos delírios. Tem outra função ainda, que é a de renovar o idioma. Poesia é a loucura das palavras. (...) é preciso ensinar que o cheiro do lírio também é branco, (...) O que informa a palavra poética são nossas memórias fósseis. Nós moramos nas nossas antecedências. De lá a palavra nos traz. E só a invenção nos retira de lá." (Manoel de Barros)

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Jogos com palavras


O que distinguiu o ser humano dos outros animais do planeta foi a capacidade de criar a linguagem, esta maravilhosa construção simbólica que é a matéria-prima do próprio pensamento. Ler, falar, escrever e pensar — tudo é linguagem. Vivemos literalmente mergulhados num mar de palavras e estamos acostumados, desde pequenos, a olhar através delas para enxergar o mundo dos significados, da mesma forma que olhamos através da janela para enxergar a paisagem. Às vezes, no entanto, podemos fixar nosso olhar na própria vidraça: em vez de procurarmos o sentido de uma palavra, podemos examinar os sons, as letras ou os elementos que a constituem. Desligando um pouco nossa eterna preocupação com o significado, perceberemos então que existe uma outra faceta nas palavras que é — e sempre foi — uma fonte inesgotável de supresa e divertimento. Por exemplo, muitos podem não ter notado que a palavra anilina, que hoje serve para designar corantes dos mais variados matizes, provém de anil (azul); quantos, no entanto, perceberam que ela é um palíndromo, isto é, que pode ser lida de trás para frente, com o mesmo resultado? 
Quando libertamos a palavra de seu significado e prestamos atenção ao som, à estrutura e à grafia, abrimos um campo infinito de jogos, recombinando morfemas, descobrindo coincidências, permutando letras e sílabas. A criança decide quem vai começar a brincadeira por meio de jogos de escolha rimados, desprovidos de sentido, como “uni-duni-tê, salamê minguê“, ou “una, duna, tena, catena”, e se encanta com os trava-línguas, com o jogo da forca, com a língua do “P“, com os trocadilhos e as adivinhas. Os jogadores mais exigentes enfrentam as palavras cruzadas, as charadas, os anagramas, os palíndromos, os acrósticos, os lipogramas, entre dezenas de proezas e acrobacias verbais que o homem inventou para se divertir.  
palavra-valise — (ou palavra portmanteau) é aquela formada pela união de elementos de duas outras palavras. Geralmente se usa o início de uma e o final da outra. Trouxemos bit (binary digit) e motel (motor hotel) do inglês; aqui, formamos portunhol (português + espanhol), intelijumento (inteligente + jumento), estagflação (estagnação + inflação), aborrescente (adolescente + aborrecido). Millôr Fernandes iniciou a moda de montar palavras-valise imaginárias (cartomente – uma adivinha que nunca diz a verdade) ou interpretar palavras comuns como se tivessem essa dupla construção: cerveja — sonho de toda revista; melancólica — dor de barriga provocada por excesso de melão; presidiário — indivíduo preso todos os dias. 
spoonerismo — É um trocadilho em que ocorre uma troca de sons entre duas palavras, como transformar bola de gude em gula de bode. Seu nome vem de W. A. Spooner, um desastrado pregador britânico que ficou famoso por esses lapsos involuntários. Millôr tem uma hilariante versão da fábula do bode e da raposa, intitulada A baposa e o rode, totalmente escrita em spoonerismos. 
anagrama — Consiste em uma palavra obtida pela transposição das letras de outra; é indispensável que a nova palavra utilize exatamente as mesmas letras. Um bom anagrama deve ter o seu significado relacionado de alguma forma com a palavra original, algumas vezes com efeito satírico ofensivo. Os nomes Alice e Belisa, por exemplo, nasceram da recombinação das letras de Célia e Isabel, respectivamente. É clara a intenção simbólica de José de Alencar, ao batizar de Iracema — anagrama de América — a heroína de seu romance indianista, assim como é puro jogo de maledicência apontar que Axl Rose é o anagrama de oral sex e argentino é o anagrama de ignorante.
palíndromo — é a palavra ou frase que pode ser lida da esquerda para a direita ou da direita para a esquerda. Este vocábulo é clássico, de origem grega; nele encontramos os elementos palin, “de novo”, mais dromo, percurso, circuito. Há palíndromos em simples palavras (Ana, anilina, arara, oco, osso, matutam, Oto, ovo, mirim, radar, rotor) ou em frases completas: “A grama é amarga” (Millôr), “Irene ri” (Caetano), “Assim a aia ia à missa” (Barão de Itararé), “Seco de raiva, coloco no colo caviar e doces” (Rômulo Marinho). De domínio público, temos “Roma me tem amor”, “Atai a gaiola, saloia gaiata” e o surrealista “Socorram-me, subi no ônibus em Marrocos“.
lipograma — Do grego lipo (”deixar, retirar”) e grama (”letra”). Eis uma boa definição lipogramática, com a letra E excluída: “Isto constitui um lipograma: uma oração, um parágrafo, um capítulo, um livro todinho composto faltando um dos nossos símbolos gráficos; no caso atual, omiti a vogal situada após o D“. O lipograma já era cultivado entre os gregos; no séc. XVII, o espanhol Alonso de Alcalá escreveu cinco novelas de amor que omitiam, sucessivamente, as cinco vogais no espanhol. O endiabrado George Perec (1938-1982), membro do Ou.Li.Po (grupo dedicado a jogos verbais e literários), escreveu o romance La Disparition (”O Desaparecimento”) omitindo a vogal “E“, a mais usada no Francês. 
pangrama — Texto que utiliza todas as letras do alfabeto (do grego pan, “todas”, e grama, “letra”) ao mesmo tempo. Um bom pangrama deve usar o menor número possível de letras e não ser desprovido de sentido. Quem sempre se interessou por este tipo de jogo foram os tipógrafos e os professores de datilografia, preocupados em acostumar os alunos com a totalidade do teclado. No inglês, a frase “The quick brown fox jumps over de lazy dog” (A lépida raposa marrom pula por cima do cachorro preguiçoso) tem oito falhas (oito letras repetidas), mas o seu simpático significado fez dela o exemplo mais conhecido de pangrama. 

Experiências de liberação da linguagem e do pensamento 2

Estímulo visual pode ajudar a desenvolver a criatividade escrita

O ensaísta David Perkins criou, em A Banheira de Arquimedes, um exercício para estimular pensamentos criativos que podemos aplicar à produção de textos. Ele apresenta dois desenhos com linhas simples, que sugerem um significado, mas solicita uma interpretação que não seja óbvia.

A legenda mais comum ao Desenho 1 é: quatro elefantes examinando uma laranja.
A do Desenho 2 é: um homem de gravata-borboleta preso no elevador.
Perkins, então, pede outros títulos para os desenhos: como romper com a solução conhecida para sair por aí sem rumo no espaço das possibilidades? Algumas respostas para o Desenho 1 que Perkins obteve: quatro pregos ou quatro exclamações competindo pelo mesmo ponto; quatro pregos para o mesmo buraco etc.
Crie a sua solução para os dois desenhos e, em seguida, aplique o mesmo esforço a textos, ao responder a esta versão do exercício:
Veja uma cena qualquer, uma imagem, uma forma ao acaso. Imagine um título para essa cena, uma situação qualquer que lhe dê contexto, mas descarte a que lhe pareça mais previsível.




Mapa mental

Exercício ensina a fazer texto a partir dos derivados de uma só palavra

A consultora de comunicação Renata Di Nizo apresenta uma série de exercícios de texto em Escrita Criativa - O Prazer da Linguagem (Summus Editorial, 2008: 113-4), dos quais um trabalha com a capacidade de reproduzir palavras.
Instruções: separe uma caixa de lápis colorido e uma folha de papel A3 ou A4. Escolha uma palavra-chave. Escreva-a no centro da folha. Faça associações livres, unindo as ideias aleatoriamente. Se preferir, selecione algum tema que o mobilize internamente.
Como exemplo, Renata sugere como palavra-chave o termo "criança". Criança lembra o quê? - pergunta a autora. Ela sugere que a pessoa anote as associações espontâneas, desenhando linhas assimétricas, como troncos ou galhos. Ao esgotar uma linha, deve perguntar-se de novo ao que a palavra nos remete, até preencher a folha com muitas ideias atreladas umas às outras, cada palavra escrita numa cor diferente (o lado direito do cérebro enxerga o mundo colorido).
Uma vez concluído o mapa mental, escreva um texto em torno da palavra-chave, sem se preocupar com os aspectos formais de linguagem. Use de cinco a vinte minutos na tarefa. Se houver alguma ruptura no fluxo de ideias, olhe o mapa e pegue alguma palavra que lhe pareça inspiradora.
Outro exercício sugerido por Renata é fazer uma história nascer de uma só palavra. A partir de uma palavra-semente (como "azeitona" "economia", "pensionato", "trânsito"), a pessoa deve escrever, entre um e três minutos, lembranças, sensações, movimento, um resumo de história, por livre-associação, "sem parar, sem pensar em frases ou em um texto", escreve a autora.



Fonte: http://revistalingua.uol.com.br/textos.asp?codigo=11730

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Reeducar os sentidos


O absurdo da metáfora
 A estética surrealista nos ensinou a produzir emoções inesperadas usando elementos contraditórios
Braulio Tavares
A poesia fala por imagens inesperadas, que nos forçam a pensar em algo pela primeira vez. Dos recursos básicos à disposição do poeta (ideia, música, imagem) a imagem talvez seja o que nos produz o impacto maior à primeira leitura, porque nos evoca o mundo dos sentidos e nos faz de maneira indireta ter experiências visuais, auditivas, táteis etc. por meio da palavra.
Quando Manuel Bandeira diz (em "Cantilena") que "o céu parece de algodão" está produzindo uma imagem visual porque se trata de um dia chuvoso e nublado, e também tátil, porque o acúmulo de nuvens no céu lembra a textura do algodão. Subindo um degrau na escala das metáforas, o poeta Marcus Accioly (em "Os bichos") fala de "um céu de dragões entre espadas vermelhas". Aqui, a imagem não pode ser tomada ao pé da letra pois busca sugerir um pôr do sol nos vastos espaços sertanejos. Os dragões e as espadas existem como projeções figurativas do poeta sobre as formas abstratas das nuvens e dos raios do sol.
O Surrealismo dos anos 20 foi um movimento importante para libertar a poesia. Em torno do poeta André Breton e da revista La Révolution Surréaliste, poetas criaram manifestos, polêmicas, bateram-se contra a crítica literária, o governo e o clero em nome de uma libertação do Homem que ia além da linguagem poética. Apesar de nascido na literatura, o Surrealismo tornou-se mais conhecido durante o resto do século 20 pelo cinema de Luís Buñuel e pela pintura de Salvador Dalí, Max Ernst e outros. 

Sem censura
O objetivo dos surrealistas era reproduzir o mecanismo do pensamento humano, livre de censuras impostas pela estética, moral, lógica etc. Isso era obtido por meio da "escrita automática", em que o poeta escrevia depressa e sem pensar. A qualidade literária desses escritos era oscilante, mas Breton dizia que somos bitolados e deformados por fórmulas literárias antigas e que "é preciso limpar as estrebarias da mente". Outro recurso usado pelo grupo era o poema escrito ao acaso, em pedaços de papel onde cada poeta escrevia algo, dobrava e passava adiante. O resultado aleatório dessas palavras colocadas por cada um deles produzia frases de estranha beleza: "O cadáver delicado beberá vinho novo", "A ostra do Senegal comerá o pão tricolor" etc.

A poesia surrealista é feita de imagens desconexas, sem sentido.
O termo passou a fazer parte da nossa linguagem diária para exprimir qualquer situação absurda, como em "o Brasil é um país surreal". O impacto desse movimento se deu por meio do que poderíamos chamar, não de surrealismo puro, mas de surrealismo aplicado: a liberdade de usar imagens inesperadas, chocantes e aparentemente absurdas. O contato com as experiências surrealistas produziu em muitos poetas uma liberação imaginativa, enriquecendo seus recursos de comparação, de metáfora e de produção de imagens sensoriais.

Influências
Sem a influência do Surrealismo, talvez García Lorca não tivesse a liberdade de escrever versos como estes (que lembram os quadros de seu amigo Dalí): "Os morcegos nascem / das esferas. / E o bezerro os estuda / preocupado. / Quando será o crepúsculo / de todos os relógios? / Quando essas luas brancas / se fundirão aos montões?" ("A Selva dos Relógios"). Carlos Drummond não pode ser chamado de poeta surrealista, mas sem a liberação surrealista seria mais difícil que produzisse versos como estes de "Rola Mundo": "Vi o coração de moça / esquecido numa jaula. / Excremento de leão / apenas. E o circo distante. / Vi os tempos defendidos. / Eram de ontem e de sempre, / e em cada país havia / um muro de pedra e espanto, / e nesse muro pousada / uma pomba cega". Pablo Neruda também não escapou ao Surrealismo, presente não apenas nas imagens mas no espírito iconoclasta de "Walking Around": "(...) Seria belo / andar pelas rua empunhando um punhal verde / e dando gritos até morrer de frio". Talvez o grande poema-livro surrealista de nossa literatura seja a "Invenção de Orfeu", de Jorge de Lima: "Era um cavalo todo feito de lavas / recoberto de brasas e de espinhos. / Pelas tardes amenas ele vinha / e lia o mesmo livro que eu folheava".

Alongamento mental
O aparente absurdo da imagem surrealista típica nos leva a uma espécie de alongamento mental, a um esforço do intelecto e da sensibilidade para acomodar elementos disparatados. O ensaísta Ernst Fischer dizia que "a arte não é para passar por portas abertas, mas para abrir portas que estão fechadas". Esse absurdo poético cria novas associações de imagens e ideias, produz emoções surpreendentes por meio do choque de elementos contraditórios, forçando o leitor a reeducar sua sensibilidade.
Em seu livro-poema, Jorge de Lima fala no "planalto das cobras laminadas" e em "céu duende", imagens que, a um leitor de poesia de cem anos atrás, pareceriam sem sentido mas que, para um leitor de hoje, adquirem um suprassentido. O sentido de uma imagem poética resulta de um pacto entre autor e leitor, em que este assimila o choque inicial de surpresa e, dando ao poeta um crédito de confiança, busca dentro de si próprio as ressonâncias de sentido e de emoção que aquelas frases lhe despertam. Nunca serão as mesmas, é claro, mas um poema é isto, um gerador de múltiplas ressonâncias em múltiplos leitores.

Braulio Tavares é compositor, autor de Contando Histórias em Versos (Editora 34, 2005).

VELHA HISTÓRIA
Mário Quintana
     Era uma vez um homem que estava pescando, Maria. Até que apanhou um peixinho. Mas o peixinho era tão pequenino e inocente, e tinha um azulado tão indescritível nas escamas, que o homem ficou com pena. E retirou cuidadosamente o anzol e pincelou com iodo a garganta do coitadinho. Depois guardou-o no bolso traseiro das calças, para que o animalzinho sarasse no quente. E desde então ficaram inseparáveis. Aonde o homem ia, o peixinho o acompanhava, a trote, que nem um cachorrinho. Pelas calçadas. Pelos elevadores. Pelos cafés. Como era tocante vê-los no "17"! - o homem, grave, de preto, com uma das mãos segurando a xícara de fumegante moca, com a outra lendo o jornal, com a outra fumando, com a outra cuidando do peixinho, enquanto este, silencioso e levemente melancólico, tomava laranjada por um canudinho especial...
    Ora, um dia o homem e o peixinho passeavam à margem do rio onde o segundo dos dois fora pescado. E eis que os olhos do primeiro se encheram de lágrimas. E disse o homem ao peixinho:
"Não, não me assiste o direito de te guardar comigo. Por que roubar-te por mais tempo ao carinho do teu pai, da tua mãe, dos teus irmãozinhos, da tua tia solteira? Não, não e não! Volta para o seio da tua família. E viva eu cá na terra sempre triste..."
    Dito isto, verteu copioso pranto e, desviando o rosto, atirou o peixinho n'água. E a água fez um redemoinho, que foi depois serenando, serenando...até que o peixinho morreu afogado...
In "Poesias"

Observe os seguintes aspectos do texto de Quintana:
a)  O ilogismo de Quintana:  como o peixe que sai do rio, vive como um animal terrestre (e de estimação) e, quando volta para a água, morre.
b)  Em que momento a ironia está presente no texto?

c)  A construção das imagens poéticas:  “Mas o peixinho era tão pequenininho e inocente, e tinha um azulado tão indescritível nas escamas, que o homem ficou com pena.”
d) Melancolia: há identificação entre criatura e criador, levantando à seguinte reflexão: Já que o peixe é melancólico, tal qual o narrador, estaria Quintana se projetando no personagem?
e) Vocabulário: o uso de expressões desconhecidas no contexto semântico como “copioso pranto”, “serenando” “não me assiste”, “moca”, entre outras.
f) Exploração da construção frasal:  “Ora, um dia o homem e o peixinho passeavam à margem do rio onde o segundo dos dois fora pescado. E eis que os olhos do primeiro se encheram de lágrimas.”
g) Aproximação do texto com o Conto de Fadas, que pode ser percebido na expressão “Era uma vez...” e no título “Velha História”.


Brincando de fazer poesia

1. Escrita automática: Essa escrita consiste...
... em ter uma folha de papel, escrever tudo o que vem à cabeça, o mais rapidamente possível. Não parar para ler o que já se escreveu nem dar atenção ao respeito ou não que se está a ter pelas margens ou pelas normas de ortografia. Apenas se deve escrever, incessantemente, durante um determinado tempo ou até cansar. Caso algum bloqueio apareça, é escrevê-lo! O importante é não parar. No início a tendência é escrever coisas díspares, sem sentido (aparente), palavras ou frases soltas. Mas, com a prática, é possível escrever textos quase acabados, com abordagens originais, sinceras e criativas!

2. JOGO "CADÁVER ESQUISITO"
Um exercício bastante interessante é o Cadáver Esquisito que os escritores surrealistas praticavam como uma espécie de escrita automática. Consiste em passar uma folha em branco de aluno para aluno e cada um escreve o que bem quiser numa linha, mais ou menos. O importante é que, quando um escreve, o seguinte não veja, assim como o anterior.
Para isso, cada um escreve e dobra imediatamente o papel de cima para baixo, sendo que a folha vai se enrolando e escondendo as frases. O acaso das frases soltas, o contraste da junção de uma com outra, o traço lúdico do texto no conjunto criam uma atmosfera (tom) relativamente sugestiva que lembra a linguagem poética.

domingo, 2 de janeiro de 2011

Experiências de liberação da linguagem e do pensamento

Experiência de liberação da linguagem e do pensamento

         O primeiro passo para produzirmos um texto que realmente expresse nossa linguagem, nosso pensamento, nossa imaginação criadora, deve ser no sentido de liberá-los de toda a sorte de condicionamentos que os tornam padronizados e mecânicos.

1. Escrita automática: escreva  livremente, de um modo solto e despreocupado, para tudo que vier à cabeça sem parar de ler, sem parar para raciocinar, sem analisar, escrever livremente, do modo mais solto possível, deixando o pensamento e a linguagem e as mãos e o corpo completamente à vontade. - o que vier à cabeça irá para o papel.
Obs.: Se aparecer algum bloqueio, alguma censura, deve ir também para o papel.

2. Associação Livre: associe livremente palavras a outras palavras que vão sendo propostas; de modo livre, sem nenhum  raciocínio, imediatamente. Você escreve a primeira palavras que vier à sua cabeça. Não se preocupe com relações lógicas, não pare para pensar; assim, escreva o mais rápido possível a primeira palavra que lhe vier em relação a

bicho          papel          corpo          fruto      sangue        pedra                  asa             noite           espelho       mar

3. Fluxo verbal: associe palavras fazendo a relação a partir de algum aspecto proposto. Há muitas variantes possíveis.

a) Escreva o maior número de palavras que comecem com a letra dada:   
P        R       T        M       S

b) Escreva palavras que tenham sonoridade semelhante a:
         porto           rua              mato          

c) Escreva palavras que tenham significados semelhantes às palavras sugeridas (não há necessidade de sinônimos, basta que haja semelhança de algum modo):
         corpo           amor           natureza               cidade        trabalho

4. Criação de texto a partir de palavras geradoras: você vai criar um texto, como você quiser, de modo que as palavras abaixo apareçam, na sequência que você quiser.
a)
         Manhã               mão            fábrica                  terra            liberdade
         Nuvem              faca            noite                     pássaro

b)
         sangue                 sapo           grito           maçã           tempestade
         noite                    coração       chapéu        mel

c) a partir de textos, escolha algumas palavras e, em seguida, crie um texto em que elas apareçam.

d) a partir de um texto, escolha uma frase ou mais frases. Em seguida, crie o seu texto, incluindo as frases em algum momento do trabalho.

e) a partir de alguns estímulos visuais – quadro, desenho, escultura, paisagem de janela, etc.

f) a partir de uma música que mexa com você, escolha uma série de palavras e escreva um texto livre.
 
g) a partir das letras do alfabeto, exceto K, W eY.

5. Criação a partir de suas palavras: escreva dez palavras  fundamentais da sua realidade, dez que signifiquem muito para sua vida, que falem muito de você.
         Agora associe cada palavra a outras.
         Em seguida tente fazer um texto livre, que contenham algumas das palavras que você escreveu primeiro e outras das palavras associadas.

6. Criação a partir das palavras do outro: para você realizar essa experiência de modo inteiro, mais fundo, tente se colocar mesmo no lugar do outro, identificar-se com ele, sentir como ele se sente, vivenciar a realidade dele.
         Escolha uma das propostas:
         Um motorista de caminhão
         Um operário de grande indústria
         Um palhaço de circo
         Um jardineiro
         Um jogador de futebol

         Escreva dez palavras fundamentais da vida dessas pessoas. Utilize pelo menos cinco dessas palavras e tente fazer um texto em que uma dessas pessoas fale dela, da sua vida, da sua realidade.

7. Função emotiva da Linguagem:
         Leia alguns fragmentos de textos:

“Eu não tinha esse rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.”
                                      Cecília Meireles

“Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.”
                                      Álvaro de Campos (heterônimo de Fernando Pessoa)

“Não amei bastante sequer a mim mesmo,
contudo próximo. Não amei ninguém.
Salvo aquele pássaro – vinha azul e doido –
que se esfacelou na asa do avião.”
Carlos Drummond de Andrade

Os Dois Lados
Deste lado tem meu corpo
Tem o sonho
Tem a minha namorada na janela
(...)
Do outro lado tem outras vidas vivendo a minha vida
Tem pensamentos sérios me esperando na sala de visitas
(...)
                                      Murilo Mendes

“Só uma palavra me devora:
Aquela que meu coração não diz”

Agora fale de você, de sua vida. Tente criar um texto que seja seu retrato vivo e verdadeiro.

8. Enumeração: enumerar é fazer uma lista, uma série, uma sequência de elementos. O texto fica ao mesmo tempo contínuo e descontínuo: cada elemento tem vida própria, e simultaneamente, se relaciona com todos os outros.
Veja:
“O amor é finalmente
um embaraço de pernas,
uma união de barrigas,
um breve tremor de artérias
Uma confusão de bocas,
uma batalha de veias,
um reboliço de ancas,
quem diz outra coisa é besta“.
                            Gregório de Mato

“O primeiro olhar da janela de manhã
O velho livro de novo encontrado
Rostos animados
Neve, o mudar das estações
O jornal
O cão
A dialéctica
Tomar duche, nadar
Velha música
Sapatos cómodos
Compreender
Música nova
Escrever, plantar
Viajar, cantar
Ser amável.

Bertold Brecht, in 'Do Pobre B.B.'

         Escreva um texto enumerativo a partir de um dos temas a seguir:
        
 Algumas felicidades
         Aqui e agora
         Da janela do ônibus
         Centro da cidade
         Retrospectiva do ano que se está vivendo.
 “Amamos o que não conhecemos, o já perdido.” (Borges)
        
                                     
9. Me dá o mote: a partir de “motes” você vai escrevendo o que lhe vier à cabeça, em ritmo de escrita automática.

Exemplos de mote:
         “Quando guri, eu tinha que me calar à mesa: só
         as pessoas grandes falavam.”

         “Melhor pensar apenas imagens...”

         “Gaiolas de passarinhos vazias...”

         “Noite alta, um bêbado passa cantando.”

         “Entre a minha casa e a tua, há uma porta de estrelas...”

         “Havia um tempo de cadeiras na calçada.”

         “Viajar é mudar o cenário da solidão.”

         “Dias sem pássaros, noites sem estrelas.”

         “Atenção! O luar está filmando...”
                                                                           Mário Quintana

(Exercícios retirados do livro “Redação: escrever é desvendar o mundo” de Severino Antônio M. Barbosa)