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domingo, 1 de julho de 2012

Intertextualidade


Leia atentamente os três textos que seguem:

Texto 1

BRASIL AME-O
OU DEIXE-O.
        frase emblemática de propaganda do regime militar na década de 70.


Texto 2
Ame-o ou deixe-o
Marcelino Freire, Eraodito. 2 ed.
São Paulo: Ateliê Editorial,2002.

Texto 3

Ameixas
Ame-as
Ou deixe-as.
Paulo Leminski - poeta curitibano
morto em 1989.

À citação de um texto por outro, seja ela implícita ou explícita, dá-se o nome de intertextualidade, o que ocorre nitidamente entre os textos acima. A partir da leitura comparativa dos referidos textos, assinale a alternativa INCORRETA:

a) A releitura realizada no texto de Paulo Leminski pretende, dentre outras coisas, eliminar, por meio do sarcasmo, o caráter formal da frase emblemática do regime militar.

b) Tanto o texto de Paulo Leminski quanto o de Marcelino Freire refutam a frase do regime militar. O de Leminski o faz por meio da sonoridade das palavras empregadas. Já o de Marcelino faz uso de recursos gráficos para se opor ao fragmento atribuído aos militares.

c) Os três textos focalizam humoristicamente o mesmo momento histórico, embora tal humor esteja mais claramente visível no texto 1, de propaganda do regime militar. 

d) O texto de Marcelino Freire retoma literalmente a frase emblemática do período militar mas, por meio da disposição das letras e palavras - que sugerem liberdade formal e temática - contesta a referida frase. 

e) A principal marca de contestação dos ideais dos militares no texto de Marcelino Freire é a disposição gráfica, isto é, o modo como as letras e palavras estão organizadas. O texto de Paulo Leminski manifesta sua contestação por meio de uma piada, cuja base é a sonoridade das palavras é o nonsense(1). 


(1) ilógico, destoado de lógica racional

segunda-feira, 18 de abril de 2011

intertextualidade 2



Maiakovski - Poeta russo "suicidado" após a revolução de Lenin, escreveu, ainda no início do século XX :


"Na primeira noite, eles se aproximam e colhem uma flor de nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem, pisam as flores, matam nosso cão.
E não dizemos nada.
Até que um dia, o mais frágil deles, entra sozinho em nossa casa, rouba-nos a lua, e, conhecendo nosso medo, arranca-nos a voz da garganta.
E porque não dissemos nada, já não podemos dizer nada."


Releitura a partir do poema de Maiakovski…

 

"Primeiro levaram os negros
Mas não me importei com isso
Eu não era negro
Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário
Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável
Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho meu emprego
Também não me importei
Agora estão me levando
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo."

Bertold Brecht (1898-1956)



"Um dia vieram e levaram meu vizinho que era judeu.
Como não sou judeu, não me incomodei.
No dia seguinte, vieram e levaram meu outro vizinho que era comunista.
Como não sou comunista, não me incomodei .
No terceiro dia vieram e levaram meu vizinho católico.
Como não sou católico, não me incomodei.
No quarto dia, vieram e me levaram;
já não havia mais ninguém para reclamar..."

Martin Niemöller, 1933 - símbolo da resistência aos nazistas.



"Primeiro eles roubaram nos sinais, mas não fui eu a vítima,
Depois incendiaram os ônibus, mas eu não estava neles;
Depois fecharam ruas, onde não moro;
Fecharam então o portão da favela, que não habito;
Em seguida arrastaram até a morte uma criança, que não era meu filho..."

Cláudio Humberto, em 09 de Fevereiro de 2007.


Atividade

Observe que, quase cem anos depois da publicação do poema de Maiakovski, o texto continua atual. Que relação é possível estabelecer entre as releituras e o intertexto?

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Aprenda a escrever, escrevendo 1


Vinte e uma coisas que aprendi como escritor

APRENDI que escrever é basicamente contar histórias, e que os melhores livros de ficção que li eram aqueles que tinham uma história para contar.
APRENDI que o ato de escrever é uma sequela do ato de ler. É preciso captar com os olhos as imagens das letras, guardá-las no reservatório que temos em nossa mente e utilizá-las para compor as nossas próprias palavras.
APRENDI que, quando se começa, plagiar não faz mal nenhum. Copiei descaradamente muitos escritores, Monteiro Lobato, Viriato Correa e outros. Não se incomodaram com isto. E copiar me fez muito bem.
APRENDI que, quando se começa a escrever, tinha de escrever. Não adiantava só ficar falando de como é bonito escrever; eu tinha mesmo de enfrentar o trabalho braçal (e glúteo) de sentar e trabalhar.
APRENDI que uma boa ideia pode ocorrer a qualquer momento: conversando com alguém, comendo, caminhando, lendo (e, segundo Agatha Christie, lavando pratos).
APRENDI que uma boa ideia é realmente boa quando não nos abandona, quando nos persegue sem cessar. O grande teste para uma ideia é tentar se livrar dela. Se veio para ficar, se resiste ao sono, ao cansaço, ao cotidiano, é porque merece atenção.
APRENDI que aeroportos e vares são grandes lugares para se escrever. O var, por razões óbvias; o aeroporto, porque nele a vida como que está em suspenso. Nada como uma existência provisória para despertar a inspiração literária.
APRENDI que as costas do talão de cheque é um bom lugar para anotar ideias (é por isso que o escritor tem de ganhar a grana suficiente para abrir uma conta bancária). O guardanapo do restaurante também serve, desde que seja de papel e não de pano.
APRENDI que não dá para usar um gravador como forma de registrar textos. A nossa voz sai de outro compartimento, que nada tem a ver com a palavra escrita.
APRENDI que o computador é um grande avanço no trabalho de escrever, mas tem um único inconveniente: elimina os originais, os riscos, os borrões, e portanto a história do texto, a qual – como toda história – pode nos ensinar muito.
APRENDI que a mancha gráfica representada pelo texto impresso diz muito sobre este mesmo texto. As linhas não podem estar cheias de palavras; o espaço vazio é tão eloquente quanto o espaço preenchido pela escrita. O texto precisa respirar, e quando respira, fica graficamente bonito. Um texto bonito é um texto bom.
APRENDI a rasgar e jogar fora. Quando um texto não é bom, ele não é bom – ponto. Por causa da autocomiseração (é a nossa vida que está ali!) temos a tentação de preserva-lo, esperando que, de forma misteriosa, melhore por si. Ilusão. É preciso ter a coragem de se desfazer. A cesta de papel é uma grande amiga do escritor.
APRENDI a usar a gaveta. Mesmo os melhores textos, como os melhores vinhos, beneficiam-se de um período de maturação. Precisamos lê-lo com olhar diferente. E nada como o tempo para isto.
APRENDI a não ter pressa de publicar. Já se ouviu falar de muitos escritores batendo, aflitos, à porta dos editores. O que é mais raro, muito mais raro, são os leitores batendo à porta do escritor.
APRENDI a não reler meus livros. Um livro tem existência autônoma, boa ou má. Não precisa do olhar de quem o escreveu para sobreviver.
APRENDI que, como escritor, um livro é como um filho, mas que é preciso diferenciar entre filhos e livros.
APRENDI que terminar um livro se acompanha de uma sensação de vazio, mas que o vazio também faz parte da vida de quem escreve.
APRENDI que há uma diferença entre literatura e vida literária, entre literatura e política literária. Escrever é um vício solitário.
APRENDI a diferenciar entro o verdadeiro crítico e o falso crítico. O falso crítico não está falando do que leu. Está falando dos seus próprios problemas.
APRENDI que, para um escritor, frio na barriga ou pêlos do braço arrepiados são um bom sinal: um livro vem vindo aí.
SCLIAR, Moacyr. In: Blau – Jornal bimestral de literatura, Porto Alegre, n. 5, agosto de 1995.
Atividade

Assunto: Intertextualidade
O plágio é uma prática intertextual considerada criminosa, porém Scliar tem uma outra visão deste ato. Sobre o ato de plagiar, referido no texto, é correto afirmar que:
a)   os escritores sempre começam a escrever plagiando.
b)   os autores Lobato e Viriato Correa também plagiaram.
c)   o ato de plagiar fez bem ao autor do texto.
d)   os escritores gostam de ser plagiados.

Segundo o texto, o trabalho do escritor só não depende:
a)       da observação do cotidiano.
b)       do esforço árduo.
c)        da maturação das idéias.
d)       dos vícios adquiridos.

De acordo com Scliar, as ideias realmente boas só não podem:
a) ser abandonadas
b)  ser provisórias
c)  ocorrer a qualquer instante
d)  ocorrer em qualquer lugar

Metalinguagem
A metalinguagem também é um recurso comumente utilizado na Literatura. Assim, o texto lido não foge à regra, é metalinguístico. Marque a alternativa que não atesta esta característica:
a)   “O grande teste para uma ideia é tentar se livrar dela.”
b)   “APRENDI que o ato de escrever é uma sequela do ato de ler.”
c)   “Copiei descaradamente muitos escritores, Monteiro Lobato, Viriato Correa e outros.”
d)   “eu tinha mesmo de enfrentar o trabalho braçal (e glúteo) de sentar e trabalhar.”


Produção textual: releitura

Aproveite das ideias de Moacyr Scliar e escreva uma crônica a partir de uma das sugestões abaixo:
10 coisas que aprendi como estudante.
10 coisas que aprendi com o meu chefe.
10 coisas que aprendi com o amor.
10 coisas que aprendi como torcedor fiel.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Intertextualidade


A expressão intertextualidade se refere, basicamente, à influência de um texto sobre outro. Na verdade, em diferentes graus, todo texto é um intertexto, pois, ao escrever, estabelecemos um diálogo - às vezes inconsciente, às vezes não - com tudo o que já foi escrito. Assim, cada texto é como um elo na corrente de produções verbais; cada texto retoma textos anteriores, reafirmando uns e contestando outros.

Quando a intertextualidade é intencional, ela pode se manifestar em diferentes níveis. Vejamos cada um deles:

· Epígrafe: é um fragmento de texto que serve de lema ou divisa de uma obra, capítulo, ou poema. Costuma existir um vínculo entre a epígrafe e o texto que vem abaixo dela; nesses casos, a epígrafe dá apoio temático ao texto - ou resume o sentido, a motivação dele. Massaud Moisés observa que o exame atento das epígrafes pode "nos fornecer uma ideia da doutrina básica de um poeta ou romancista, o seu nível intelectual etc.".

· Citação: é a frase ou passagem de certa obra que um autor reproduz (com indicação do autor original) como complementação, exemplo, ilustração, reforço ou abonação daquilo que ele pretende dizer ou demonstrar.

· Alusão: é toda referência, direta ou indireta, propositada ou casual, a certa obra, personagem, situação etc., pertencente ao mundo literário, artístico, mitológico etc. No geral, a alusão insere a obra que a contém numa tradição comum julgada digna de preservar-se. Camões, por exemplo, ao dizer, em Os Lusíadas, "cessem do sábio Grego e do Troiano / As navegações grandes que fizeram", alude a Ulisses (herói da Odisséira) e Eneias (herói da Eneida).

· Paráfrase: é a interpretação, explicação ou nova apresentação de um texto (ou parte dele) com o objetivo de ou torná-lo mais inteligível ou sugerir um novo enfoque para o seu sentido. Veja, por exemplo, o poema abaixo, de Carlos Drummond de Andrade, no qual o poeta parafraseia o poema "Canção do Exílio", de Gonçalves Dias:



Europa, França e Bahia
Meus olhos brasileiros sonhando exotismos.
Paris. A torre Eiffel alastrada de antenas como um caranguejo.
Os cais bolorentos de livros judeus
e a água suja do Sena escorrendo sabedoria.


O pulo da Mancha num segundo,
Meus olhos espiam olhos ingleses vigilantes nas docas.
Tarifas bancos fábricas trustes craques.
Milhões de dorsos agachados em colônias longínquas
[formam um tapete para Sua Graciosa Majestade Britânica pisar. E a lua de Londres
como um remorso.
[...]
Chega!
Meus olhos brasileiros se fecham saudosos.
Como era mesmo a "Canção do Exílio"?
Eu tão esquecido de minha terra...
Ai terra que tem palmeiras
onde canta o sabiá!


· Paródia: trata-se de uma composição literária que imita, cômica ou satiricamente, o tema ou/e a forma de uma obra séria. O intuito da paródia consiste em ridicularizar uma tendência ou um estilo que, por qualquer motivo, se torna conhecido ou dominante. Como exemplo, o poema "Canto de Regresso à Pátria", de Oswald de Andrade, que parodia a "Canção do Exílio", de Gonçalves Dias:



Minha terra tem palmares
Onde gorjeia o mar
Os passarinhos daqui
Não cantam como os de lá


Minha terra tem mais rosas
E quase que mais amores
Minha terra tem mais ouro
Minha terra tem mais terra


Ouro terra amor e rosas
Eu quero tudo de lá
Não permita Deus que eu morra
Sem que volte para lá


Não permita Deus que eu morra
Sem que volte pra São Paulo
Sem que veja a Rua 15
E o progresso de São Paulo


· Tradução: traduzir consiste em passar um texto (ou parte dele) escrito numa determinada língua para o equivalente em outra língua. Na opinião de alguns estudiosos, a tradução pode ser estudada no âmbito da intertextualidade, pois é uma forma de recriação a partir de um texto-fonte.


· Pasticho (ou pastiche): imitação servil e grosseira de uma obra literária.



Fonte
Dicionário de termos literários, Massaud Moisés, Editora Cultrix, 7ª edição, SP.




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Exercícios de releitura a partir do texto: "Poema de sete faces" de Carlos Drummond de Andrade

Poema de sete faces

Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.

O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.

Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.

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Releituras

 


LET'S PLAY THAT
                    Torquato Neto (musicado por Jards Macalé)


Quando eu nasci
um anjo louco muito louco
veio ler a minha mão
não era um anjo barroco
era um anjo muito louco, torto
com asas de avião
eis que esse anjo me disse
apertando minha mão
com um sorriso entre dentes
vai bicho desafinar
o coro dos contentes
vai bicho desafinar
o coro dos contentes



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ATÉ O FIM
Chico Buarque de Hollanda



Quando nasci veio um anjo safado
O chato dum querubim
E decretou que eu tava predestinado
A ser errado assim
Já de saída a minha estrada entortou
Mas vou até o fim

Inda garoto deixei de ir à escola
Cassaram meu boletim
Não sou ladrão, eu não sou bom de bola
Nem posso ouvir clarim
Um bom futuro é o que jamais me esperou
Mas vou até o fim

Eu bem que tenho ensaiado um progresso
Virei cantor de festim
Mamãe contou que eu faço um bruto sucesso
Em Quixeramobim
Não sei como o maracatu começou
Mas vou até o fim


Por conta de umas questões paralelas
Quebraram meu bandolim
Não querem mais ouvir as minhas mazelas
E a minha voz chinfrim
Criei barriga, minha mula empacou
Mas vou até o fim



Não tem cigarro, acabou minha renda
Deu praga no meu capim
Minha mulher fugiu com o dono da venda
O que será de mim?
Eu já nem lembro pr'onde mesmo que vou
Mas vou até o fim


Como já disse, era um anjo safado
O chato dum querubim
Que decretou que eu tava predestinado
A ser todo ruim
Já de saída a minha estrada entortou
Mas vou até o fim
Do LP Chico Buarque - Polygram, 1978

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COM LICENÇA POÉTICA

Adélia Prado
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável.
Eu sou.
 



Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.


Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não tão feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
— dor não é amargura.Minha tristeza não tem pedigree,

In Adélia Prado, Poesia Reunida
Siciliano, São Paulo, 1991