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terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

O brasileiro elogiando sua mulher


Declaração para os meus amigos


Exercícios sobre Variedades linguísticas: notícias




1. Sabendo que um texto jornalístico de circulação nacional (este jornal especificamente é produzido nos estados do Rio e de São Paulo, sendo possível encontrá-lo em outros estados e visualizá-lo na internet) do gênero notícia, geralmente, apresenta linguagem impessoalclaraobjetiva e conforme a variedade padrão da língua, apresente as seguintes questões para seus alunos responderem no caderno:
a) o periódico apresenta uma linguagem conforme os moldes dos jornais que você conhece?
b) o que mais chama a atenção no texto da notícia acima?
c) qualquer pessoa alfabetizada compreenderia integralmente a notícia?
d) como as diversas circunstâncias que caracterizam o contexto (renda, escolaridade, idade, região geográfica, variação linguística) podem influenciar na compreensão deste discurso?
e) os vocábulos destacados no texto são de uso comum em qualquer camada da população? Justifique.

2. divida a turma em 5 grupos:
a) cada grupo escolhe um dos cinco parágrafos do texto.
b) cada grupo deve apresentar o significado para cada expressão ou palavra destacada no texto.
c) cada grupo apresenta para os colegas (oralmente ou no quadro) sua compreensão sobre as expressões ou palavras destacadas.

Exercícios sobre Variedades linguísticas

1. O texto que segue, desprezando as normas da língua escrita, procura produzir o jeito como supostamente se fala em certas regiões de Minas Gerais. Sua finalidade, portanto, é estritamente humorística. Leia-o.

Causo mineiro

          Sapassadu era sessembru, taveu na cuzinha tumandu uma pincumel e cuzinhandu um kidicarni cumastumati pra fazê uma macarronada cum galinhassada. Quascaí di sustu quanduvi um barui vinde dendufornu parecenum tidiguerra. A receita mandopô midipipoca denda galinhaprassá. U fornu isquentô, omioistorô e u fiofó da galinhispludiu!... Nossinhora!...fiquei brancu quinem um litileite. Foi um trem doidim, quascaí dendapia, fiquei sensabê doncovim, nuncotô e proncovô. Ópcevê quilocura...grazadeus ninguém simaxucô!!!


a) O texto apresenta aspectos interessantes de variação linguística. Que dialeto é utilizado para construir o humor do texto?

b) Observando a escrita de algumas palavras do texto, deduza: O que caracteriza esse dialeto?

c) Também é possível observar no texto variações de registro, especialmente quanto ao modo de expressão. O texto apresenta marcas da linguagem escrita ou da linguagem oral? Dê alguns exemplos que justifiquem sua resposta.


2.O programa “Fala, maluco”, de uma rádio paulistana, promoveu um concurso de gírias para premiar autores de frases curiosas produzidas no linguajar dos jovens e das ruas. Leia, a seguir, as frases premiadas e transcreva-as na variedade padrão.

a) “Maior corre no meu trampo hoje, mas firmão. Vou colar na minha goma, bater uma xepa e mandar um salve pra galera da minha área.”

b) “Aê, tô zarpando fora que fiquei de cruzar com uns camaradas pra colar num pico classe A.”

c) “Aê, Tuquinha, se liga, lagarto, que eu vou marcar uma mão pra você devolver minha lupa.”

d) “Dani, para de ser mamadeira e arruma um trampo logo.”

e) “Digo, se liga, você é mó talarico. Tentou furá os zoio do maluco da minha quebrada. Se liga, meu!”

Lisboa: aventuras

Leia o poema a seguir:

Lisboa: aventuras
tomei um expresso
                                cheguei de foguete
subi num bonde
                                desci de um elétrico
pedi um cafezinho
                                serviram-me uma bica
quis comprar mais
                                só vendiam peúgas
fui dar a descarga
                                disparei um autoclisma
gritei: "ó cara"!
                                responderam-me: "ó pá!"
                                positivamente
as aves que aqui gorjeiam não gorjeiam como lá
                                                                       José Paulo Paes

Responda:

1. A que se referem as "aventuras" vividas em Lisboa?
2. De que forma a maneira como o poema se organiza no espaço contribui para a construção de sentidos no texto?
3. O último verso faz referência ao poema "Canção do Exílio", de Gonçalves Dias. Nele, o eu lírico lamenta sua distância da terra natal, o Brasil, e compara-o em minúcias a Portugal. No contexto do poema de José Paulo Paes, qual é o sentido desse verso?

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Cultura


Cultura

Ele disse: "O teu sorriso é como o primeiro suave susto de Julieta quando, das sombras perfumadas do jardim sob a janela insone, Romeu deu voz ao sublime Bardo e a própria noite aguçou seus ouvidos."
E ela disse: "Corta essa."
E ele disse: "A tua modéstia é como rubor que assoma à face de rústicas campônias acossadas num quadro de Bruegel, pai enaltecendo seu rubicundo encanto e derrotando o próprio simular de  recato que a natureza, ao deflagrá-lo, quis."
E ela disse: "Cumé que é?"
E ele disse: "Eu te amo como jamais um homem amou, como o Amor mesmo, em seu auto-amor, jamais se considerou capaz de amar."
E ela: "Tô sabendo..."
"Tu és a chuva e eu sou a terra; Tu és ar e eu sou fogo; tu és estrume, eu sou raiz."
"Pô!"
"Desculpe. Esquece este último símile. Minha amada, minha vida. A inspiração tanta que transborda e me foge, eu estou bêbado de paixão, o estilo tropeça no meio-fio, as frases caem do bolso..."
"Sei..."
"Os teus olhos são dois poços de águas claras onde brinca a luz da manhã, minha amada. A tua fronte é como o muro de alabastro do tempo de Zamaz-al-Kaad, onde os sábios iam roçar o nariz e pensar na Eternidade. A tua boca é uma tâmara partida... Não, a tua boca é como um... um... Pera só um pouquinho..."
"Tô só te cuidando."
"A tua boca, a tua boca, a tua boca... (Uma imagem, meu Deus!)"
"Que qui tem a minha boca?"
"A tua boca, a tua boca... Bom, vamos pular a boca. O teu pescoço é como o pescoço de Greta Garbo na famosa cena da nuca em  Madame Walewska, com Charles Boyer, dirigido por Clawrence Brown, iluminado por..."
"Escuta aqui..."
"Eu tremo! Eu desfaleço! Ela quer que eu a escute! Como se todo o meu ser não fosse uma membrana que espera a sua voz para reverberar de amor, como se o céu não fosse a campana e o Sol o badalo desta sinfonia espacial: uma palavra dela..."
"Tá ficando tarde."
"Sim, envelhecemos. O tempo, soturno cocheiro deste carro fúnebre que é a Vida. Como disse Eliot, aliás, Yeats - ou foi Lampedusa? - , o Tempo, esse surdo-mudo que nos leva às costas..."
"Vamos logo que hoje eu não posso ficar toda a noite."
"Vamos! Para o Congresso Carnal. O monstro de duas costas do Bardo, acima citado. Que nossos espíritos entrelaçados alcem vôo e fujam, e os sentidos libertos ergam o timão e insuflem as velas para a tormentosa viagem ao vórtice da existência humana, onde, que, a, e, o, um, como, quando, por que, sei lá..."
"Vem logo.""Palavras, palavras..."
"Depressa!"
"Já vou. Ah, se com estas roupas eu pudesse despir tudo, civilização, educação, passado, história, nome, CPF, derme, epiderme... Uma união visceral, pâncreas e pâncreas, os dois corações se beijando através das grades de caixas torácicas como Glenn Ford e Diana Lynn em..."
"Vem. Assim. Isso. Acho que hoje vamos conseguir. Agora fica quieto e..."
"Já sei!"
"O quê? Volta aqui , pô..."
"Como um punhado de amoras na neve  das estepes. A tua boca é como um punhado de amoras na neve das estepes!"
(VERÍSSIMO, Luis Fernando. As mentiras que os homens contam. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.)


Responda


1. Se não há descrição a respeito das personagens, o que as caracteriza?
2. A crônica indica que há um descompasso entre as personagens. Qual é a razão para que isso ocorra?
3. Agora leia um trecho de conferência proferida pelo filólogo Evanildo Bechara.

[...] Como, de manhã, a pessoa abre o seu guarda-roupa para escolher a roupa adequada aos momentos sociais que ela vai enfrentar durante o dia, assim também, deve existir, na educação linguística, uma guarda-roupa linguístico, em que o aluno saiba escolher as modalidades adequadas a falar com gíria, a falar popularmente, a saber entender um colega que veio do Norte ou que veio do Sul, com os seus falares locais, e que saiba também, nos momentos solenes, usar essa língua exemplar [...].
Bechara, Evanildo. Conferência à Academia Brasileira de Letras em 4 set. 2000. Disponível em : <http://www.novomilenio.inf.br/idioma/20000704.htm>

Explique de que maneira a crônica de Veríssimo ilustra a opinião do professor Bechara a respeito do que o aluno de língua portuguesa precisa aprender na escola.




Leia mais no livro: Ser Protagonista. Organizado por Gonçalves Gustavo Barreto. Português Ensino Médio. 1o ano.

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Ai se eu te pego em Mineireis


terça-feira, 8 de novembro de 2011

UNIDOS POR UMA MESMA LÍNGUA


Já não se fala mais português como antigamente. Todos os brasileiros que vão a Portugal voltam impressionados com as diferenças de expressões entre os dois países irmãos. Com o passar do tempo, deixamos de usar várias palavras, eles lá inventaram novas e nós aqui criamos também um monte delas. A verdade é que, se hoje um repórter português viesse de Portugal para o Brasil para fazer uma entrevista com o presidente Itamar, é bem provável que os dois necessitassem de um bom intérprete.

Repórter: Vossa excelência já deita ao desprezo o corrido nas celebrações do mardigras ou sente-se ressabiado?

Intérprete: O senhor não dá mais importância ao que aconteceu nas comemorações do Carnaval ou ainda está aborrecido?

Itamar: Claro que dou, mas o que interessa é desaparecer a miséria do nosso povo.
Intérprete: Óbvio que sim, porém o que me apetece é escafeder-se a dependura da nossa plebe.

Repórter: Consta cá que alguns dos seus ministros vivem a dize-tu-direi-eu. Vossa excelência não acha que é contra?

Intérprete: Dizem por aqui que alguns dos seus ministros vivem em grande discussão. O senhor não acha que isso é ruim?

Itamar: É mentira.

Intérprete: É peta.

Repórter: Pois. Se calhar também é peta o paredão dos voadores e hospedeiras que cá por pouco ocorreu?

Intérprete: Sei. Vai ver que também é mentira a greve dos pilotos e das aeromoças que aqui quase aconteceu?

Itamar: Não, não é mentira. Como também não é mentira acontecer greves dos bancários.
Intérprete: Quais peta quais nada. Como por suposto não é peta ocorrer paredões de amanuenses dos armazéns de finanças.

Repórter: E a inchação?

Intérprete: E a inflação?

Itamar: A inflação está sendo combatida. Temos agora um plano sensacional.
Intérprete: A inchação está a ser fustigada. Possuímos de momento um projeto bestial.
Repórter: E a questão do recato de feira no setor dos ordenadores? De que forma arranjou-se?
Intérprete: E o problema da reserva de mercado na área dos computadores? De que jeito foi solucionado?

Itamar: Pois não, isso não existe mais.

Intérprete: Pois sim, isto cá já não há.

Repórter: Por suposto a USA está a querer atalaiar as taxas sobre os vossos productos como os calçados de cabedal?

Intérprete: É claro que os Estados Unidos estão querendo controlar os impostos sobre os seus produtos, como os sapatos de couro.

Itamar: É.

Intérprete: Sim.

Repórter: Grato. Soube-me muito bem o cafezinho e a conferência.

Intérprete: Obrigado. Gostei muito do cafezinho e da entrevista.

Itamar: Não há de quê.

Intérprete: Não há de quê.

Repórter: Mas que coincidência, pá! Então vocês cá também dizem não há de quê?

......................
(Revista Veja, 15/03/1994: 22).In: TRAVAGLIA, Luiz Carlos. Gramática e interação: uma proposta para o ensino de gramática no 1º e 2 º graus. São Paulo: Cortez, 1996.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

O pitoresco na justiça

(Num de seus inúmeros depoimentos na Justiça, Zé da Ilha, "o Saudoso", prestou esta declaração.)

Seu doutor, o patuá é o seguinte: depois de um gelo da coitadinha, resolvi esquiar e caçar uma outra cabrocha que preparasse a marmita e amarrotasse o meu linho de sabão. Quando bordejava pelas vias, abasteci a caveira, e troquei por centavos um embrulhador. Quando então vi as novas do embrulhador, plantado como um poste bem na quebrada da rua, veio uma pára-queda se abrindo. Eu dei a dica, ela bolou. Eu fiz a pista, colei. Solei, ela bronquiou. Eu chutei. Bronquiou mas foi na despistas porque, muito vivaldino, tinha se adernado e visto que o cargueiro estava lhe comboiando. Morando na jogada, o Zezinho aqui, ficou ao largo e viu quando o cargueiro jogou a amarração dando a maior sugesta na recortada. Manobrei e procurei engrupir o pagante, mas sem esperar recebi um cataplum no pé do ouvido. Aí, dei-lhe um bico com o pisante na altura da dobradiça, uma muquecada nos amortecedores e taquei os dois pés na caixa da mudança, pondo por terra. Ele se coçou, sacou a máquina e queimou duas espoletas. Papai muito rápido, virou pulga e fez a Dunquerque, pois vermelho não combinava com a cor do meu linho. Durante o boogie, uns e outros me disseram que o sueco era tira e que iria me fechar o paletó. Não tenho vocação pra presunto e corri. Peguei uma borracha grande e saltei no fim do carretel, bem vazio, da Lapa, precisamente às quinze para a cor de rosa. Como desde a matina não tinha engulido gordura, o ronco do meu pandeiro estava me sugerindo sarro. Entrei no china pau e pedi um boi à Mossoró com confeti de casamento e uma barriguda bem morta. Engolia a gororoba e como o meu era nenhum, pedi ao caixa pra botá no pindura que depois eu ia esquentar aquela fria. Ia me pirá quando o sueco apareceu. Dizendo que eu era produto do mangue, foi direto ao médico legal pra me esculachar. Eu sou preto mas não sou o Gato Félix, me queimei e puxei a solingem. Fiz uma avenida na epiderme do moço. Ele virou logo América. Aproveitei a confusão pra me pirá, mas um dedo duro me apontou aos xipófagos e por isto estou aqui.

Atordoado, o juiz mandou chamar um "tradutor" que esclareceu o seguinte:


Tradução do depoimento

— Senhor Doutor, a história foi a seguinte: depois que fui abandonado por minha companheira, resolvi procurar uma outra que me preparasse a comida e lavasse meus ternos. Quando caminhava pela rua, entrei num botequim, tomei uma cachaça e comprei um jornal. Depois de ler as notícias do jornal, encostado num poste, na esquina da rua, vi que uma morena se aproximava toda faceira. Olhei-a, ela também. Segui-a de longe e olhando de soslaio para trás, vira que seu companheiro a seguia. Percebendo o jogo, fiquei de longe e vi quando ele a segurou pelo braço e mandou-a para casa. Fui saindo, mas antes de poder me afastar mais, o amásio da moça me agrediu. Revidei dando-lhe com o sapato um chute no peito, um soco no maxilar e de um salto, com outro chute no peito, joguei-o por terra. Ele sacou sua arma e atirou, mas eu já havia fugido, porque o sangue não combinava com a cor do meu temo. Durante a briga, disseram-me que o moço era policial e me mataria. Não tenho vocação para defunto. Corri e peguei um ônibus, descendo no fim da linha, no Largo da Lapa, precisamente às 15 para as seis horas (hora do crepúsculo). Como desde manhã não havia me alimentado, e meu estômago reclamava, entrei num restaurante chinês e pedi um bife a cavalo com arroz e urna cerveja preta bem gelada. Tomei a refeição e como não tinha dinheiro, pedi ao caixa para assentar no caderno que depois eu pagaria a conta. Ia sair quando o policial apareceu. Disse que eu era malandro, e foi direto ao cozinheiro para falar mal de mim. Eu sou preto, mas não sou Gato Félix, fiquei aborrecido e puxei da navalha. Agredi o meu rival. Ele ficou todo ensanguentado. Aproveitei a confusão para fugir, mas alguém me delatou apontando-me aos "Cosme e Damião" e por isto eu estou aqui.

MARCUSCHI, Luiz Antônio: Da fala para a escrita: atividades de retextualização. São Paulo: Cortez, 2007.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

CQC - discute nova cartilha do Mec




Leia agora um trecho da cartilha e responda:  Qual é a sua opinião sobre ela?

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Jargão

        O jargão é um dos tipos de língua grupal. É uma espécie de gíria profissional, daí falar-se em “economês”, “sociologês”, etc. Carlos Drummond de Andrade faz uma saborosa sátira ao jargão nas duas crônicas a seguir. Leia e se divirta com as palavras.


CONVERSA NA FILA
Carlos Drummond de Andrade

Conversavam na fila do cinema:
- E o seu caso com a Belmira?
- Encerrado, depois de um incidente onfálico. Observei-lhe que não ficava bem  ir à praia de tanga, quando ainda emergia daquele problema de cirsônfalo.
- E ela?
- Não gostou e rompemos. Nossa ligação teve um fim celíaco. E você e a Isadora?
- Mal, meu caro. Sabia que ela é hipnóbata? E o pior de tudo: com loxodromismo. De noite é aquela confusão no apartamento: batida nos móveis, objetos quebrados, e ela volta com acrodinia, com meralgia ou com podalgia.
- Que lástima.
- Depois, a Isadora se distingue por uma total aprosexia. Não adiante falar com ela que tome cuidado, que se proteja. Sua desatenção é mesmo esplâncnica
- Caso sério.
- Pois é. Mas vamos mudar de assunto. Viu aquele projeto de superclínicas integradas do Quintiliano? Ele está entusiasmadíssimo!
- Vi. Para mim, o Quintiliano é um caso de cianopsia empresarial. Vê lá se aquilo funciona.
- Por que não? Você é que me parece com tendência fotodisfórica. Não capta a evidência solar da iniciativa.
- Pode ser. Mas o Quintiliano é lalômano e dislálico há  um tempo, e isso me irrita, ainda mais ligado à somatomegalia projetista.
- Que tem isso? O essencial é que ele sabe ser sinérgico e sua doxomania semeia empreendimentos grandiosos.
- É. Mas isto, ao fim de algum tempo, fica tautométrico.
- Não interrompendo. Repare nessa garota à nossa frente.
- Já notei. Onicófaga.
- Nem por isso deixa de ser uma graça.
- Você acha? Quando se virou, notei que é leptorrínica.
- Quase nada!
- Sem falar na anisocoria, que captei de relance.
- Ora, nem se percebe!
- E a pele...
- Que tem a pele?
- Xilóide.
- Daqui a pouco você enxerga na coitadinha hipertricose, furfuração intensiva e até glossotriquia.
- Que é que você quer? Graças a Deus, não sofro nem nunca sofri de hebetação.
- Nem eu nunca lhe atribuí qualquer patose.
- Eu sei. Quero provar apenas que meu senso crítico-estético não se acha em catábase. Nada me escapa. A propósito. Corrija-se. Você está meio camptocósmico
- Dá para notar? Ainda bem que não estou opistótono, como o Ricardão.
- É mesmo. O Ricardão jamais se mantém ortostático. Nossa turma, hem?
- Realmente. O Guedes com aquele xiloma, o Tenório com o seu teratoma...
- A pobre da Zuenilda às voltas com a sua colpocele...
- E o Monjardim, cada vez mais anártrico, a ponto de não se entender mais o que ele quer dizer
A Fila chegou ao guichê, o papo acabou, e eu não entendi ponto e vírgula do que os dois disseram. E você?



TRADUÇÃO

 Ignaro cronista. Saúdo-o com simpatia!
Então, escutou aquela conversa na fila  do cinema e não entendeu patavina? Tão simples, meu caro. Se você tivesse uma tintura rala de latim e grego, em vez de passar pelas humanidades como motorista de ônibus pelo sinal vermelho, pegaria tudo que os dois médicos (eram médicos, está-se vendo) falavam sem afetação.
Usavam linguagem profissional, entende? E essa linguagem nada tem de hermética. Com o auxílio de afixos e radicais de origem grega e latina, forma palavras adequadas à expressão das diferentes partes do corpo humano e das doenças que as visitam. Por extensão, tal linguagem também se aplica em sentido figurado, sempre que isto possa ocorrer com propriedade.
Vou traduzir para você o papo dos doutores, e espero com isto prestar-lhe pequeno serviço cultural.
Chamemos os interlocutores de A e B. A pergunta a B, pelo caso deste com Belmira. B informa que está acabado, após incidente onfálico (relativo ao umbigo da moça). Ela tivera um problema de crisônfalo (dilatação varicosa das veias do umbigo), possivelmente fora operada; não obstante, queria exibir-se de tanga na praia. B não gostou, e deu-se o fim celíaco, isto é, relacionamento com o ventre.
Por sua vez, A conta que Isadora, sua garota, é sonâmbula (hipnóbata) e padece de loxodromismo: caminha sempre em direção oblíqua. Fácil prever os esbarrões que a todo momento, no escuro, dá nos móveis, e as conseqüências: volta para cama com dor nas extremidades (acronidia), notadamente nos pés (podalgia) e nas coxas (meralgia). Por último, a pobre sofre de aprosexia, é incapaz de fixar a atenção em alguma coisa , incapacidade tão profunda que pode ser chamada de esplâncnica, ou seja, visceral.
Os dois amigos mudam de assunto. A fala num colega, o Dr. Quintiliano, que pretende abrir uma superclínica, mas B acha que Quintiliano é um caso de cianopsia empresarial, vê tudo azul em matéria de empreendimentos. A acusa de tendência fotodisfórica, quer dizer, de intolerância à luz solar das iniciativas de Quintiliano. B retruca chamando Quintiliano de lalômano e dislálico ao mesmo tempo: ele fala demais, apesar de ter dificuldades no falar, além de cultivar a  somatomegalia projetista, o gigantismo de planos mirabolantes. Mas A defende-o, dizendo que ele sabe ser sinérgico, trabalhar em equipe, e sua doxomania (paixão de conquistar a glória) semeia realizações de vulto. Sim, admite B, mas isso acaba sendo monótono, tautométrico.
Outra virada. A acha uma graça a garota que está à frente dos dois. B, de relance, observa que ela rói e engole as unhas, é onicófaga. É leptorrínica (nariz estreito), além de acusar anisocoria, desigualdade nas pupilas. Só? Não! Tem pele xiloide, parecendo madeira. A espanta-se de tanta observação implacával, e diz que daí a pouco B enxergará na coitadinha hipertricose (excesso de pelos) e até essa coisa horrível que é língua coberta de pelos (glossotriquia), sem falar de furfuração excessiva: cabelo caspento. B declara que nunca teve hebetação, esse embotamento dos sentimentos e do intelecto na puberdade.
A não quis dizer que B é presa de alguma patose, anomalia ou doença. B, para provar ainda mais que suas faculdades de percepção não declinam (catábase) adverte o amigo: Corrija-se, está ficando corcunda (camptoscósmico). A reconhece, mas ainda bem que não chegou a opitótomo, como o Ricardão, com sua tetânica para trás. É, o Ricardão jamais se mantém em pé, ortostático, ereto.
Aí os dois passam em revista o precário estado de seus colegas. O Guedes enfrenta um xiloma, tumor duro, lenhos; o Dr. Tenório, às voltas com o seu tumor complexo, ou teratoma; a Dra Zuenilda tem colpocele (hérnia ou tumor vaginal); o Dr. Monjardim, já não se entende o que ele fala; de tão anártrico, não articula mais uma palavra.
Conclusão: os falantes usaram linguagem exata, objetiva, clássico-moderna, muito bem cunhada. Quem não a entendeu deve tomar cinco vocábulos de raiz grega e outros tantos de raiz latina, duas vezes por dia, após as refeições. Agite-os, antes de usá-los.
É só, e meus cumprimentos cordiais,
                                                               Antonio Crispim



Divirta-se com a charge Jargão



Leia também a matéria da revista Veja: Quando o negócio é tortura a língua.

Jargão jurídico



 
Um professor perguntou a um dos seus alunos do curso de Direito:
- Se você quiser dar a Epaminondas uma laranja, o que deverá dizer ?
O estudante respondeu:- Aqui está, Epaminondas, uma laranja para você.
O professor gritou, furioso:- Não ! Não ! Pense como um Profissional do Direito !
O estudante respondeu:
- Ok, então eu diria:
Eu, por meio desta, dou e concedo a você, Epaminondas de tal, CPF e RG nºs., e somente a você, a propriedade plena e exclusiva, inclusive benefícios futuros, direitos, reivindicações e outras vindicações, títulos, obrigações e vantagens no que concerne à fruta denominada laranja em questão, juntamente com sua casca, sumo, polpa e sementes, transferindo-lhe todos os direitos e vantagens necessários para espremer, morder, cortar, congelar, triturar, descascar com a utilização de quaisquer objetos e, de outra forma, comer, tomar ou, de qualquer forma, ingerir a referida laranja, ou cedê-la com ou sem casca, sumo, polpa ou sementes, e qualquer decisão contrária, passada ou futura, em qualquer petição, ou petições, ou em instrumentos de qualquer natureza ou tipo, fica assim sem nenhum efeito no mundo cítrico e jurídico, valendo este ato entre as partes, seus herdeiros e sucessores, em caráter irrevogável e irretratável, declarando Paulo que o aceita em todos os seus termos e conhece perfeitamente o sabor da laranja, não se aplicando ao caso o disposto no Código do Consumidor.
E o professor então comenta:
- Melhorou bastante, mas não seja tão sucinto, tão resumido… procure fundamentar mais.

Atividades

1. "Jargão é o modo de falar específico de um grupo, geralmente ligado à profissão." Destaque no texto alguns jargões próprios da línguagem jurídica.

2. A partir do comentário do professor, o que é possível concluir sobre a linguagem jurídica?


3. Reflita: Não seria melhor simplificar a linguagem jurírica?




4. Divirta-se com o texto a seguir.
Ao invés do embuste, deveriam os advogados falarem da forma abaixo com seus clientes. Assim, muitas dúvidas estariam sanadas na hora! 
1 - Princípio da iniciativa das partes - "faz a sua, que eu faço a minha".
2 - Princípio da insignificância - "grande b...".
3 - Princípio da fungibilidade - "só tem tu, vai tu mesmo" (parte da doutrina e da jurisprudência entende como sendo "quem não tem cão caça com gato").
4 - Sucumbência - "a casa caiu!"
5 - Legítima defesa - "folgou, levou".
6 - Legitima defesa de terceiro - "folgou com o mano leva na oreia".
7 - Legítima defesa putativa - "foi mal".
8 - Oposição - "sai quicando que o barato é meu".
9 - Nomeação à autoria - "vou cagoetar todo mundo".
10 - Chamamento ao processo - "o maluco ali também deve".
11 - Assistência - "então brother, é nóis."
12 - Direito de apelar em liberdade - "fui!" (parte da doutrina entende como "só se for agora").
13 - Princípio do contraditório - "agora é eu".
14 - Revelia, preclusão, perempção, prescrição e decadência - "camarão que dorme a onda leva".
15 - Honorários advocatícios - "cada um com os seus problemas".
16 - Co-autoria, e litisconsórcio passivo - "passarinho que acompanha morcego dá de cara com muro" ou "passarinho que acompanha morcego, dorme de cabeça pra baixo", e se preferir "quem refresca c... de pato é lagoa"
17 - Reconvenção - "'cê é louco, mano, a culpa é sua".
18 - Comoriência - "um pipoco pra dois" ou "dois coelhos com uma paulada só".
19 - Preparo - "então..., deixa uma merrequinha aí."
20 - Deserção - "deixa quieto".
22 - Recurso adesivo - "eu vou no vácuo".
23 - Sigilo profissional - "na miúda, só entre a gente".
24 - Estelionato - "malandro é malandro, e mané é mané".
25 - Falso testemunho - "fala sério...".
26 - Reincidência - "p... meu, de novo?".
27 - Investigação de paternidade - "toma que o filho é teu".
28 - Execução de alimentos - "quem não chora, não mama".
29 - Res nullius - "achado não é roubado".
30 - De cujus - "presunto".
31 - Despejo coercitivo - "sai fincado".
32 - Usucapião - "ta dominado, tá tudo dominado".
33 - Embriaguez voluntária - "num guenta? bebe leite"

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Todo mundo fala errado?


Todo mundo fala errado?
Lya Luft


Freqüentemente se ouve alguém afirmar, desamparado, que "todo mundo fala errado". Se apenas observarmos superficialmente, poderemos achar que a afirmação está correta. É verdade: ninguém ou quase ninguém fala "certo". Talvez devêssemos então indagar o que é falar "certo". A maioria das respostas será que é "falar como está nas gramáticas", isto é: todo mundo deveria usar, com naturalidade e freqüência, as formas mais sofisticadas da chamada língua-padrão. Nesse caso, diríamos aos amigos, aos filhos, aos empregados coisas como:
- Maria, viste meu filho na escola?
- Não, Teresa, Vê-lo-ei amanhã somente.
Ou ainda:
- Poderias dizer-me aonde irás esta noite?
- Dir-te-ei unicamente quando tiver regressado.
E ainda coisas deliciosas, como:
- Que pensais da cultura dos nossos universitários?
- Não vos posso dar essa resposta, porque seria demasiado desanimadora.
Ora, dirão os meus leitores, que linguajar mais horrível. Que pedantismo, que erudição falsa, que inadequação à nossa realidade. Ninguém fala assim. Enfim uma observação inteligente: ninguém fala assim, porque essas formas, e muitas outras que não estão nos livros, não se usam. Tornaram-se arcaicas, pertencem a um nível de linguagem culto formal, que se aceita, com dor nos ouvidos, em discursos, em sermões de igreja (e olhe lá!. Pelo que nossa liturgia e posturas na Igreja andam evoluindo, em breve a música religiosa será considerada blasfêmia...). São formas apenas aturadas, como se aturam trastes velhos pela casa, enquanto não sabemos onde os colocar. Isso significa que aquilo que os mais ingênuos julgam ser a maneira correta de falar, não passa de fórmula livresca, seca, sem vida. Mas não é, nem de longe, o que devemos empregar diariamente, muito menos na fala. Pois na língua se distinguem duas maneiras de registrar o pensamento: a fala, registro primeiro, e a escrita, registro segundo, isto é, registro da fala. Observando isso, podemos concluir que a escrita é que deve reproduzir a fala, e não vice-versa. Assim não é correto que devêssemos falar como se escreve, mas deveríamos, isso sim, escrever como se fala, o que é impossível por uma série de motivos, um dos quais o de ser a escrita um código determinado por decretos oficiais. Por isso, não é correto somente o que está "nos livros".
Mas há outros aspectos, como a linguagem ser um comportamento social do homem. Não se usa um calção em uma conferência, nem terno e gravata para ir à piscina (entre amigos), como não se fala de maneira descontraída em uma conferência(...) Na escrita, para aprendermos realmente a escrever, é necessário um treinamento intenso, pois o código é mais complicado, obedece a regras fixas e rígidas. Nadar se aprende nadando; guiar se aprende guiando; falar se aprende falando, e escrever se aprende escrevendo e lendo, para internalizar estruturas. O assunto linguagem é complexo demais para ser tratado num artigo, e todos os livros escritos a respeito ainda nos deixam saudavelmente curiosos e perplexos.

Atividade

1. Segundo Lya Luft qual a distinção entre fala e escrita?
2. A língua é um sistema hermético, fechado que não aceita mudanças? Justifique.
3. Divirta-se


domingo, 27 de março de 2011

Variedades linguística 2



Atividade

Da leitura do texto acima, pode-se inferir:



( ) A diversidade linguística se caracteriza pelas especificidades dialetais que contemplam as múltiplas possibilidades de uso da língua.

( ) O texto pode ser analisado pelo viés do preconceito linguístico dominante na ideologia normativa da língua.

( ) O texto apresenta um efeito de humor suscitado pela interpretação ambígua de Chico Bento.

( ) A temática do texto corresponde ao ensino dos padrões linguísticos necessários para o uso “correto” do “bom português”.

( ) A intervenção da professora toma como parâmetro uma equivocada visão da fala em relação à violação das regras de gramática.



Analise as proposições e coloque V para as verdadeiras e F para as falsas. Marque a alternativa CORRETA.

a) F V V F F

b) V V V F V

c) V F F V V

d) F F F V V

e) V V V F F

segunda-feira, 21 de março de 2011

Alfinetadas 2

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Variedades linguísticas

 "E o cabo eleitoral, dirigindo-se ao candidato, sentado frente à televisão:

 - Firmei
 - Não, Sirvió Santos"

Variações lingüísticas
O modo de falar do brasileiro
Alfredina Nery*

Toda língua possui variações lingüísticas. Elas podem ser entendidas por meio de sua história no tempo (variação histórica) e no espaço (variação regional). As variações lingüísticas podem ser compreendidas a partir de três diferentes fenômenos.

1) Em sociedades complexas convivem variedades lingüísticas diferentes, usadas por diferentes grupos sociais, com diferentes acessos à educação formal; note que as diferenças tendem a ser maiores na língua falada que na língua escrita;

2) Pessoas de mesmo grupo social expressam-se com falas diferentes de acordo com as diferentes situações de uso, sejam situações formais, informais ou de outro tipo;

3) Há falares específicos para grupos específicos, como profissionais de uma mesma área (médicos, policiais, profissionais de informática, metalúrgicos, alfaiates, por exemplo), jovens, grupos marginalizados e outros. São as gírias e jargões.
Assim, além do português padrão, há outras variedades de usos da língua cujos traços mais comuns podem ser evidenciados abaixo.

Uso de “r” pelo “l” em final de sílaba e nos grupos consonantais: pranta/planta; broco/bloco.
Alternância de “lh” e “i”: muié/mulher; véio/velho.
Tendência a tornar paroxítonas as palavras proparoxítonas: arve/árvore; figo/fígado.
Redução dos ditongos: caxa/caixa; pexe/peixe.
Simplificação da concordância: as menina/as meninas.
Ausência de concordância verbal quando o sujeito vem depois do verbo: “Chegou” duas moças.
Uso do pronome pessoal tônico em função de objeto (e não só de sujeito): Nós pegamos “ele” na hora.
Assimilação do “ndo” em “no”( falano/falando) ou do “mb” em “m” (tamém/também).
Desnasalização das vogais postônicas: home/homem.
Redução do “e” ou “o” átonos: ovu/ovo; bebi/bebe.
Redução do “r” do infinitivo ou de substantivos em “or”: amá/amar; amô/amor.
Simplificação da conjugação verbal: eu amo, você ama, nós ama, eles ama.


Variações regionais: os sotaques

Se você fizer um levantamento dos nomes que as pessoas usam para a palavra "diabo", talvez se surpreenda. Muita gente não gosta de falar tal palavra, pois acreditam que há o perigo de evocá-lo, isto é, de que o demônio apareça. Alguns desses nomes aparecem em o "Grande Sertão: Veredas", Guimarães Rosa, que traz uma linguagem muito característica do sertão centro-oeste do Brasil:
Demo, Demônio, Que-Diga, Capiroto, Satanazim, Diabo, Cujo, Tinhoso, Maligno, Tal, Arrenegado, Cão, Cramunhão, O Indivíduo, O Galhardo, O pé-de-pato, O Sujo, O Homem, O Tisnado, O Coxo, O Temba, O Azarape, O Coisa-ruim, O Mafarro, O Pé-preto, O Canho, O Duba-dubá, O Rapaz, O Tristonho, O Não-sei-que-diga, O Que-nunca-se-ri, O sem gracejos, Pai do Mal, Terdeiro, Quem que não existe, O Solto-Ele, O Ele, Carfano, Rabudo.
Drummond de Andrade, grande escritor brasileiro, que elabora seu texto a partir de uma variação lingüística relacionada ao vocabulário usado em uma determinada época no Brasil.

Antigamente
"Antigamente, as moças chamavam-se mademoiselles e eram todas mimosas e muito prendadas. Não faziam anos: completavam primaveras, em geral dezoito. Os janotas, mesmo sendo rapagões, faziam-lhes pé-de-alferes, arrastando a asa, mas ficavam longos meses debaixo do balaio."

Como escreveríamos o texto acima em um português de hoje, do século 21? Toda língua muda com o tempo. Basta lembrarmos que do latim, já transformado, veio o português, que, por sua vez, hoje é muito diferente daquele que era usado na época medieval.

Língua e status

Nem todas as variações lingüísticas têm o mesmo prestígio social no Brasil. Basta lembrar de algumas variações usadas por pessoas de determinadas classes sociais ou regiões, para percebers que há preconceito em relação a elas.

Veja este texto de Patativa do Assaré, um grande poeta popular nordestino, que fala do assunto:

O Poeta da Roça
Sou fio das mata, canto da mão grossa,
Trabáio na roça, de inverno e de estio.
A minha chupana é tapada de barro,
Só fumo cigarro de paia de mío.

Sou poeta das brenha, não faço o pape
De argun menestré, ou errante canto
Que veve vagando, com sua viola,
Cantando, pachola, à percura de amô.
Não tenho sabença, pois nunca estudei,
Apenas eu sei o meu nome assiná.
Meu pai, coitadinho! Vivia sem cobre,
E o fio do pobre não pode estudá.

Meu verso rastero, singelo e sem graça,
Não entra na praça, no rico salão,
Meu verso só entra no campo e na roça
Nas pobre paioça, da serra ao sertão.
(...)

Você acredita que a forma de falar e de escrever comprometeu a emoção transmitida por essa poesia? Patativa do Assaré era analfabeto (sua filha é quem escrevia o que ele ditava), mas sua obra atravessou o oceano e se tornou conhecida mesmo na Europa.

Leia agora, um poema de um intelectual e poeta brasileiro, Oswald de Andrade, que, já em 1922, enfatizou a busca por uma "língua brasileira".

Vício na fala

Para dizerem milho dizem mio
Para melhor dizem mio
Para pior pio
Para telha dizem teia
Para telhado dizem teiado
E vão fazendo telhados.

Uma certa tradição cultural nega a existência de determinadas variedades lingüísticas dentro do país, o que acaba por rejeitar algumas manifestações lingüísticas por considerá-las deficiências do usuário. Nesse sentido, vários mitos são construídos, a partir do preconceito lingüístico.
*Alfredina Nery Professora universitária, consultora pedagógica e docente de cursos de formação continuada para professores na área de língua/linguagem/leitura




Gíria e jargão
A língua muda conforme situação
Alfredina Nery*

A língua varia no tempo e no espaço. Há ainda as variaçãoes linguísticas dos grupos sociais (jovens, grupos de profissionais, etc) e até mesmo, há variação quando um único indivíduo, em situações diferentes, usa diferentemente a língua, de forma a se adequar ao contexto de comunicação. Uma dessas variações é a "gíria", que são as palavras que entram e saem da moda, de tempos em tempos.

Você conhece o "Dicionário dos Mano"? Aqui vão alguns exemplos:

·         Mano não briga: arranja treta.
·         Mano não cai: capota.
·         Mano não entende: se liga.
·         Mano não passeia: dá um rolê.
·         Mano não come: ranga.
·         Mano não fala: troca idéia
·         Mano não ouve música: curte um som.

A gíria teve sua origem na maneira de falar de grupos marginalizados que não queriam ser entendidos por quem não pertencesse ao grupo. Hoje, entende-se a gíria como uma linguagem específica de grupos específicos, como os jovens. Grupos sociais distintos têm seus "modos de falar", como é o caso dos mais escolarizados e, até mesmo, os grupos profissionais que se expressam por meio das linguagens técnicas de suas profissões.

Jargão

Jargão é o modo de falar específico de um grupo, geralmente ligado à profissão. Existe, por exemplo, o jargão dos médicos, o jargão dos especialistas em informática, etc.
Imagine que você foi a um hospital e ouviu um médico conversando com outro. A certa altura, um deles disse:

"Em relação à dona Fabiana, o prognóstico é favorável no caso de pronta-suspensão do remédio."

É provável que você tenha levado algum tempo até entender o que o médico falou. Isso porque ele utilizou, com seu colega de trabalho, termos com os quais os dois estão acostumados. Com a paciente, o médico deveria falar de uma maneira mais simples. Assim:

"Bem, dona Fabiana, a senhora pode parar de tomar o remédio, sem problemas"


Diferentes situações de comunicação

Uma mesma pessoa pode escolher uma forma de linguagem mais conservadora numa situação formal ou um linguajar mais informal, em situação mais descontraída. Quantas vezes, isso não acontece conosco, no cotidiano? Na família e com amigos, falamos de uma forma, mas numa entrevista para procurar emprego é muito diferente. Essas diferenças lingüísticas dependem de:

·         familiaridade ou distância dos que participam do ato de linguagem;
·         grau de formalidade da ocasião;
·         tipo de texto usado: conferência, texto escrito, conversa, artigo etc.

Portanto, para saber se adequar a diferentes situações de comunicação, com variações lingüísticas próprias de cada ocasião, você precisa ser um "poliglota na própria língua"...




Divirta-se com os textos que exploram as variedades como forma de humor.


Texto 1: Assalto


- Assaltante Cearense
Ei, bixim…
Isso é um assalto..
Arriba os braços e num se bula nem faça munganga…
Passa vexado o dinheiro senão eu planto a peixeira no teu bucho e boto teu fato pra fora…
Perdão meu Padim Ciço, mas é que eu tô com uma fome da molesta…


- Assaltante Mineiro
Ei cumpadre, prestenção..
Isso é um assarto, uai…
Levanto os braços e fica quetinho quesse trem na minha mão tá cheio de bala…
Mió passar logo os trocados que eu num tô bão hoje…
Vai andando, uai, tá esperando o que, uai..


- Assaltante Gaúcho
Ô gurí, ficas atento…
Báh, isso é um assalto…
Levantas os braços e te aquieta, tchê!
Não tentas nada e tomas cuidado que esse facão corta que é uma barbaridade…
Passa os pilas prá cá!
E te manda a la cria, senão o quarenta e quatro fala!!


- Assaltante Carioca
Seguiiiinnte, cara…
Tu se fudeu, isso é um assalto…
Passa a grana e levanta os braços cara…
Não fica de bobeira que eu atiro bem pra caralho…
Vai andando e se olhar pra traz vira presunto…


- Assaltante Baiano
Ô meu rei.( longa pausa )…….. isso é um assalto…
Levanta os braços, mas não se avexe não…
Se num quiser nem precisa levantar, pra num ficar cansado…
Vai passando a grana, bem devagarinho…
Num repara se o berro está sem bala, mas é pra não ficar muito pesado…
Não esquenta, meu irmãozinho, vou deixar teus documentos na próxima encruzilhada…


- Assaltante Paulista
Ôrra, meu…..
Isso é um assalto, meu….
Alevanta os braços, meu….
Passa a grana logo, meu…
Mais rápido, meu, que eu ainda preciso pegar a bilheteria aberta pra comprar o ingresso do jogo do Timão, meu….
Se manda, meu….



Texto 2: Antigamente



ANTIGAMENTE, as moças chamavam-se mademoiselles e eram todas mimosas e muito prendadas. Não faziam anos: completavam primaveras, em geral dezoito. Os janotas, mesmo não sendo rapagões, faziam-lhes pé-de-alferes, arrastando a asa, mas ficavam longos meses debaixo do balaio. E se levavam tábua, o remédio era tirar o cavalo da chuva e ir pregar em outra freguesia. As pessoas, quando corriam, antigamente, era para tirar o pai da forca e não caíam de cavalo magro. Algumas jogavam verde para colher maduro, e sabiam com quantos paus se faz uma canoa. O que não impedia que, nesse entrementes, esse ou aquele embarcasse em canoa furada. Encontravam alguém que lhes passasse a manta e azulava, dando às de vila-diogo. Os mais idosos, depois da janta, faziam o quilo, saindo para tomar fresca; e também tomavam cautela de não apanhar sereno. Os mais jovens, esses iam ao animatógrafo, e mais tarde ao cinematógrafo, chupando balas de altéia. Ou sonhavam em andar de aeroplano; os quais, de pouco siso, se metiam em camisa de onze varas, e até em calças pardas; não admira que dessem com os burros n’água.
HAVIA OS QUE tomaram chá em criança, e, ao visitarem família da maior consideração, sabiam cuspir dentro da escarradeira. Se mandavam seus respeitos a alguém, o portador garantia-lhes: “Farei presente.” Outros, ao cruzarem com um sacerdote, tiravam o chapéu, exclamando: “Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo”, ao que o Reverendíssimo correspondia: “Para sempre seja louvado.” E os eruditos, se alguém espirrava — sinal de defluxo — eram impelidos a exortar: “Dominus tecum”. Embora sem saber da missa a metade, os presunçosos queriam ensinar padre-nosso ao vigário, e com isso metiam a mão em cumbuca. Era natural que com eles se perdesse a tramontana. A pessoa cheia de melindres ficava sentida com a desfeita que lhe faziam, quando, por exemplo, insinuavam que seu filho era artioso. Verdade seja que às vezes os meninos eram mesmo encapetados; chegavam a pitar escondido, atrás da igreja. As meninas, não: verdadeiros cromos, umas tetéias.
ANTIGAMENTE, certos tipos faziam negócios e ficavam a ver navios; outros eram pegados com a boca na botija, contavam tudo tintim por tintim e iam comer o pão que o diabo amassou, lá onde Judas perdeu as botas. Uns raros amarravam cachorro com lingüiça. E alguns ouviam cantar o galo, mas não sabiam onde. As famílias faziam sortimento na venda, tinham conta no carniceiro e arrematavam qualquer quitanda que passasse à porta, desde que o moleque do tabuleiro, quase sempre um cabrito, não tivesse catinga. Acolhiam com satisfação a visita do cometa, que, andando por ceca e meca, trazia novidades de baixo, ou seja, da Corte do Rio de Janeiro. Ele vinha dar dois dedos de prosa e deixar de presente ao dono da casa um canivete roscofe. As donzelas punham carmim e chegavam à sacada para vê-lo apear do macho faceiro. Infelizmente, alguns eram mais do que velhacos: eram grandessíssimos tratantes.
ACONTECIA o indivíduo apanhar constipação; ficando perrengue, mandava o próprio chamar o doutor e, depois, ir à botica para aviar a receita, de cápsulas ou pílulas fedorentas. Doença nefasta era a phtysica, feia era o gálico. Antigamente, os sobrados tinham assombrações, os meninos lombrigas, asthma os gatos, os homens portavam ceroulas, botinas e capa-de-goma, a casimira tinha de ser superior e mesmo X.P.T.O. London, não havia fotógrafos, mas retratistas, e os cristãos não morriam: descansavam.
MAS TUDO ISSO era antigamente, isto é, outrora.
Carlos Drummond de Andrade

Texto 3: Cinema gaúcho 
Para uma fácil aceitação da população gaúcha, os cinemas locais mudam os nomes dos filmes. Veja abaixo o nome de alguns filmes que já foram mudados pelos gaúchos.

Uma Linda Mulher
Uma Chinoca Buenacha

O Poderoso Chefão
O Bagual Cuiudo

O Exorcista
Vem Capeta, Que te Arrebento a Facão!

Os Sete Samurais
Sete Gaudérios cas Vista Estreita

Godzila
Que Baita Lagarto!

Os Brutos Também Amam
Os Guapos

Perfume de Mulher
Asa de Chinoca

Mamãe Faz Cem anos
A Véia tá Cheirando a Defunto

Corra Que A Polícia Vem Aí
Vamo Saí Ginetiando, Que vem Vindo os Milico

E O Vento Levou
Se foi com o Minuano!

Guerra Nas Estrelas
Peleia no Firmamento

Um Peixe Chamado Wanda
O Muçum-Prenda

A Noviça Rebelde
Madre Alvorotada

O Corcunda de Notre Dame
O Tortinho Estropiado

O Fim Dos Dias
O Bagualão contra o Demo

A Pantera Cor-de-rosa
Gato-do-Mato Fresco

O Náufrago
Mais Perdido que cusco em Tiroteio

Os Filhos do Silêncio
Boca Fechada não Entra Mosca

7 Anos No Tibet
Sete anos na bailanta do Tio Beto

Querida, Encolhi As Crianças
China Véia! Encolhi as Cria

Titaníc
O caíacão furado

Forest Gump
Um trovador dos Pampa

A múmia
Um xirú enfaichado

O senhor dos anéis
O piá dono da argola

Despedida de solteiro
Bochincho lá nas tia

Máquina mortífera
O caminhão do Ambrózio não tem freio!

300
Mas há!


Texto 4: Cinema nordestino

Para uma fácil aceitação da população nordestina, os cinemas locais mudam os nomes dos filmes. Veja abaixo o nome de alguns filmes que já foram mudados pelos nordestinos.

Uma Linda Mulher
A Cabrita Aprumada

O Poderoso Chefão
O Coroné Arretado

O Exorcista
Arreda Capeta!

Os Sete Samurais
Os Jagunço di Zóio Rasgado

Godzila
O Calangão

Os Brutos Também Amam
Os Vaquero Baitola

Sansão e Dalila
O Cabiludo e a Quenga

Perfume de Mulher
Cherim di Cabocla

Tora, Tora, Tora!
Oxente, Oxente, Oxente!

Mamãe faz cem anos
Mainha num Morre Mais!

Guerra nas Estrelas
Arranca-rabo nu Céu

Um Peixe Chamado Wanda
O Lambarí cum nomi di Muié

Noviça Rebelde
Beata Increnquera

O Corcunda de Notre Dame
O Monstrim da Igreja Grandi

O Fim dos Dias
Nóis Tamo é Lascado

Um Cidadão Acima de Qualquer Suspeita
Um Cabra Pai D' égua di Quem Ninguém Discunfia

Os Filhos do Silêncio
Os Minino du Mudim

A Pantera Cor-de-rosa
A Onça Aviadada

Texto 5: Dicionário mineirês/português 
Muitas pessoas se confundem quando vão a Minas Gerais visitar o parente caipira e não entendem o que ele está dizendo. Seus problemas acabaram, acaba de sair o Dicionário Mineirês/Português, o guia definitivo para entender os mineiros. Confira:

PRESTENÇÃO - É quano eu tô falano iocê num tá ovino.

CADIQUÊ? - Assim, tentanu intendê o motivo.

CADIM - É quano eu num quero muito, só um poquim

DEU - o mez qui "di mim". Ex.: Larga deu, sô!

SÔ - fim de quarqué frase. Qué exêmpro tamem? Cuidadaí, sô!

DÓ - o mez qui "pena", "cumpaxão" : "ai qui dó, gentch...!!"

NIMIM - o mez qui in eu. Exempro: Nòoo, ce vivi garrado nimim, trem!... Larga deu, sô!!...

NÓOO - Num tem nada a vê cum laço pertado, não! Omez qui "nossa!.." Vem de Nòoosinhora!...

PELEJANU - omez qui tentanu: Tô pelejanu quesse diacho né di hoje, qui nó! (agora é nó mez!)

MINERIM - Nativo duistadiminnss.

UAI - Uai é uai, sô... Uai!

ÉMÊZZZ?! - minerim querêno cunfirmá.

NÉMÊZZZ?! - minerim querêno sabê si ocê concorda.

OIAQUI - Minerim tentano chama atenção pralguma coizz...

PÃO DI QUEJU - Iosscêis sabe!... Cumida fundamentar qui disputa com o tutu a preferêca dus minêro

TUTU - Mistura de farinha di mandioca (o di mio) cum fejão massadim. Bom dimais da conta, gentch!!..

TREIM - Qué dize quarqué coizz qui um minerim quizé! Ex: "Já lavei US Trem!" "Qui trem bão!!"

NNN - Gerúndio du minreis. Ex: "Eles tão brincannn", "Cê tá innn, eu tô vinnn..."

PÓPÔPÓ? - Mineira perguntando pro marido se Pode Pôr o Pó.

PÓPÔPOQUIM - Resposta afirmativa do marido.

JISGIFORA - Cidadi pertin du Ridijanero. Cunfunde a cabeça do minerim que si acha qui é carioca.

DEUSDE - desde. Ex: "Eu sô magrelin deusde rapazin!"

ISPÍA - nome da popular revista "VEJA"

ARREDA - verbu na form imperativ (danu órdi), paricido cum saí. "Arredaí, sô!"

"IM" - diminutivo. Ex: lugarzim, piquininim, vistidim, etc.

DENDAPIA - Dentro da pia.

TRADAPORTA - Atrás da porta.

BADACAMA - Debaixo da cama.

PINCOMÉ - Pinga com mel.

ISCODIDENTE - Escova de dente.

PONDIÔNS - Ponto de ônibus.

SAPASSADO - Sábado passado.

VIDIPERFUME - Vidru de perfume.

OIPROCÊVÊ (ou OPCV) - óia procê vê

TISSDAÍ - Tira ISS daí.

CAZOPÔ - Caxa disopor.

ISTURDIA - Otru dia.

PROINOSTOINO? - pronde nós tamo inu?

CÊSSÁ SÊSSE ONS PASSNASSAVASS? - ocê sabe se esse ônibus passa na Savassi?

JIGIFORA - Cidade pertinho do Rio de Janeiro. Confunde a cabeça do mineiro, que não sabe se é carioca

BELZONTE - Capitar do istado.


Texto 6: frases de revistas femininas

Se desconfiar da infidelidade do marido, a esposa deve redobrar seu carinho e provas de afeto, sem questioná-lo. (Revista Claudia, 1962).

A desordem em um banheiro desperta no marido a vontade de ir tomar banho fora de casa. (Jornal das Moças, 1965).

A mulher deve fazer o marido descansar nas horas vagas, servindo-lhe uma cerveja bem gelada. Nada de incomodá-lo com serviços ou notícias domésticas. (Jornal das Moças, 1959).

Se o seu marido fuma, não arrume briga pelo simples fato de cair cinzas no tapete. Tenha cinzeiros espalhados por toda casa. (Jornal das Moças, 1957).

Não se deve irritar o homem com ciúmes e dúvidas. (Jornal das Moças,1957).

O noivado longo é um perigo, mas nunca sugira o matrimônio. ELE é quem decide sempre! (Revista Querida, 1953).

Sempre que o homem sair com os amigos e voltar tarde da noite espere-o linda, cheirosa e dócil. (Jornal das Moças, 1958).

É fundamental manter sempre a aparência impecável diante do marido. (Jornal das Moças, 1957).

O lugar de mulher é no lar. (Revista Querida, 1955).


Texto 7: Naqueles tempos
PREPARADA - era uma moça que cursou a universidade, fez pós graduação no exterior e falava no mínimo dois idiomas.

TIGRÃO - Era aquele bonequinho dos Sucrilhos Kellog's ,o Tony. E a criançada colecionava quebra-cabeças com a cara dele.

CACHORRA - Era a fêmea do cachorro, a melhor guardiã que se podia ter em casa.

ASPIRAR UMA CARREIRA - Era sonhar com o sucesso profissional em advocacia, medicina, arquitetura...

PASSAR CEROL NA MÃO - era uma tremenda burrice. O cerol era pra passar na linha. E "aparar pela rabiola" também era burrice, pois, podia estancar e você perdia a pipa.

HIPPIE - não usava rendinha, nem sutiã, nem bijuteria de prata com esmeralda.

BONDE - Era um meio de transporte superado.

DAR PRESSÃO - era o que o garçom fazia, quando tirava um chope legal no bar.

SILICONE - Era uma substância líquida, com a qual os rapazes poliam o estofamento do "carango", antes de buscar a garota pra sair pra ver "corrida de submarino"..

TIAZINHA - Era aquela simpática senhora, tia da nossa mãe, que contava histórias e nos dava biscoitos de polvilho.

FEITICEIRA - Era uma vassoura moderna, pra limpar carpetes...

"TÁ DOMINADO, TÁ TUDO DOMINADO" - Era o slogan norte-americano em relação ao terceiro mundo... aliás, pensando bem... até que isso não mudou ...

Texto 8: O roubo dos patos

Ao chegar em casa, ouviu um barulho estranho vindo do seu quintal. Chegando lá, constatou haver um ladrão tentando levar seus patos de criação.
    Aproximou-se vagarosamente do indivíduo e, surpreendendo-o ao tentar pular o muro com seus amados patos, disse-lhe:
    - Oh, bucéfalo anácroto! Não o interpelo pelo valor intrínseco dos bípedes palmípedes, mas sim pelo ato vil e sorrateiro de profanares o recôndito da minha habitação, levando meus ovíparos à sorrelfa e à socapa.
Se fazes isso por necessidade, transijo; mas se é para zombares da minha elevada prosopopéia de cidadão digno e honrado, dar-te-ei com minha bengala fosfórica bem no alto da tua sinagoga, e o farei com tal ímpeto que te reduzirei à qüinquagésima potência do que o vulgo denomina nada.
    E o ladrão, confuso, diz:
    - Doutor, eu levo ou deixo os patos???
                        RUI BARBOSA


Texto 9: Causo mineiro

Sapassadu era sessembru, taveu na cuzinha tumandu uma pincumel e cuzinhandu um kidicarni cumastumati pra fazê uma macarronada cum galinhassada. Quascaí di sustu quanduvi um barui vinde dendufornu parecenum tidiguerra. A receita mandopô midipipoca denda galinhaprassá. U fornu isquentô, omioistorô e u fiofó da galinhispludiu!... Nossinhora!...fiquei brancu quinem um litileite. Foi um trem doidim, quascaí dendapia, fiquei sensabê doncovim, nuncotô e proncovô. Ópcevê quilocura...grazadeus ninguém simaxucô!!!