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quinta-feira, 4 de abril de 2013

Exercícios - linguagem e estilo


Associe os textos seguintes às características predominantes correspondentes a cada um deles. A seguir, marque a alternativa que contém a sequência CORRETA.

1. “Ali, por entre a folhagem distinguiram-se as ondulações felinas de um dorso negro, brilhante... era uma onça enorme. O índio sorrindo e indolentemente encostado ao tronco seco, não perdia um só desses movimentos, e esperava o inimigo com calma e serenidade (...)”
(O Guarani – José de Alencar)
2. “(...) Mas que vejo eu ali... que quadro de amarguras! É canto funeral!... Que tétricas figuras!... Era um sonho dantesco... Em sangue a se banhar.
Tinir de ferros... estalar do açoite... Legiões de homens negros como a noite. Horrendos a dançar...”
(Navio Negreiro – Castro Alves)
3. “No outro dia o herói acordou muito constipado. Era porque apesar do calorão da noite ele dormira de roupa com medo da Caruviana que pega indivíduo dormindo nu. (...) Porém quando se sentiu bom era manhãzinha e quem conta história de dia cria rabo de cutia...”
(Macunaíma – Mário de Andrade)
4. “Haveria um escândalo se as ararinhas-azuis estivessem morrendo uma após a outra nos manduvis do Pantanal (...) Mas não há escândalo nenhum com a morte – em ritmo quase diário – dos indiozinhos que vivem nas aldeias de Mato Grosso do Sul.”
(Revista Veja – 23.3.2005)
( )  Linguagem romântica em que se encontra uma aproximação com a língua viva. As frases são diretas, mas plenas de palavras decorativas.
( ) A linguagem é bem elaborada e até rebuscada. A construção formal é constante, havendo tratamento plástico das palavras e frases.
( ) Texto destituído de linguagem tradicional. Ausência de pontuação, havendo assimilações da linguagem oral e rimas internas.
( ) Texto claro, econômico, informativo. As frases são simples, diretas, elucidativas.

a) 1, 2, 3, 4
b) 2, 1, 4, 3
c) 1, 3, 2, 4
d) 3, 2, 4, 1
e) 1, 2, 4, 3

sábado, 7 de julho de 2012

Ambiguidade polissêmica ou estrutural

A ambiguidade pode ser polissêmica ou estrutural.

1.1. Ambiguidade polissêmica
Texto 1
Os Estados Unidos não podem oferecer ao presidente venezuelano bolachas por não concordar com a política imperialista de George W. Bush.
Bolachas = biscoitos
Bolachas = tapas / bofetadas

1.2. Ambiguidade estrutural
Texto 1
É mister que a sociedade brasileira apoie a Lei Maria da Penha. Ela não pode dar margem para questionamentos favoráveis ou contrários. Deve haver uma unanimidade a fim de que se possa eliminar a violência contra a mulher.
Ela = sociedade brasileira
Ela = a Lei Maria da Penha

Texto 2
O programa Bolsa Família beneficiou a população mais carente deste país, e o presidente Lula não mediu esforços para garantir o seu sucesso.
Seu = o programa Bolsa Família
Seu = o presidente Lula

Texto 3
Naquela manhã, o coronel Poncidônio viu Mariângela descendo pela escada da velha casa abandonada.
O coronel descia pela escada?
Mariângela descia pela escada?


Professor Marcelo Braga

Pegação - Polissemia


Denatran apela para “pegação” 
em campanha educativa para o Carnaval







Após ler atentamente a campanha da Denatran, responda:

a) De que forma a polissemia está manifestada na campanha.

b) A presença da polissemia provocou ambiguidade no texto. Qual o efeito de sentido gerado pela presença da ambiguidade nesses anúncios?

c) Você considera que essa campanha publicitária é original e convincente?

d) Pode-se considerar que o uso da ambiguidade foi importante para a criação de sentidos da campanha? Esse uso pode ser entendido como uma estratégia argumentativa? Explique.

Metapoesia

CHÃO
                               palavras para manoel de barros

apetece-me des-ser-me;
reatribuir-me a átomo.
cuspir castanhos grãos
mas gargantadentro;
isto seja: engolir-me para mim
poucochinho a cada vez.
um por mais um: areios.
assim esculpir-me a barro
e re-ser-chão. muito chão.
apetece-me chãonhe-ser-me.
                                in: "Há prendizajens com o xão" de Ondjaki

Reflita:

1. Nas palavras de Ondjaki, “[Penso] que devemos mexer na língua, tendo em conta os referentes gramaticais, mas dando-nos a liberdade de exercer certa pressão cultural à língua.” Comente.

2. A poesia de Ondjaki tem a forte recorrência do registro oral, cujas marcas inscrevem-se por meio da ortografia de determinados fonemas ou pela aglutinação de vocábulos, recursos que acabam por criar uma multiplicidade de sentidos e requerer um exercício do pensamento analógico. Retire alguns exemplos dessas ocorrências no texto e explique-as.

3. Destaque o trecho em que é possível perceber que a identidade do eu-lírico se manifesta pelo diálogo com a terra.


4. O poema  Chão, faz analogia ao sobrenome barros a quem o poema é dedicado (Manoel de Barros). Qual a possibilidade de interpretação dessa analogia?

domingo, 1 de julho de 2012

Formação de palavras - Um chamado João


TEXTO PARA AS PRÓXIMAS 2 QUESTÕES.
(Unicamp 2008) UM CHAMADO JOÃO

João era fabulista?
fabuloso?
fábula?
Sertão místico disparando
no exílio da linguagem comum?

Projetava na gravatinha
a quinta face das coisas
inenarrável narrada?
Um estranho chamado João
para disfarçar, para farçar
o que não ousamos compreender?

(...)

Mágico sem apetrechos,
civilmente mágico, apelador
de precípites prodígios acudindo
a chamado geral?

(...)

Ficamos sem saber o que era João
e se João existiu
deve pegar.
                (Carlos Drummond de Andrade, em "Correio da Manhã", 22/11/1967, publicado em Rosa, J. G. "Sagarana". Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001.)

1.
a) No título, "chamado" sintetiza dois sentidos com que a palavra aparece no poema. Explique esses dois sentidos, indicando como estão presentes nas passagens em que "chamado" se encontra.
b) Na primeira estrofe do poema, "fábula" é derivada em "fabulista" e "fabuloso". Mostre de que modo a formação morfológica e a função sintática das três palavras contribuem para a formação da imagem de Guimarães Rosa.

2. Na segunda estrofe, há dois processos muito interessantes de associação de palavras. Em "inenarrável/narrada" encontramos claramente um processo de derivação. Em "disfarçar/farçar", temos a sugestão de um processo semelhante, embora "farçar" não conste dos dicionários modernos.

a) Relacione o significado de "inenarrável" com o processo de sua formação; e o de "farçar", na relação sugerida no poema, com "disfarçar".
b) Explique como esses processos contribuem na construção dos sentidos dessa estrofe.

Respostas:
1. a) Em "Um estranho chamado João", a palavra "chamado" é um adjetivo cujo sentido é o mesmo das expressões "que se chama", "que se denomina", "que se nomeia", "que pode ser chamado de". No último verso da terceira estrofe ([acudindo] "a chamado geral"), "chamado" é um substantivo que representa o ato de chamar a atenção, de pedir ajuda, fazer uma convocação. Então, o título do poema - "Um chamado João" - explora o duplo sentido que a palavra "chamado" tem no poema.

b) Os termos "fabulista" e "fabuloso" podem ser considerados derivações sufixais de "fábula". O sufixo "-ista" designa aquele que pratica uma atividade ("fabulista" é quem produz fábulas), enquanto o sufixo "-oso" forma substantivos a partir de adjetivos, produzindo um efeito de sentido de intensificação ("fabuloso" é o que ultrapassa a imaginação e, por extensão de sentido, que é admirável, incrível, fantástico). Pode-se observar que o poema de Drummond começa classificando Rosa como um produtor de fábulas, para depois valorizá-lo como um escritor fabuloso e, por fim, tomá-lo como a própria fábula, como se autor e obra se fundissem numa coisa só. Essas três palavras possuem a mesma função sintática - predicativo do sujeito - e têm a mesma origem, produzindo, no plano sintático e morfológico, um efeito de repetição, de reiteração, de corroboração.

2-  a) No primeiro caso, a palavra "inenarrável" significa "o que não pode ser narrado". A idéia de negação está no prefixo "in-" (derivação prefixal). Porém, o elemento ao qual se junta o prefixo é o adjetivo "enarrável", que os dicionários, na sua maioria, não costumam registrar. A palavra geralmente usada é "narrável", o que resulta em "inarrável". Isso ocorre por haver dois verbos, "narrar"  e "enarrar", com o mesmo sentido.
No segundo caso, como o significado de "disfarçar" é "encobrir", "ocultar", "tapar", o vocábulo primitivo do qual ele seria formado, por processo de derivação prefixal, seria "farçar", que tem como significado oposto "revelar", "manifestar". Mas essa velação não é absoluta, já que a semelhança sonora entre "farçar" e "farsa" sugeriria que João é capaz de dizer o indizível, fazendo com que o mistério do "que não ousamos compreender" permaneça vivo em sua literatura.

b) Na segunda estrofe, a idéia pretendida é a de que João consegue realizar o impossível. O processo de derivar um vocábulo de outro "inexistente", que se observa nos pares inenarrável/enarrável e disfarçar/farçar, mostra o poder que o ficcionista tem de realizar o "irrealizável".

Formação de palavras


Leia os textos a seguir e responda às questões de 1 a 4.

Texto 1
I
Deixei uma ave me amanhecer
XLVII
Abelhas novembras murmuram meu olho.
XLIX
(...)
Os morros se andorinham longemente...
Eu me horizonto.
Eu sou o horizonte dessas garças.

Texto 2
Prefácio - Manoel de barros
Assim é que elas foram feitas (todas as coisas) -
sem nome.
Depois é que veio a harpa e a fêmea em pé.
Insetos errados de cor caíam no mar.
A voz se estendeu na direção da boca.
Caranguejos apertavam mangues.
Vendo que havia na terra
Dependimentos demais
E tarefas muitas -
Os homens começaram a roer unhas.
Ficou certo pois não
Que as moscas iriam iluminar
O silêncio das coisas anônimas.
Porém, vendo o Homem
Que as moscas não davam conta de iluminar o
Silêncio das coisas anônimas -
Passaram essa tarefa para os poetas.

1. Um dos efeitos poéticos obtido por Manuel de Barros é criado a partir de uma utilização diferenciada das palavras. Aponte, nos fragmentos do texto 1, palavras que foram inventadas (neologismos).

2. Além de neologismos, Manuel de Barros também cria um efeito poético ao utilizar certas palavras de forma diferente da usual. Cite um exemplo.

3. O segundo texto, “Prefácio”, mostra qual deve ser o papel do poeta. Qual é esse papel?

4. De que forma essa definição justificaria as invenções de linguagem apontadas na questão anterior?

Fonte: ABAURRE, Maria Luiza; PONTARA, Marcela Nogueira e FADEL, Tatiana. Português, ed. Moderna, volume 3. 

terça-feira, 19 de junho de 2012

Protesto - pontuação


 Max Nunes é um dos grandes humoristas brasileiros, atuando como redator de vários programas do rádio e da televisão. Leia com atenção um texto de sua autoria.

Protesto
A situação sob o ponto de vista gramatical:
A situação é boa, interrogação.
É boa. Vírgula, é a exclamação.
E, se você protestar ou reticências;
Acaba apanhando, indo para a assistência e levando dois pontos.
E, se você passar muito mal ponto final.

É interessante notar como há uma mistura das expressões de sentido denotativo e conotativo. Aliás, está aí o humor impresso no texto. Da leitura atenta pode-se determinar que

a) a interrogação do segundo verso implica espanto generalizado em razão da situação de protesto.
b) o protesto, seguido pelas reticências, induz à ideia de liberdade de expressão inerente a situações como essas.
c) os dois-pontos presentes no texto não têm uma correlação gramatical como a exclamação e a interrogação.
d) o ponto inicial é uma referência ao sentido gramatical apontado na situação geradora do texto.
e) a morte está estampada no ponto final, assim como os dois pontos, na indignação coletiva do protesto.

domingo, 17 de junho de 2012

Crônicas - Para mim, isso é grego

Adoro brincar com palavras, palavrões, expressões, ditos populares ou impopulares. Descobrir a origem de palavras e frases. Tenho um amigo que me chama de O Rei do Dicionário Abril. Tenho todos, desde 75. Outro dia, no Jô, esbaldei-me (caí dentro de um balde?) de rir com o jornalista Marcelo Duarte, que escreveu um livro imenso (O Guia dos Curiosos, editora Cia. das Letras) só sobre essas bobageiras e, tenho certeza, para mim.

Agora saiu um outro livro (Isso é Grego Para Mim!, de Michael Macrone, da Universidade de Berkeley, pela Editora Rotterdan). Macrone, ainda garoto, vai buscar no grego e no latim, naqueles clássicos todos, as origens de algumas palavras e expressões. É uma delícia. Vou contar algumas:

ALTER EGO — Sêneca já dizia: "O que pode ser mais precioso que ter um amigo com o qual francamente possas falar a respeito de tudo? Um amigo assim é raro e, uma vez encontrado, deve ser diligentemente conservado, pois é como um outro eu (alter ego)". Só depois de Freud é que alter ego tomou o sentido de "uma identidade diferente de uma mesma pessoa".

O AMOR É CEGO — Viria da cegueira do Cupido, apontando sua seta dourada para alguma vítima. Mas pairam dúvidas, pois a cegueira do Cupido parece ter sido coisa pós-clássica.

AMOR PLATÔNICO — Claro, vem de Platão, é claro, que nutria um amor não sexual pelos seus jovens discípulos. "Na Grécia daquele tempo, não era raro adolescentes e rapazes se ligarem romanticamente a um homem mais velho, que ficava conhecido como o 'amante'." Parece que hoje em dia isso se chama pederastia. O meu amor, por exemplo, é um amor pratônico.

ARGONAUTAS — Era a nau de Jasão, construída por Argos, cujo nome, em grego, quer dizer veloz. Daí que veio a palavra dada aos aventureiros que chegaram na Califórnia em 1849, na grande Corrida do Ouro.

CALCANHAR DE AQUILES — Nem sempre Aquiles teve um calcanhar de Aquiles, que seria seu único ponto vulnerável. Conta a lenda que a flechada com que Páris o matou não foi bem ali que acertou.

CANÁRIO — Por que um pássaro teria o nome derivado de um cão (canis)? Foram originários de uma ilha que tinha muitos cães e pássaros (hoje as Ilhas Canárias, espanholas). Cães e pássaros foram levados para o continente. Os cachorros morreram, ficaram os canários.

SIRENE — Vem do canto das sereias, que tanto atraíam Ulisses e sua turma pelos mares. Apalavra sirene vem de sereia. Assim como as sereias chamavam os navegadores para a morte, hoje a sirene chama os operários para as fábricas. Sem contar a sirene da polícia, que coisa boa não chama.

CÍNICO — Mais uma vez, coisa de cachorro. Do grego kynicós, que significa "semelhante a cachorro". O apelido era dado aos filósofos de então e "trazia uma boa carga de desprezo por pessoas que não estavam lá muito preocupadas com a higiene pessoal e cujos costumes ascéticos colocavam-nas à margem do que considerava uma sociedade civilizada". Portanto, concluo eu, os hippies foram os cínicos dos anos 60.

FASCISTA — Os ajudantes de oficiais romanos usavam feixes (fascis, em latim) no ombro, como símbolo de autoridade. No final do século 19, na Itália, a palavra passou a significar "grupamentos políticos". Mussolini, antibolchevista, gostou do nome.

LACÔNICO — Quando Felipe da Macedônia escreveu aos magistrados de Esparta "Se eu entrar na Lacônia, reduzirei Esparta a pó", os lacônicos sucintamente responderam: “Se". Mais lacônico impossível.

MENTOR — Era um soldado, amigo de Ulisses, na Odisséia de Homero. Venceu uma batalha, salvando Penélope de uns tarados e o seu nome entrou para a história, embora não tenha vencido mais nenhuma luta.

OPERAÇÃO CESARIANA— Aqui pairam dúvidas. Todos sabem que Júlio César nasceu de uma cesariana. Mas acontece que, quando ele nasceu, ainda não era César. Chamava-se Caio Júlio. É como o caso do ovo e da galinha. Quem nasceu primeiro?

OSTRACISMO — "No século V a.C., os cidadãos votavam em seus inimigos públicos favoritos, escrevendo os nomes em um pedaço de cerâmica, utensílio que os gregos chamavam de óstrakon. Os vencedores eram prontamente banidos da cidade por dez anos." Ou seja, caíam no ostracismo.

QUEIMAR AS PESTANAS — Pitéas, líder popular ateniense, espicaça Demóstenes (aquele que treinava oratória com a boca cheia de pedras), dizendo que seus argumentos "cheiravam a lamparina" — em outras palavras, que eles revelavam demasiado estudo. Hoje diríamos que, para ele chegar aonde chegou, "queimava as pestanas".

SALÁRIO — "É aquilo que você recebe no final do mês e logo gasta em CD e despesas com o carro, mas, quando os soldados romanos recebiam seu salariam, era para que pudessem comprar sal, importado e precioso."

TRAGÉDIA — Supõe-se que a palavra vem de tragoidía, que significa "canção do bode". Bode, em grego é trágos. Deve ser verdade, porque, afinal, toda tragédia é um verdadeiro bode.

                                                                                                                                             Mário Prata



terça-feira, 5 de junho de 2012

O poder do erro

Eu não queria escrever sobre esse tema, por esgotamento. Mas tenho lido tanta bobagem, com o tom furibundo das ignorâncias sólidas, sobre o livro didático que “ensina errado”, que não resisto a comentar. É impressionante como observações avulsas, sem contexto, eivadas de um desconhecimento feroz tanto do livro em si como de seu pressuposto linguístico, podem rolar pelo país como uma bola de neve, encher linguiça de jornais, revistas e noticiários e até mesmo estimular o “confisco” do material pela voz de políticos. Instituições de alto coturno, como a Academia Brasileira de Letras, manifestaram-se contra o horror de um livro didático que “ensina errado”. Até o presidente do Congresso, o imortal José Sarney, tirou sua casquinha patriótica. A sensação que fica é de que há uma legião de professores pelo Brasil afora obrigando alunos a copiar no caderno as formas do dialeto caipira, com o estímulo homicida do MEC (de qualquer governo – seria o fim da picada politizar o tema). Sim a educação brasileira vai muito mal, mas estão errando obtusamente o foco.

O que essa cegueira coletiva mostra, antes de tudo, é o fato de que a linguística – a primeira ciência humana moderna, que se constituiu no final do século 18 com o objetivo de compreender a evolução das línguas – não entrou no senso comum. As pessoas, letradas ou não, sabem mais sobre Astronomia do que sobre o funcionamento das línguas, mas imaginam o contrário. Eis uma cartilha básica, nos limites da crônica: toda língua, em qualquer parte do mundo e em qualquer ponto da história, é um conjunto de variedades; uma dessas variedades, em algum momento e em algumas sociedades, ganhou o estatuto da escrita, que se torna padrão, é defendida pelo Estado e é o veículo de todas informações culturais de prestígio; há diferenças substanciais entre as formas da oralidade e as formas da escrita (são gramáticas diferentes, com diferentes graus de distinção); a passagem da oralidade para a escrita é um processo complexo que nos faz a todos “bilíngues” na própria língua. Pedagogicamente, dar ao aluno a consciência das diferenças linguísticas e de suas diferentes funções sociais é um passo fundamental para o enriquecimento da sua formação linguística.

É função da escola promover o domínio da forma padrão da escrita, estimular a leitura e o acesso ao mundo letrado, e tanto melhor será essa competência quanto mais o aluno desenvolver a percepção das diferenças gramaticais da oralidade e da vida real da língua. Ora, todo livro didático de português minimamente atualizado reserva um capítulo ao tópico da variedade linguística e ao papel da língua padrão dentro do universo das linguagens cotidianas. Num país de profundos desníveis sociais como o Brasil, o reconhecimento da diferença linguística é o passo primeiro para o pleno acesso à escrita e sua função social. Será isso tão difícil de entender? 

* Cristóvão Tezza é autor do romance O filho eterno, cronista do Gazeta do Povo e autor de livros didáticos.

FONTE: Jornal Gazeta do Povo, em 24/05/2011

domingo, 20 de maio de 2012

Linguagem

"A linguagem é muito poderosa. Ela não apenas descreve a realidade.Ela cria a realidade que descreve". Desmond Tutu

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Cilada verbal

Leia o poema

Cilada verbal
Há vários modos de
matar um homem:
com um tiro, a fome
a espada
ou com a palavra
- envenenada.
Não é preciso força.
Basta que a boca solte
a frase engatilhada
e o outro morre
- na sintaxe da
emboscada.
                 Affonso Romano de Sant'Anna

Responda:
1. Na sua opinião, como uma "palavra envenenada" poderia matar alguém?
2. Por que, de acordo com o texto, não é preciso força para matar com a palavra?
3. Sintaxe é a parte da gramática que estuda a combinação da palavras nas frases e das frases no texto. Levando isso em conta, como você interpreta os dois últimos versos?
4. Relacione o título do poema, "Cilada verbal", com seu conteúdo.

No descomeço era o verbo.
Só depois é que veio o delírio do verbo.
O delírio do verbo estava no começo, lá onde a
criança diz: Eu escuto a cor dos passarinhos.
A criança não sabe que o verbo escutar não funciona
para cor, mas para som.
Então se a criança muda a função de um verbo, ele
delira.
E pois.
Em poesia que é voz de poeta, que é a voz de fazer
nascimentos —
O verbo tem que pegar delírio.
                                          Manoel de Barros

Responda:
1. Com base no texto, como ocorre o "delírio do verbo"?
2. Na frase: " Eu escuto a cor dos passarinhos", foi empregada a linguagem denotativa ou conotativa? Por quê?
3. A seu ver, por que a poesia é a "voz de fazer nascimentos"?

terça-feira, 8 de novembro de 2011

As meta-regras de coerência


COERÊNCIA TEXTUAL

Dos trabalhos que desenvolvem os aspectos da coerência dos textos, o de Charolles (1978) é frequentemente citado em estudos descritivos e aplicados. Partindo da noção de textualidade apresentada por Beaugrande e Dressier, Charolles também entende a coerência como uma propriedade ideativa do texto e enumera as quatro meta-regras que um texto coerente deve apresentar:

1. Repetição: Diz respeito à necessária retomada de elementos no decorrer do discurso. Um texto coerente tem unidade, já que nele há a permanência de elementos constantes no seu desenvolvimento. Um texto que trate a cada passo de assuntos diferentes sem um explícito ponto comum não tem continuidade. Um texto coerente apresenta continuidade semântica na retomada de conceitos, ideias. Isto fica evidente na utilização de recursos linguísticos específicos como pronomes, repetição de palavras, sinônimos, hipônimos, hiperônimos etc. Os processos coesivos de continuidade só se podem dar com elementos expressos na superfície textual; um elemento coesivo sem referente expresso, ou com mais de um referente possível, torna o texto malformado.

2. Progressão: O texto deve retomar seus elementos conceituais e formais, mas não deve limitar-se a isso. Deve, sim, apresentar novas informações a propósito dos elementos mencionados. Os acréscimos semânticos fazem o sentido do texto progredir. No plano da coerência, percebe-se a progressão pela soma das ideias novas às que são já tratadas. Há muitos recursos capazes de conferir sequenciarão a um texto.

3. Não-contradição: um texto precisa respeitar princípios lógicos elementares. Não pode afirmar A e o contrário de A. Suas ocorrências não podem se contradizer, devem ser compatíveis entre si e com o mundo a que se referem, já que o mundo textual tem que ser compatível com o mundo que representa. Esta não-contradição se expressa nos elementos linguísticos, no uso do vocabulário, por exemplo. Em redações escolares, costuma-se encontrar significantes que não condizem com os significados pretendidos. Isso resulta do desconhecimento, por parte do emissor, do vocabulário a que recorreu.

4. Relação: um texto articulado coerentemente possui relações estabelecidas, firmemente, entre suas informações, e essas têm a ver umas com as outras. A relação em um texto refere-se à forma como seus conceitos se encadeiam, como se organizam, que papeis exercem uns em relação aos outros. As relações entre os fatos têm que estar presentes e ser pertinentes.


Exercícios
1. Identifique, em cada um dos textos a seguir, a meta-regra de coerência que foi infringida. Em alguns casos, mais de uma meta-regra foi infringida. Tente estabelecer a principal. (Estes textos foram retirados de PETRAS. O melhor do besteirol.)

a.              “É realmente apropriado que nos reunamos aqui hoje, para homenagear Abraham Lincoln, o homem que nasceu numa cabana de troncos que ele construiu com suas próprias mãos”.  (Político, em um discurso, homenageando Lincoln)
b.              “Damos cem por cento na primeira parte do jogo e, se isso não for suficiente, na segunda parte damos o resto”. (Yogi Berra, jogador norte-americano de beisebol, famoso por suas declarações esdrúxulas)
c.              “Mantle rebate com as duas mãos porque é anfíbio”. (idem)
d.             “Alguma força sinistra entrou, aplicou uma outra fonte de energia e apagou as informações contidas na fita”. (Alexandre Haig, oferecendo ao juiz John Sirica uma teoria sobre um “buraco” de 18,5 minutos nas fitas de Nixon, durante o caso Watergate).
e.              “Nós não temos censura. O que temos é uma limitação do que os jornais podem publicar”. (Louis Net, ex-vice-ministro da Informação da África do Sul).
f.              “Substituição de bateria: substitua a bateria velha por uma bateria nova”. (Instrução em manual de aparelho elétrico).
g.               “Por que deveriam os irlandeses ficar de braços cruzados e mãos nos bolsos enquanto a Inglaterra pede ajuda?” (Sir Thomas Myles, falando em um comício em Dublin, em 1902, sobre a guerra dos Boeres).
h.             “Por que os judeus e árabes não podem se reunir e discutir a questão como bons cristãos?” (Arthur Balfour, estadista britânico, primeiro-ministro e ministro do Exterior).
i.               “Quando um grande número de pessoas não consegue encontrar trabalho, o resultado é o desemprego”. (Calvin Coolidge, presidente americano em 1931).
j.               “Encontrando um milhão de dólares na rua, eu procuraria o cara que o perdeu e, se ele fosse pobre, devolveria”. (Yogi Berra).
k.              “Acho que os senhores pensam que, em nossa diretoria, metade dos diretores trabalha e a outra metade nada faz. Na verdade, cavalheiros, acontece justamente o contrário”. (Diretor de empresa, defendendo membros do seu staff).
l.               “Um homem não pode estar em dois lugares ao mesmo tempo, a menos que ele seja uma ave”. (Sir Boy Roche, deputado representante de Tralee no Parlamento Britânico).
m.           Precisamos de leis que protejam a todos. Homens e mulheres, normais e bichas, qualquer que seja sua perversão sexua...ahn, preferência. (Bella Abzug, político de Nova Iorque, em um comício em defesa da Emenda dos Direitos Iguais).
n.             “Eu não estava mentindo. Disse, sim, coisas que mais tarde se viu que eram inverídicas” (Presidente Nixon, em depoimento durante as investigações do caso Watergate).
o.             “Cuidado! Tocar nesses fios provoca morte instantânea. Quem for flagrado fazendo isso será processado”. (Tabuleta numa estação ferroviária).
p.              “Aproximadamente 80% da poluição do ar são causados por hidrocarbonetos liberados pela vegetação, de modo que não vamos exagerar e criar, e exigir o cumprimento de padrões rigorosos de emissão por fontes artificiais” (Presidente Ronald Reagan).
q.              “Quando dois trens se aproximarem em um cruzamento, ambos devem parar por completo e nenhum dos dois iniciar viagem até que o outro tenha passado” (De uma lei do Kansas).





segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Exercícios de coesão e coerência 3


1. As frases abaixo apresentam problemas de coesão textual. Identifique o problema e depois reescreva as frases, tornando-as coesas.

a) Mais de cinquenta mil pessoas compareceram ao estádio para apoiar o time onde seria disputada a partida final.

b) Não concordo em nenhuma hipótese com seus argumentos, pois eles vão ao encontro dos meus.

c) A casa, que ficava em uma região em que fazia bastante frio durante o inverno.

d) A plateia, conquanto reconhecesse o enorme talento do artista, ao final do espetáculo aplaudiu-o de pé por mais de cinco minutos.

e) Durante todo o interrogatório, em nenhum momento o acusado não negou que tivesse sido ele o autor do delito.


2. Nas questões abaixo, apresentamos alguns segmentos de discurso se­parados por ponto final. Retire o ponto final e estabeleça entre eles o tipo de relação que lhe parecer compatível, usando para isso os elementos de coe­são adequados.

a) O solo do Nordeste é multo seco e aparentemente árido. Quan­do caem as chuvas, imediatamente brota a vegetação.

b) Uma seca desoladora assolou a região sul, principal celeiro do país. Vai faltar alimento e os preços vão disparar.

c) Inverta a posição dos segmentos contidos na questão 2 e use o conetivo apropriado:                 Vai faltar alimento e os preços vão disparar. Uma seca deso­ladora assolou a região sul, principal celeiro do país.           

d) O trânsito em São Paulo ficou completamente paralisado dia 15, das 14 às 18 horas. Fortíssimas chuvas inundaram a cidade.

3. Os textos a seguir apresentam problemas de coesão por causa do mau uso do conectivo, isto é, da palavra que estabelece a conexão. A pala­vra ou expressão conectiva inadequada vem em destaque. Procure desco­brir a razão dessa impropriedade de uso e substituir a forma errada pela correta.

a) Em São Paulo já não chove há mais de dois meses. Apesar de que já se pense em racionamento de água e energia elétrica.

b) As pessoas caminham pelas ruas. Despreocupadas, como se não existisse perigo algum, mas o policial continua folgadamente tomando o seu café no bar.

c) Talvez seja adiado o jogo entre Botafogo e Flamengo, pois o estado do gramado do Maracanã não é dos piores.
d) Uma boa parte das crianças mora muito longe, vai à escola com fome, onde ocorre o grande número de desistências.

Exercícios de coesão

Complete as lacunas do texto a seguir, utilizando, em relação à palavra tartaruga, os mecanismos de coesão que julgar adequados
 
A morte da tartaruga

O menininho foi ao quintal e voltou chorando: a tartaruga tinha morrido. A mãe foi ao quintal com ele, mexeu _______________ com um pau (tinha nojo) e constatou que ________________ tinha morrido mesmo. Diante da confirmação da mãe, o garoto pôs-se a chorar ainda com mais força. A mãe a princípio ficou penalizada, mas logo começou a ficar aborrecida com o choro do menino. “Cui­dado, senão você acorda o seu pai”.  Mas o menino não se conformava. Pegou   ________________ no colo e pôs-se a acariciar-lhe o casco duro. A mãe disse que comprava __________________, mas ele respondeu que não queria, queria ____________________, viva! A mãe lhe prometeu um carrinho, um velocípede, lhe prometeu uma surra, mas o pobrezinho parecia estar mesmo profundamente abalado com a morte ___________________.

Afinal, com tanto choro, o pai acordou lá dentro, e veio, estremu­nhado, ver de que se tratava. O menino mostrou-lhe __________________. A mãe disse: "Está aí assim há meia hora, chorando que nem maluco. Não sei o que faço. Já lhe prometi tudo, mas ele continua berrando desse jeito." O pai examinou a situação e propôs: "Olha, Henriquinho. Se_________________ está morta não adianta mesmo você chorar. Deixa _________________ aí e vem cá com o pai". O garoto depôs cuidadosamente ___________________ junto do tanque e seguiu o pai, pela mão. O pai sentou-se na poltrona, botou o garoto no colo e disse: "Eu sei que você sente muito a morte _________________. Eu também gostava muito ________________ . Mas n6s vamos fazer pra _________________ um grande funeral." (Empregou de prop6sito a palavra difícil.) O menininho parou imediatamente de chorar. "Que é funeral?". O pai lhe explicou que era um enterro. "Olha, nós vamos à rua, compramos uma caixa bem bonita, bastantes balas, bombons, doces e voltamos pra casa. Depois botamos _______________ na caixa em cima da mesa da cozinha e rodeamos de velinhas de aniversário. convidamos os meninos da vizinhança, acendemos as velinhas, cantamos o 'Happy­-Birth-Day-To-You' pra ________________ e você assopra as velas. Depois pegamos a caixa, abrimos um buraco no fundo do quintal, enterramos ____________________ e botamos uma pedra em cima com o nome _______________e o dia em que ________________morreu. Isso é que é funeral! Vamos fazer isso?" O garotinho estava com outra cara. "Vamos, papai, vamos!              _________________vai ficar contente lá no céu, não vai? Olha, eu vou apanhar _________________. " Saiu correndo. Enquanto o pai se vestia, ouviu um grito no quintal. "Papai, papai, vem cá, ___________________está viva!" O pai correu pro quintal e constatou que era verdade. _________________ estava andando de novo, normalmente. "Que bom, hein?" - disse -" ________________ está viva! Não vamos ter que fazer o funeral!" "Vamos sim, papai" - disse o menino ansioso, pegando uma pedra bem grande - "Eu mato      ___________________ ."

Moral: O importante não é a morte, é o que ela nos tira.

(Fábulas fabulosas. Rio de Janeiro, Nórdica, 1979).

Exercícios de coesão e coerência 2

Leia e responda.

1-      Construa uma nova versão do texto abaixo, utilizando em relação à palavra Vera, os mecanismos de coesão que julgar adequados.

Desde cedo o rádio noticiava: um objeto voador não identificado estava provocando pânico entre os moradores de Valéria. A primeira reação de Vera foi sair da cama e correr para o porto. Fazia seis meses que Vera andava trabalhando em Parintins. Vera levantava cedo todos os dias e passava a manhã inteira conversando com o presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais. Vera estava em Parintins, tentando convencer os trabalhadores a mudar a técnica do plantio da várzea.

2-      Reescreva as orações usando elementos de coesão para elaborar um texto com elas:
a)      Os homens não ficam deslumbrados na frente de uma vitrine.
b)      Eles não compram por impulso. Não têm paciência para a burocracia do crediário.
c)      O público feminino sente uma atração irresistível pelas ofertas e liquidações do mercado consumidor.
d)     As propagandas normalmente são direcionadas às mulheres.
e)      As mulheres têm papel importante na decisão de compra de um homem.
f)       Eles dizem que as mulheres têm bom gosto, conhecem marcas e sabem se um produto é bom, caro ou barato.

3-      Quando o treinador Leão foi escolhido para dirigir a seleção brasileira de futebol, o jornal Correio Popular publicou um texto com muitas imprecisões, do qual conta a seguinte passagem:

“Durante a sua carreira de goleiro, iniciada no Comercial de Ribeirão Preto, sua terra natal, Leão, de 51 anos, sempre impôs seu estilo ao mesmo tempo arredio e disciplinado. Por outro lado, costumava ficar horas aprimorando seus defeitos após os treinos. Ao chegar à seleção brasileira em 1970, quando fez parte do grupo que conquistou o tricampeonato mundial, Leão não dava um passo em falso. Cada atitude e cada declaração eram pensados com um racionalismo típico de sua família, já que seus outros dois irmãos, Edmílson, 53 anos, e Édson, 58, são médicos.” (Correio Popular, Campinas, 20 out. 2000.)


a)      O que aconteceria com Leão se ele, efetivamente, ficasse “aprimorando seus defeitos”? Reescreva o trecho de maneira que seja eliminado o equívoco.


b)      A expressão “por outro lado”, no início do segundo período, contribui para tornar o trecho incoerente. Por quê?


4. Construa uma nova versão para o texto a seguir, utilizando, em relação à palavra baleia, os mecanismos de coesão que julgar adequados.

Todos os anos dezenas de baleias encalham nas praias do mundo e até há pouco ne­nhum oceanógrafo ou biólogo era capaz de explicar por que as baleias encalham. Segundo uma hipótese corrente, as baleias se suicidariam ao pressentir a morte, em razão de uma doença grave ou da própria idade, ou seja, as baleias praticariam uma espécie de eu­tanásia instintiva. Segundo outra, as baleias se desorientariam por influência de tempes­tades magnéticas ou de correntes marinhas.

5. Nestas questões ocorrem alguns fragmentos narrativos que apresentam algum tipo de incoerência. Tente identificar e explicar o tipo de incoerência que você vê.


1- Devo confessar que morria de Inveja de minha coleguinha por causa daquela boneca que o pai lhe trouxera da Suécia: ria, chorava, balbuciava palavras, tomava mamadeira e fazia xixi. Ela me alucinava. Sonhei com ela noites a fio. Queria dormir com ela uma noite que fosse.

Um dia, minha vizinha esqueceu-a em minha casa. Fui dor­mir e, no dia seguinte, quando acordei, lá estava a boneca no mes­mo lugar em que minha amiguinha havia deixado. Imaginando que ela estivesse preocupada, telefonei-lhe e ela mais do Que de­pressa veio buscá-la.

2- Conheci Sheng no primeiro colegial e aí começou um namo­ro apaixonado que dura até hoje e talvez para sempre. Mas não gosto da sua família: repressora, preconceituosa, preocupada em manter as milenares tradições chinesas. O pior é que sou brasileira, detesto comida chinesa e não sei comer com pauzinhos. Em ca­sa, só falam chinês e de chinês eu só sei o nome do Sheng.

No dia do seu aniversário, já fazia dois anos de namoro, ele ganhou coragem e me convidou para jantar em sua casa. Eu não podia recusar e fui. Fiquei conhecendo os velhos, conversei com eles, ouvi multas histórias da família e da China, comi tantas coi­sas diferentes que nem sei. Depois fomos ao cinema eu e o Sheng.

3- Era meia-noite. Oswaldo preparou o despertador para acor­dar às seis da manhã e encarar mais um dia de trabalho. Ouvin­do o rádio, deu conta de que fizera sozinho a quina da loto. Fora de si, acordou toda a família e bebeu durante a noite inteira. Às quinze para as seis, sem forças sequer para, erguer-se da cadeira, o filho mais velho teve de carregá-lo para a cama. Não tinha mais força nem para erguer o braço.

Quando o despertador tocou, Osvaldo, esquecido da loteria, pôs-se Imediatamente de pé e, ia preparar-se para ir trabalhar. Mas o filho, rindo, disse: pai, você não precisa trabalhar nunca mais na vida.

O quarto espelha as características de seu dono: um esportis­ta, que adorava a vida ao ar livre e não tinha o menor gosto pelas atividades Intelectuais: Por toda a parte, havia sinais disso: raque­tes de tênis, prancha de surf, equipamento de alpinismo, skate, um tabuleiro de xadrez com as peças arrumadas sobre uma mesi­nha, as obras completas de Shakespeare.

6. Os textos seguintes são trechos de redações de alunos citados por Maria Thereza Fraga Rocco em seu livro Crise na linguagem; a redação no vestibular. Neles há algum tipo de incoerência. Aponte-a e comente-o.
a) "Pelo tarde chegou uma carta a mim endereçada, abri-a correndo sem nem tomar fôlego. O envelope não tinha nada dentro, estava vazio. Dentro só tinha uma folha, em branco."
b) "Eu não ganhei nenhum presente, só ganhei uma folha em bronco, meu retra­to de pôster e um disco dos Beatles.”.
c) "Pela manhã recebi uma carta repleta de conselhos. Era uma carta em branco e não liguei para os conselhos já que conselhos não interessam para mim pois sei cuidar da minha vida."

Exercícios de coesão e coerência


O perigoso vírus



Não sei se é verdade, mas circula um boato nos meios da informática de que está sendo preparado um novo vírus de computador, feito especialmente para interferir nos programas que escrevem os discursos do presidente. A característica mais fantástica desse vírus é que sua influência, ao contrário dos outros, não aparece dentro da máquina, mas apenas na hora que ele é instalado no teleprompter, aparelho que permite às pessoas ler olhando diretamente para a televisão. É o que se usa normalmente nos telejornais, e teme-se que o vírus depois se propague, mas a intenção inicial é colocá-lo apenas para os discursos presidenciais. Não há dúvida de que esse vírus vai revolucionar e dinamizar todos os pronunciamentos feitos à nação.

Os testes realizados têm sido muito promissores mas ainda faltam alguns aperfeiçoamentos, pois, por mais que mexam na programação, o vírus ainda insiste em dar algum nexo a certos trechos do discurso. Os técnicos acham que esse pequeno problema poderá ser resolvido em pouco tempo, inclusive com o auxílio do próprio texto dos pronunciamentos. Já fico pensando nas maravilhas que poderiam acontecer. Oito horas da noite, todos sentados em frente à televisão, ansiosos pelas palavras do presidente, entra o emblema anunciando a cadeia nacional, contam-se os segundos regressivos e aparece a imagem simpática e descontraída do presidente Itamar. Olha direto para a câmara e começa:

“Senhoras e senhores, moços e moças. É fundamental, antes de mais nada, que neste pronunciamento eu informe à nação que o rato roeu a roupa do rei de Roma.
Mas só os pessimistas não percebem que isso nunca impedirá o nosso desenvolvimento porque, enquanto a aranha arranha a jarra, a jarra a aranha arranha.

É claro que ainda não dominamos a inflação, mas continua a nossa luta contra esse monstro, esse pato, que papou a pinta do Pluto, e o papa, num papo, passou um pito no Pepe, que pintava pipa no pé da papaia.

Aos detratores da nossa política econômica, respondo que o nosso desenvolvimento jamais se fará farinha farinhada, porque não esfarela farofa; de farofeiro fazendo farol, e às favas o povo.

Evidentemente que o Brasil é um país de características próprias, pois se aqui nevasse aqui se usava esqui, mas como aqui não neva aqui não se usa esqui.

Não posso deixar de dizer também que não sou daqueles que se intimidam na hora da batalha. Quanto maior o desafio, maior o meu empenho prenhe de pinho de pamonha do pampa.

Finalmente, para terminar, pois já está na hora da novela, afirmo que é claro que, quando aqui cheguei, constatei na hora que aqui há eco e que aqui o eco há. E aos céticos que me perguntarem: "O quê? Aqui há eco? Aqui há eco? Que eco é?" Eu respondo sem medo: "É o eco que há cá!'' (Veja. 2/2/94)


1) O texto presidencial se torna engraçado porque, ao término de cada parágrafo, ocorrem "quebras" que surpreendem o leitor. Que tipo de surpresa é essa?


2) Do ponto de vista da textualidade, as "quebras" que ocorrem no texto são de coesão ou de coerência? Justifique com base no texto.


3) Identifique, nos três primeiros parágrafos do texto, marcas de coesão textual que indiquem:
a) temporalidade:

b) causalidade:

c) simultaneidade:

d) oposição:


4) A textualidade só pode ser avaliada no contexto discursivo para o qual o texto foi produzido.


a) Considerando a situação em que o presidente fala à nação, o texto seria incoerente? Por quê?


b) Considerando que o discurso do presidente faz parte de uma crônica de um conceituado humorista, publicada numa revista de grande circulação nacional, o texto seria incoerente nesse outro contexto?


c) Qual seria, então, a função das "quebras" lógicas no texto?

Níveis de coerência


Em Platão e Fiorin, (1996, p. 397) encontramos diferentes níveis de coerência:

a) Coerência narrativa – quando as implicações lógicas entre as partes da narrativa são  respeitadas. Numa narrativa, as ações acontecem num tempo sucessivo, de forma que o  que é posterior depende do que é anterior.

b) Coerência argumentativa – diz respeito às relações de implicação ou de adequação que  se estabelecem entre pressupostos ou afirmações explícitas no texto e as conclusões  decorrentes destes.

Alguns raciocínios lógicos se prestam como exemplos de incoerência argumentativa, tais como: Toda cidade tem pobres. João Pessoa tem pobres. Logo, João Pessoa é uma cidade. Existe nesta afirmação uma inadequação, entre as “premissas” e a conclusão, pois pode haver pobres em lugares que não são cidades ou vice-versa.

c) Coerência figurativa – quando há uma compatibilidade entre temas e figuras ou de  figuras entre si. As figuras se encadeiam num percurso, para manifestar um determinado tema, por isso, têm que ser compatíveis umas com as outras, senão o leitor não percebe o tema que se deseja veicular.

d) Coerência espacial – diz respeito à compatibilidade entre os enunciados do ponto de  vista de localização no espaço.

e) Coerência temporal – é a que respeita as leis da sucessividade dos eventos ou apresenta uma compatibilidade entre os enunciados do texto, do ponto de vista da localização no tempo. As ações temporais devem ser sequenciadas numa temporalidade compatível, de modo que seja possível ao leitor acompanhar essa sequência temporal. Caso contrário, efetiva-se uma subversão na sucessividade dos eventos, ocasionando a incoerência. Não se deve dizer, por exemplo: “Acordei cedo, hoje, às dez horas. Fui ao trabalho, vesti a roupa, tomei banho e ui caminhar, depois do almoço...” Há uma incompatibilidade na sucessividade das ações, de forma que facilmente se percebe a incongruência dos atos.

f) Coerência no nível da linguagem – é a compatibilidade do ponto de vista da variante  linguística escolhida, em nível do léxico e da organização sintática utilizada no texto. Incoerente, pois, usar expressões chulas ou de linguagem informal num texto caracterizado pela norma culta formal. A não ser em textos, cujo gênero seja permitido tal uso.

Na linguagem oral, essa incompatibilidade é corrigida, muitas vezes, por meio de ressalvas do tipo: “com o perdão da palavra” ou “se me permitem...”

É importante esclarecer que a exploração da incoerência pode fazer parte de um programa intencionalmente arquitetado pelo produtor do texto. Por exemplo: Um publicitário poderá fazer uso propositadamente de uma incoerência, para obter efeitos diversificados de sentido no gênero textual propaganda.


Exercícios

Leia os textos a seguir e aponte em cada um:
1. O nível de incoerência. (Se é narrativa, figurativa ou argumentativa)

2. Aponte qual é a incoerência.

3. Reescreva o texto, deixando-o coerente.



Texto 1:
“Havia um menino muito magro que vendia amendoins numa esquina de uma das avenidas de São Paulo. Ele era tão fraquinho, que mal podia carregar a cesta em que estavam os pacotinhos de amendoim. Um dia, na esquina em que ficava, um motorista, que vinha em alta velocidade, perdeu a direção. O carro capotou de rodas para o ar. O menino não pensou duas vezes. Correu para o carro e tirou de lá o motorista, que era um homem corpulento. Carregou-o até a calçada, parou um carro e levou o homem para o hospital. Assim, salvou-lhe a vida”.

Texto 2:
“Sem entusiasmo, Júlio foi assistir à partida do Grêmio, pois já esperava ver um mau jogo. Decepcionado, com o péssimo futebol apresentado, seguiu para casa”

Texto 3:


“Lá dentro havia uma fumaça formada pela maconha e essa fumaça não deixava que nós víssemos qualquer pessoa, pois ela era muito densa.
Meu colega foi à cozinha me deixando sozinho, fiquei encostado na parede da sala e fiquei observando as pessoas que lá estavam. Na festa havia pessoas de todos os tipos: ruivas, brancas, pretas, amarelas, altas, baixas, etc.”
Texto 4:
“O quarto espelha as características de seu dono: um esportista, que adorava a vida ao ar livre e não tinha o menor gosto pelas atividades intelectuais. Por toda a parte, havia sinais disso: raquetes de tênis, prancha de surf, equipamento de alpinismo, skate, um tabuleiro de xadrez com as peças arrumadas sobre uma mesinha, as obras completas de Shakespeare”.

Texto 5:


Os números da educação do Censo 2000 são animadores. Os dados mostram que mais da metade (59,9%) da população brasileira com mais de dez anos não conseguiu concluir o ensino fundamental (antigo primeiro grau), pois tem menos de oito anos completos de estudo. (http://www.klickeducacao.com.br)
Texto 6:
“O verdadeiro amigo não comenta sobre o próprio sucesso quando o outro está deprimido. Para distraí-lo, conta-lhe sobre seu prestígio profissional, conquistas amorosas e capacidade de sair-se bem das situações. Isso, com certeza, vai melhorar o estado de espírito do infeliz.” < http://www.portrasdasletras.com.br >
Texto 7:

O sonho de João era conhecer o Polo Norte. Um dia ele teve o privilégio de conhecê-lo. Ficou assustado como as pessoas lá se comportam devido ao clima: as casas não têm cobertura nem portas, além disso, elas dormem no chão porque lá ninguém agüenta o calor. E o pior, ninguém consegue andar sem tapar as narinas com um pano ou uma máscara, pois as estradas são muito poeirentas.