domingo, 9 de outubro de 2011

Roupa nova ao velho idioma - Frei Betto



Vejam só: eu, a língua portuguesa, falada por pelo menos 230 milhões de pessoas de oito países que oficialmente me adotam, estou de roupa nova. Sempre foi assim, de tempos em tempos decidem auto-regular o modo como sou escrita, ou melhor, autorregular. Agora é assim, sabia?
Bom exemplo é o pronome você. Nasceu ‘vossa mercê’, virou ‘vossemecê’, derivou para ‘vosmecê’, reduziu-se a ‘você’, é falado ‘ocê’ ou ‘cê’ (cê vai lá?). Não duvido nada, daqui a pouco só se pronuncia o acento circunflexo...
Oficialmente meu alfabeto passa a ter 26 letras, com a inclusão de k, y e w. Ora, na prática isso já ocorria: km, yang e yin, show etc. Meio kafkiano, não?
Cai a coroa de certas palavras, o velho trema, tão frequente (agora sem trema) na tranquila (idem) sequência (idem) de vocábulos como linguiça. Qüinqüênio, duplamente coroado, agora é quinquênio. Também perco o acento no casal de vogais, conhecido por ditongo, em palavras paroxítonas, como alcateia, androide, boia, colmeia, celuloide.
Confesso que me sinto meio nua... Será paranoia? Ao menos me sobraram os acentos das oxítonas como papéis, heróis e troféu. E o Piauí ficou a salvo, como em toda oxítona terminada por i e u ou seguida de s.
Língua é também uma questão de elegância. Imaginem uma mulher descabelada numa festa em que todas as outras estão bem penteadas! É como me sinto nos vocábulos terminados em eem e oo. Adeus o chapeuzinho em creem, magoo, perdoo, veem (do verbo ver), voo, zoo. Será que abençoo tais mudanças?, pergunta o autor deste texto. Ou ele encara isso com certo enjoo?
Será que os leitores, sem o circunflexo (que belo vocábulo!), distinguirão facilmente o casamento da preposição com o artigo no vocábulo pelo do substantivo pêlo, que agora é pelo, assim pelado? Perdem o acento: pêra e pára. Num texto na nova ortografia, agora vamos ler que a moça gritou no carro para o namorado: “Para! Desço na esquina, seu hálito, de quem comeu pera podre, me dá enjoo”. “Pode descer”, dirá ele. Ela retrucará: “Como você pôde sair de casa sem escovar os dentes?”
Outra exceção é a preposição por e o verbo pôr. Por que será? Mas ao menos uma liberdade resta a quem redige: você pode ou não enchapelar forma quando se referir à vasilha de fazer bolos e escrever: “Qual a forma da fôrma do bolo?” Estará também certíssimo se redigir: “Qual a forma da forma do bolo?”
O hífen, coitado, foi o que mais sofreu nessa reforma ortográfica. Salvou-se frente ao h: super-homem, sobre-humano. Mas dançou quando o prefixo termina diferente do segundo elemento: aeroespacial, antiaéreo, extraescolar. Sobrou o vice: vice-presidente.
Sai de cena o hífen se o prefixo termina em vogal e o resto se inicia com r ou s. Neste caso, duplicam-se tais letras: antissocial, ultrassom, biorritmo. Estranho, né?
Há certas palavras com as quais é preciso cuidado, devido à sua carga ideológica. O hífen permanece para o i não beijar o seu clone: anti-imperialista, anti-inflacionário. Também quando o r ameaça arranhar o seu duplo: inter-racial, super-romântico. Superinteressante, não?
Se o prefixo sub topar com o r, que mantenha distância: sub-região, sub-raça. Pan-americano fica assim mesmo. Quando o prefixo terminar por consoante e o segundo elemento começar por vogal, una tudo: hiperativo, hiperacidez, interestadual.
Porém, mantenha distância se o prefixo for ex, sem, além, pós, pré: além-túmulo, ex-diretor, pós-graduação, pré-vestibular, recém-casado. E sem-terra (mas com muita garra na luta por reforma agrária).
E algo fantástico: o hífen é preservado se o sufixo tiver origem tupi-guarani (olha ele aí): capim-açu, amoré-guaçu. Supõe, evidentemente, que você saiba identificar o vocábulo como derivado do tupi-guarani.
Sei que não sou um idioma fácil. Além da correta ortografia, exijo perfeita sintaxe. E vivo provocando pegadinhas: aluvião, apesar do tom, é substantivo feminino. E imagina um estrangeiro me aprendendo: “Pedro bota e calça e, em seguida, calça a bota”. E manga? De camisa, a fruta, parte do eixo do carro e mais oito significados pelo menos. Banco então nem se fala: de praça, de guardar dinheiro, de areia, de sangue, e do presente do indicativo do verbo bancar.
Para fazer bom uso de mim só há uma receita: leia, leia muito, bons autores. E quanto à minha roupa nova, fique tranqüilo, pois este trema e todas as demais mudanças ortográficas têm (o circunflexo do plural dos verbos ter e vir foram salvos pelo gongo) prazo até 2012 para serem implementadas.

Frei Betto é escritor, autor de “Alfabetto – Autobiografia Escolar” (Ática), entre outros livros.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Machado de Assis e Caixa Econômica - 150 anos



A Caixa Econômica Federal informa que suspendeu a veiculação de sua última peça publicitária, a qual teve como personagem o escritor Machado de Assis. O banco pede desculpas a toda a população e, em especial, aos movimentos ligados às causas raciais, por não ter caracterizado o escritor, que era afro-brasileiro, com a sua origem racial.

Por que estudar Literatura? Quem produziu  e aprovou a peça publicitária não conhecia a origem afro-descendente do autor?

Vale a pena assistir aos outros vídeos da Caixa 150 anos.

Após as críticas, sai o novo comercial da Caixa 


segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Desarmamento no Brasil

  Texto 1
06/05/2011 - 07h27
DA BBC BRASIL  

Nova campanha de desarmamento promete indenização ágil e anonimato

O Ministério da Justiça lança a nova Campanha Nacional de Desarmamento nesta sexta-feira, com a promessa de inutilizar as armas no ato da entrega, acelerar a indenização e assegurar anonimato aos voluntários.
O início da campanha foi antecipado em um mês em reação à tragédia de Realengo, onde um atirador matou 12 crianças nas salas de aula de uma escola municipal, há um mês. O atirador usou armas obtidas no mercado ilegal, e o crime reacendeu o debate sobre o desarmamento e o controle ao tráfico de armas no país.
Segundo o grupo Viva Rio, cerca de 35 parentes das vítimas são esperados no lançamento, às 10h, no Palácio da Cidade, para marcar sua adesão à campanha. A solenidade contará com a presença do ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, e do governador e prefeito do Rio. A campanha envolve as instâncias federal, estadual e municipal.
"Nesta campanha, as principais novidades são que o cidadão não precisa dar nenhuma informação a seu respeito, e a arma receberá marretadas na sua frente", diz Shelley de Botton, coordenadora de comunicação do Viva Rio, uma das ONGs engajadas na campanha.
A legislação brasileira determina que apenas o Exército pode destruir armas, por isso o recurso ao "sistema da marretada" nos postos de recolhimento (polícias, delegacias, igrejas e sedes de ONGs), para inutilizá-las e dissipar dúvidas de que possam ser desviadas.
A indenização não será mais depositada na conta dos voluntários, como da última vez. "Elas receberão um voucher do Banco do Brasil e poderão retirar o dinheiro no terminal de saque de qualquer agência no país", diz Melina Risso, diretora do Instituto Sou da Paz.
O novo procedimento é uma reação a problemas ocorridos na última campanha. A indenização varia de R$ 100 a R$ 300, de acordo com o modelo da arma, e não se estenderá à entrega de munição, como chegou a ser aventado.

MENOS ARMAS, MENOS CRIME

O objetivo da campanha é tirar armas de circulação e reduzir a taxa de homicídios no país. "Já temos vários estudos sérios mostrando que a redução do número de armas em circulação tem efeito positivo sobre a redução de homicídios", diz Risso.
A atual campanha é a terceira realizada pelo Ministério da Justiça. Nas duas anteriores (em 2003/2004 e 2008/2009) foram entregues, respectivamente, 460 mil e 40 mil armas. No período, de acordo com o Ministério da Saúde, o número de homicídios por armas de fogo caiu 11% no país.
O Viva Rio estima que haja cerca de 16 milhões de armas no país, das quais pouco menos da metade (7,6 milhões) pertenceriam às forças de segurança do governo, e quase metade estaria em situação ilegal.
"Acreditamos que quanto menos armas estiverem circulando nas ruas e nas mãos de civis, menos mortes teremos", afirma Botton, que começou a trabalhar no Viva Rio em 2003 e entregou, na primeira campanha, uma arma que seu marido havia recebido da família.
"A sensação foi a de estar me livrando de uma coisa que só faz o mal, porque a arma só tem uma função, que é matar", afirma. "Algumas pessoas acreditam que uma arma pode trazer mais segurança, mas procuramos mostrar que geralmente é o contrário."

"IMPACTO NULO"

Presidente da ONG Movimento Viva Brasil, Bene Barbosa diz que a campanha "foi organizada às pressas para dar uma resposta à sociedade após Realengo" e que sua antecipação foi "oportunista". Ele afirma que promover o desarmamento da população civil é uma maneira ineficiente de combater a criminalidade.
"Quem entrega as armas são aposentados, viúvas, gente que tem uma arma velha em casa e não sabe o que fazer com ela", afirma. "Não são as armas que circulam entre os criminosos, as que são vendidas ilegalmente. O impacto sobre a criminalidade vai ser nulo."
Barbosa diz que o governo não vai conseguir cumprir a garantia de anonimato a quem entregar as armas. Para transportá-las aos postos de recolhimento sem que se enquadrem no porte ilegal, as pessoas precisam preencher uma GT (Guia de Trânsito) na Polícia Federal, que pede seus dados pessoais.
Risso diz que, na campanha, as GTs dispensarão a identidade das pessoas. Porém, no site da Polícia Federal, os primeiros campos a serem preenchidos no formulário disponível de GT pedem para informar nome, RG e CPF do portador.
João Trajano Sento Sé, professor do departamento de Ciências Sociais da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), diz que países como Austrália e Inglaterra tiveram exemplos bem-sucedidos de redução de número de homicídios associado a campanhas de desarmamento.
No Brasil, entretanto, ele aponta que o referendo de 2005 --quando a população civil optou pelo direito de poder adquirir armas --ainda conspira contra a capacidade de mobilização.
"Acho que campanha não emplaca, porque a mobilização do plebiscito é muito recente", afirma. Por outro lado, ele cobra as políticas de estado na área de segurança prometidas em época de campanha pela presidente Dilma Rousseff, ainda não levadas adiante.


Texto 2

A revista Veja, na edição nº 1.925, de 5 de outubro de 2005, num arroubo de partidarismo jamais visto, publicou sete razões para o voto "não". Ficando nos fatídicos sete motivos e buscando suprir a omissão de regra básica do jornalismo, consideremos "o outro lado".

1) Os países que proibiram a venda de armas tiveram aumento da criminalidade e da crueldade dos bandidos – De fato a proibição ou a liberação de armas não tem relação direta com a violência, estando esta mais afeta à cultura do povo. O Japão não tem armas e a criminalidade violenta é baixa; a Suíça tem muitas armas (do Exército, entregue aos reservistas) e a violência é igualmente baixa, mas a taxa de suicídios e de violência doméstica contra as mulheres é das maiores da Europa [3]. Sendo a nossa uma sociedade violenta, a cultura da arma só recrudesce a violência. A crueldade do bandido é proporcional à reação da vítima e não o contrário. O propósito da proibição do comércio tem várias vertentes: a) impedir o crescimento descontrolado do arsenal na mão do povo, que alimenta o dos bandidos; b) induzir a uma cultura de resolução pacífica dos conflitos, princípio constitucional de direito internacional (art. 4º, inciso VII) [4] que pode ser aplicado no país, como corolário da existência do ordenamento jurídico, garantia contra a opressão e os regimes de exceção; c) diminuir os crimes de oportunidade, entre pessoas honestas, por motivos banais, assim como os suicídios e acidentes, que matam ou invalidam milhares de pessoas por mês.

2) As pessoas temem as armas. A vitória do "sim" no referendo não vai tirá-las de circulação no Brasil – Presume-se que a vitória do "não" acarretará uma corrida armamentista de difícil controle, ao contrário da vitória do "sim", quando a aplicação da atual lei continuará, prosseguindo-se na política de entrega voluntária de armas registradas, ao lado da repressão às clandestinas. Há várias exceções na lei, permitindo o privilégio (e não direito) da posse e do porte. Não há necessidade de alargá-las. A venda apenas aos órgãos de segurança e demais entidades relacionados no art. 6º da lei permite maior controle. A opção legítima para quem faz questão do apêndice letal é a associação aos clubes de tiro. O falacioso argumento de que deviam ser proibidos os veículos porque matam ou de bisturis, porque poderiam ser instrumento de erro médico, é exemplo da manipulação, pois ambas as pseudojustificativas pressupõem a legitimidade do erro.

3) O desarmamento da população é historicamente um dos pilares do totalitarismo. Hitler, Stalin, Mussolini, Fidel Castro e Mao Tsé-Tung estão entre os que proibiram o povo de possuir armas – Sim, e proibiram muitas outras coisas, como liberdades democráticas, participação política (inclusive votar em referendos) e direitos iguais de oportunidades. Esta visão tenta vincular o referendo ao governo atual, às voltas com a corrupção. No entanto, a Lei nº 10.826/2003 (Estatuto do Desarmamento) é oriunda das casas do povo, em regular processo legislativo. Foi proposta pelo Senador Gerson Camata (PMDB/ES), por meio do Projeto de Lei nº 292/1999 (antes do atual governo, portanto), sendo relatado pelos senadores Renan Calheiros (PMDB/AL) e Pedro Piva (PSDB/SP), todos de partidos de centro-direita. Na Câmara, onde tramitou como PL nº 1.555/2003, foi relatado pelos deputados Laura Carneiro (PFL/RJ) e Luiz Eduardo Greenhalgh (PT/SP). Em ambas as casas, o projeto foi intensamente debatido em audiências públicas e, desde o início, com a presença constante da Taurus e da CBC (empresa sob controle estrangeiro, com recursos nossos, do BNDES [5]). O próprio referendo, aliás, é um instituto democrático de aplicação muito bem-vinda, que não seria aceito, muito menos imposto, por um governo autoritário. Além disso, o temor das Forças Armadas acerca da esquerda é algo anacrônico, visto que os guerrilheiros de ontem estão hoje no poder e não há nenhum movimento de tanques nas ruas. Esse sentimento dos militares, que têm direito ao porte, capitaneado por entidades de extrema-direita que ainda crêem no canibalismo infantil dos comunistas, contaminou as polícias militares e civis, a ponto de hoje as entidades de classe silenciarem a respeito, quando antes (governo FHC) faziam campanha a favor do desarmamento, de cujo exemplo é o Sindicato dos Policiais Civis do Distrito Federal (Sinpol). Noutra óptica, se algum chefete se meter a ditador, nada poderiam fazer os revólveres e pistolas da população contra as armas de grosso calibre das forças legais (?), que eventualmente dariam suporte à ânsia totalitária. Considerar a vinda de milícias e mercenários estrangeiros seria muita licença à ficção! A revolução de 1964 foi feita sem que o povo pegasse em armas. É um exercício criativo, portanto, imaginar que na era da internet, precisaríamos de armas de mão para derrubar um governo indesejável, assim como a esquerda apeou Collor do poder sem elas. Gandhi derrotou o Império Britânico usando um cajado... para se apoiar! Por fim, soa como ignorância a afirmação de que o Poder Executivo está impondo o desarmamento, quando há frentes parlamentares (Legislativo) envolvidas no desiderato, recomendado a todas as nações pela ONU.

4) A polícia brasileira é incapaz de garantir a segurança dos cidadãos – Segurança é um conceito abrangente. Não se pode exigir que haja uma dupla de policiais à frente de cada casa provendo proteção. É verdade que a polícia faz uma espécie de mea culpa ao apoiar o armamento da população, como se dissesse: sou incompetente para lhe dar segurança, portanto, arme-se. Ocorre que o cidadão não poderia possuir arma de uso restrito das Forças Armadas, de algumas polícias (finalmente) e, ilegalmente, dos bandidos. O que faria um experiente e sensato cidadão armado de pistola contra um fuzil automático do assaltante? Não se pode, a pretexto de cumprir o vaticínio constitucional de que a segurança pública, dever do Estado, é "direito e responsabilidade de todos" (art. 144) [6], transferir dos órgãos de segurança pública uma atribuição sua aos cidadãos. Ao defender esta idéia a frente do "não" salienta que os cidadãos ficarão desprotegidos, pois não terão o socorro do vizinho armado, o que só se pode esperar dos garantes (policiais) e dos militares, pelo instinto de defesa do cidadão que possuem. Não é a posse da arma, mas a adoção de atitudes defensivas que nos livrarão do bandido. É o mesmo que não usar cinto de segurança e culpar o trânsito pela morte violenta.

5) A proibição vai alimentar o já fulgurante comércio ilegal de armas – A hipótese de não proibição de qualquer artigo pela possibilidade de aumento do contrabando leva ao absurdo de nada se poder proibir, que é muito romântico, mas inaplicável. Para efeito de comparação, equivocam-se os que supõem diminuição das drogas diante de uma eventual liberação. Esta traria um aumento substancial no consumo, com as desgraças óbvias daí decorrentes. Os custos de processos judiciais, de confrontos com a polícia e com os próprios concorrentes levam à atividade ilegal extremo risco, só enfrentado por pessoas destituídas de qualquer traço de moralidade ou respeito pela própria vida. O rebatido exemplo de Al Capone durante a lei seca americana só confirma a regra: o risco do contrabando, com as penas atuais, só atrai quem já está no crime.

6) Obviamente, os criminosos não vão obedecer à proibição do comércio de armas – A disseminada pérola de que os bandidos não compram armas em lojas se esquece de esclarecer que eles as tomam dos cidadãos "de bem" e que todas as armas clandestinas foram um dia legais, pois "bandido não compra arma em loja". Havendo proibição ou não, eles não obedecem mesmo à lei, quando ela diz "não matarás", "não roubarás". É doloroso, contudo, constatar que grande parte do tráfico de armas é feito pelos próprios policiais civis e militares, sem contar que a profusão de armas possibilita aos policiais corruptos (ou heróis?) a manutenção em seu poder da "vela", apelido da arma clandestina que, colocada na mão do bandido (ou suspeito) morto, justificaria o revide "em legítima defesa".

7) O referendo desvia a atenção daquilo que deve realmente ser feito: a limpeza e o aparelhamento da polícia, da Justiça e das penitenciárias – Não só isso contribui para a melhoria da segurança pública. A própria educação básica universal de qualidade, as reformas política e tributária, o desenvolvimento socioeconômico e conseqüente redistribuição de renda são essenciais. Entretanto, o progresso da humanidade segue um processo civilizatório a que não se pode fugir, ainda que em certas épocas seja mais lento. Lembre-se do milênio sombrio, a Idade Média, quando todo tipo de pena era infligida a suspeitos e até inocentes e certas pessoas eram tidas como objetos (os escravos e as mulheres), práticas sepultadas pelo Renascimento, com idéias e não com armas. Como se fossem raças inferiores os índios foram dizimados, os negros escravizados e os judeus perseguidos. Na atualidade, as minorias étnicas, sexuais e políticas, os negros, os pobres e ainda as mulheres são vítimas de preconceito, violência e exclusão.

O desenvolvimento de uma sociedade se faz pela soma dos esforços das pequenas mudanças. Ocorrem, mas os conservadores sempre foram refratários a elas, preferindo reduzir tudo à dicotomia maniqueísta do bem e do mal, forma simplista, egoísta e não solidária que gera a iniqüidade. A título de preservar privilégios foram contra a abolição, o recenseamento, a instituição do sistema métrico decimal, a vacinação e o serviço militar obrigatórios, tendo os próprios militares e policiais lutado por esses benefícios ao lado do povo, em várias dessas ocasiões mediante o derramamento de sangue.

A par do desarmamento, o passo urgente e imediato é investir maciçamente nas polícias, com armamento e equipamento de última geração, tecnologia de ponta, salário decente e exigência de postura ética inquebrantável.

Voltando à frase inicial, o direito à legítima defesa, corolário do direito à propriedade, transubstanciado no direito sagrado de portar arma pressuporia, também, o direito de portar droga, que pode ser considerada propriedade pelo usuário. A idéia de que se estará abrindo mão desse direito por toda a eternidade é um acinte. As leis são eternas enquanto durem. Entretanto, a oportunidade de se verificar a viabilidade da proposta poderá ser perdida, caso vença o "não". Vencendo o "sim", se se confirmar que o medo tinha razão de ser, pode-se alterar a lei, sem nenhuma revolução.

Com todo seu custo, porém, independentemente do resultado, o inédito referendo é uma forma de participação popular que precisa ser mais freqüentemente exercida. Ao final uma certeza ficará: a melhor munição são as idéias e a única arma de que não podemos abrir mão é o voto.



Produção textual

1. Depois de assistir ao filme e ler os artigos, faça o que se pede abaixo:

O Senhor das Armas

“O foco do filme na história de Yuri Orlov não nos permite, muitas vezes, perceber que nas linhas finais de “O Senhor das Armas” encontram-se os maiores vilões do comércio mundial de armas, os governos e empresas dos países mais ricos do planeta, que agindo de forma legalizada, distribuem porcentagens de armas muito maiores do que qualquer contrabandista individual. Se não bastasse isso, a corrupção, o descaso das autoridades e as arbitrariedades de muitos líderes em países mais pobres colocam a violência como moeda de troca em regimes autoritários, repressivos e totalmente corrompidos moralmente. Não há apenas uma bandeira a se levantar nessa luta contra as armas de fogo, ou melhor, não temos que nos mobilizar contrariamente ao contrabando, mas também às mortes promovidas pelo comércio legal desses armamentos e munições. 
(João Luís de Almeida Machado Doutor em Educação pela PUC-SP)

1. O filme começa com Yuri Orlov declarando, "Há mais de 550 milhões de armas de fogo em circulação no mundo. É uma arma para cada doze pessoas no planeta. A única questão é: Como armamos as outras onze?" Como desarmar o Brasil?

Produza um artigo de opinião, utilizando citações dos artigos ou do filme para justificar a sua resposta. (texto de 30 linhas, argumentativo/dissertativo, pode ser produzido em 1ª pessoa ou 3ª pessoa do singular) 

2. Analise o comercial a seguir, censurado por ser violento.



Barroco - poesias satíricas

Leia e responda ao que se pede:

I- Poema Barroco: Gregório de Matos – séc XVII

Triste Bahia! Ó quão dessemelhante
Estás e estou do nosso antigo estado!
Pobre te vejo a ti, tu a mi empenhado,
Rica te vi eu já, tu a mi abundante.

A ti trocou-te a máquina mercante,
Que em tua larga barra tem entrado,
A mim foi-me trocando e tem trocado
Tanto negócio e tanto negociante.

Deste em dar tanto açúcar excelente
Pelas drogas inúteis, que abelhuda
Simples aceitas do sagaz Brichote.

Oh quisera Deus que de repente
Um dia amanheceras tão sisuda
Que fora de algodão o teu capote!
***
II- Canção: Caetano Veloso – década de 70

Triste Bahia, oh, quão dessemelhante estás
E estou do nosso antigo estado
Pobre te vejo a ti, tu a mim empenhado
Rico te vejo eu, já tu a mim abundante
Triste Bahia, oh, quão dessemelhante

A ti tocou-te a máquina mercante
Quem tua larga barra tem entrado
A mim vem me trocando e tem trocado
Tanto negócio e tanto negociante

Triste, oh, quão dessemelhante, triste…
Pastinha já foi à África
Pastinha já foi à África
Pra mostrar capoeira do Brasil
Eu já vivo tão cansado
De viver aqui na Terra

Minha mãe, eu vou pra lua
Eu mais a minha mulher
Vamos fazer um ranchinho
Todo feito de sapê, minha mãe eu vou pra lua
E seja o que Deus quiser

Passos:
1- Leitura dos dois poemas acima.
2- Discutir sobre o tema provocado pela letra  da música: “Os elementos citados, como Bahia, pobreza, máquina mercante, entre outros, se associam ao quadro político-econômico do país na época: valeria a pena, em nome do desenvolvimento econômico do país, abrir as portas ao capital estrangeiro e suprimir a liberdade de expressão? Comentar sobre esta “pobreza” política e espiritual de um país que já tinha sido livre e alegre no passado.
3- Em seguida, observar os aspectos formais do poema (letra da música): a disposição dos versos, a seleção do vocabulário. Comparamos a linguagem barroca com a modernista.
4- Os alunos são desafiados a criar um poema, tomando os dois versos iniciais de Gregório de Matos, como o fez Caetano, e dessem continuidade ao poema, falando de sua cidade ou de seu país hoje.
 
 
Nota: não sei qual é a fonte.

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Barroco - sermões do pe. Antônio Vieira

Leia um fragmento do Sermão do Mandato, do orador barroco Antônio Vieira (1608-1697)

Sermão do Mandato

Começando pelo amor. O amor essencialmente é união, e naturalmente a busca: para ali pesa, para ali caminha, e só ali pára. Tudo são palavras de Platão, e de Santo Agostinho. Pois se a natureza do amor é unir, como pode ser efeito do amor o apartar? Assim é, quando o amor não é extremado e excessivo. As causas excessivamente intensas produzem efeitos contrários. A dor faz gritar; mas se é excessiva, faz emudecer: a luz faz ver; mas se é excessiva, cega: a alegria alenta e vivifica; mas se é excessiva, mata. Assim o amor: naturalmente une; mas se é excessivo, divide: Fortis est ut mors dilectio: o amor, diz Salomão, é como a morte. Como a morte, rei sábio? Como a vida, dissera eu. O amor é união de almas; a morte é separação da alma: pois se o efeito do amor é unir, e o efeito da morte é separar, como pode ser o amor semelhante à morte? O mesmo Salomão se explicou. Não fala Salomão de qualquer amor, senão do amor forte? Fortis est ut mors dilectio: e o amor forte, o amor intenso, o amor excessivo, produz efeitos contrários. É união, e produz apartamentos. Sabe-se o amor atar, e sabe-se desatar como Sansão: afetuoso, deixa-se atar; forte, rompe as ataduras. O amor sempre é amoroso; mas umas vezes é amoroso e unitivo, outras vezes amoroso e forte. Enquanto amoroso e unitivo, ajunta os extremos mais distantes: enquanto amoroso e forte, divide os extremos mais unidos.

Responda:
1. O trecho transcrito do sermão de Vieira apresenta traços peculiares do barroco. Verifique, numa leitura atenta, esses traços e, a seguir,
a) mencione e explique uma característica do estilo barroco que Vieira explora com insistência no seguinte trecho: "O amor é união de almas; a morte é separação da alma: pois se o efeito do amor é unir, e o efeito da morte é separar, como pode ser o amor semelhante à morte?";


2. Vieira, em seu sermão, afirma que uma mesma causa pode produzir efeitos contrários, conforme a presença ou não de determinado fator. O fator que, segundo Vieira, é responsável por fazer com que uma mesma causa produza efeitos contrários é:
( A ) o amor
( B ) a morte
( C ) o excesso
( D ) a união

3. Indique o fenômeno físico que Vieira apresenta como uma das provas do que afirma.

4. Um papa do século XVII, Clemente X, disse a respeito de Vieira: "Devemos dar muitas graças a Deus por fazer este homem católico, porque se o não fosse poderia dar muito cuidado à Igreja de Deus". Comente.

5. Por que ler o sermões do Pe. Antônio Vieira, escritos e pregados a cerca de 350 anos?

6. Assista a um dos sermões proferido no filme "Dúvida" e responda qual é a intenção do sermão?

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Uso dos pronomes

Inimigos
Luís Fernando Veríssimo

O apelido de Maria Teresa, para o Norberto, era “Quequinha”. Depois do casamento sempre que queria contar para os outros uma de sua mulher, o Norberto pegava sua mão carinhosamente, e começava:
- Pois a Quequinha...
E a Quequinha, dengosa, protestava.
- Ora, Beto!
Com o passar do tempo, o Norberto deixou de chamar a Maria Teresa de Quequinha. Se ela estivesse ao seu lado e ele quisesse se referir a ela, dizia:
- A mulher aqui...
Ou, às vezes:
- Esta mulherzinha...
Mas nunca mais Quequinha.
(O tempo, o tempo. O amor tem mil inimigos, mas o pior deles é o tempo. O tempo ataca em silêncio. O tempo usa armas químicas.)
Com o tempo, Norberto passou a tratar a mulher por “Ela”.
- Ela odeia o Charles Bronson.
- Ah, não gosto mesmo.
Deve-se dizer que o Norberto, a esta altura, embora a chamasse de Ela, ainda usava um vago gesto da mão para indicá-la. Pior foi quando passou a dizer “essa aí” e a apontar com o queixo.
- Essa aí...
E apontava com o queixo, até curvando a boca com um certo desdém.
(O tempo, o tempo. O tempo captura o amor e não o mata na hora. Vai tirando uma asa, depois a outra...)
Hoje, quando quer contar alguma coisa da mulher, o Norberto nem olha na sua direção. Faz um meneio de lado com a cabeça e diz:
- Aquilo...


Reflita:

De que maneira o uso dos pronomes contribui para a contrução do efeito de humor que se pode observar nesse texto, "inimigos"

domingo, 14 de agosto de 2011

Romantismo - A vingança feminina

1. Assista a cena de "Insensato Coração"
CAP.141-NORMA E LEO REENCONTRO 29/06/2011 PART-03



2. Assista trechos da novela "Essas Mulheres", baseada no romance "Senhora" de José de Alencar

- Noite de Núpcias 02


- Noite de Núpcias 03


- Noite de Núpcias 04



Reflexão

Analisando as cenas das novelas, comente sobre a atitude das personagens femininas (Norma e Aurélia). O que você faria numa situação como essa? Se vingaria também?

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Brasil 500 anos


Comercial dos Correios com texto da Carta de Pero Vaz de Caminha.

Anunciante: Correios
Título: Transformação
Agência: Ogilvy
Direção de Criação: Camila Franco

Releituras

1. Uma proposta interessante é pedir aos alunos releituras da Carta de Caminha, seguindo a proposta dos poetas Modernistas - com olhar crítico do processo de colonização:


Tupi or not tupi - This is the question
Oswald de Andrade

Brasil


O Zé Pereira chegou de caravela
E preguntou pro guarani da mata virgem
— Sois cristão?
— Não. Sou bravo, sou forte, sou filho da Morte
Teterê Tetê Quizá Quizá Quecê!
Lá longe a onça resmungava Uu! ua! uu!
O negro zonzo saído da fornalha
Tomou a palavra e respondeu
— Sim pela graça de Deus
Canhém Babá Canhém Babá Cum Cum!
E fizeram o Carnaval


Erro de português

Quando o português chegou
Debaixo duma bruta chuva
Vestiu o índio
Que pena!

Fosse uma manhã de sol
O índio tinha despido
O português


2.  Ou ainda releitura da carta como os modelos de Luís Fernando Veríssimo e outros que circulam pela internet. Quem sabe enviar um e-mail ao rei ou tuitar contando as novas sobre o Achamento da Nova Terra?

A derradeira carta do escrivão do Rei


            Pero Vaz de Caminha, o primeiro repórter no Brasil, não teve tempo de escrever tudo o que gostaria. Então, alguém tomou seu lugar
Imaginem uma segunda carta de Pero Vaz de Caminha ao rei dom Manuel. Ela teria sido escrita em Calicute, na costa ocidental da Índia, onde a frota de Cabral ancorou em 13 de setembro de 1500, depois do "achamento" do que ainda pensavam ser uma ilha, que chamaram de Vera Cruz. Às vésperas de morrer nas mãos dos indianos, junto com outros portugueses, Caminha fica sabendo que sua primeira carta, com o pedido para que o genro fosse trazido de volta do desterro, nem chegou às mãos do rei. Segue-se um trecho da missiva desconhecida até hoje:

Dos infortúnios da nossa viagem da terra nova, de onde saíram 11 naus, a Calicute, onde chegaram cinco, sabe ou ainda não sabe Vossa Alteza, mas não serei eu a atormentá-Lo como os ventos do Cabo Tenebroso nos atormentaram, pois muitas vezes mais cruel é o contar do que o acontecido. Saiba apenas que se muitos mareantes afundaram, afundaram com Vossa Alteza no pensamento, e que os peixes se banquetearam de boa fibra portuguesa. Bartolomeu Dias, sabe ou ainda não sabe Vossa Alteza, deu segundo turno à Natureza que um dia humilhou, e desta vez perdeu. Naufragou ao Cabo que deu nome, o da Boa Esperança. Seu nobre coração repousa entre os corais do fundo, e não brilha menos.
Viajávamos ainda ao longo da terra nova, antes das tormentas, quando uma noite encontrei o Capitão-mor, sozinho, barba ao vento, na amurada. Olhava para a silhueta negra da costa e sua própria silhueta era outro silêncio negro, até falar. "É grande a ilha, Caminha", disse-me ele, embora não tivesse dado sinal de me distinguir do breu. E eu disse: "É gigantesca a ilha, Capitão", e ele grunhiu um assentimento. Viajávamos já léguas para o sul sob as estrelas cruzadas e ainda não tínhamos encontrado o fim do gigante. "Ou não é ilha", disse o Capitão, e eu grunhi nem sim nem não.
O Capitão bateu com os dois punhos no peito e disse que sentia um continente por trás da silhueta negra que olhávamos. Sentia outro mundo, e sentia-o no peito. Disse: "Talvez mundo demais", e meu grunhido foi ainda mais precavido. E disse o Capitão: "Penso comigo que despertamos alguma coisa. Penso comigo, Caminha, que mexemos em alguma coisa demais". Grunhi de novo. E perguntei: "Quanto mais mundo haverá neste Ocidente?" E disse o Capitão que, quanto mais mundo houvesse, não faltariam portugueses para lhe dar nome. E passamos o resto do encontro em louvação a Portugal e a Vossa Alteza.
Em outro encontro na amurada, em outra noite, contei ao Capitão meu pensamento, que não tive tempo de incluir na carta para Vossa Alteza que seguiu na nau dos mantimentos, para o ingrato esquecimento. Pensei que o gentio pardo da ilha talvez não fossem cabaças vãs que receberiam a fé cristã como água, mas que continham outra devoção que a água do Senhor lavaria. Que nelas não haveria um vazio a se encher com alma, mas antes se trocaria uma alma por outra, como água ruim se troca por boa, ou borra por vinho novo. Pois não era só a inocência dos bichos que ali existia, antes dos portugueses e da Santa Cruz, e sim um povo e suas crenças. Que teriam pensado os pardos, ouvindo o latim das nossas missas? Que há séculos falavam com Deus na língua errada, e por isso tinham nada, enquanto os portugueses tinham camisas de linho, grandes barcos e grandes barbas, porque Deus os entendia.
Disse o Capitão, a silhueta sábia, que o que se olha e o que se vê são coisas diferentes, pois um olha as estrelas e vê um caranguejo e outro olha e vê os lampiões dos pescadores num mar noturno, e o que parecia inveja seria ira guerreira. Pois tínhamos desarrumado alguma coisa entre eles, pois tínhamos mexido em alguma coisa em suas vidas e suas mentes selvagens. E que o que diziam e não entendíamos era que nos queriam longe da sua terra, com nossa Cruz, nossas barbas e nossa maldita outra língua. E disse mais o Capitão que o gentio pardo nos queria longe como a uma doença, e quem poderia dizer se estavam certos? "A Europa é uma doença, Caminha?", perguntou o Capitão, e mal o entendi também. "Bendita doença, Capitão, que leva Cristo e traz gengibre." Foi a vez dele grunhir.
No nosso terceiro encontro na amurada, já em mar alto, o Capitão disse que olhar e ver eram tão diferentes que quem olhasse nossa chegada à ilha dos papagaios não saberia se naquilo via intenção ou acaso. Perguntei se Vossa Alteza e o Capitão já sabiam da existência da ilha, se não das suas gentes sem panos, ou se o acaso e o mau cálculo para lá nos tinham levado, mas quando ele ia responder ouviu-se um grito do vigia, "Cometa, cometa", e olhamos o céu indicado, e saíram os homens do seu recolhimento e olharam o céu indicado. E todos vimos a mesma coisa, uma estrela com uma longa cauda azul, e ninguém viu o mau agouro.
Não mais encontrei o Capitão na amurada, nas dez noites em que o cometa nos acompanhou. Depois começou a tormenta que nos levou tantas almas, e de que sabe ou não sabe Vossa Alteza. E da nossa última noite na amurada guardei do Capitão resposta à minha pergunta sobre a terra à qual nos levara desígnio ou acaso. O que tínhamos lá começado, depois de lhe dar o nome? E disse o Capitão: "Em 500 anos saberemos".
Por Luis Fernando Verissimo

Praga
Luis Fernando Veríssimo

Um índio, que até então nem sabia que era índio, estendeu a mão e ofereceu a Cristóvão Colombo um tomate.
- Um pomo d’oro! - exclamou o almirante, confundindo o fruto que brilhava ao sol da nova América com uma maçã selvagem. Depois examinou o fruto mais de perto e perguntou:
- Para o que serve?
- Saladas - respondeu o índio. - Refogados. Molhos.
- Para o espaguete! - exclamou Colombo, compreendendo por que o destino o trouxera até ali. Lembrando que seu nono, em Gênova, vivia elogiando Marco Polo por ter trazido o espaguete do Oriente e sua nona vivia dizendo que sim, o espaguete era bom, mas faltava alguma coisa. Sua missão estava revelada: numa só viagem, superara o Marco Polo do nono e descobrira o que faltava na macarronada da nona. Ficou com o tomate.
- O que você me dá em troca? - quis saber o índio.
Não se sabe que língua falavam. A linguagem mágica dos grandes encontros. Não interessa.
- Dou em troca um dos produtos supremos de nossa civilização. Uma preciosidade. Um dos frutos da indústria que breve chegará aqui e transformará este mato em outra Europa.
E Colombo deu uma miçanga ao índio.
Colombo perguntou que outra novidade o índio tinha para lhe dar. E o índio ofereceu uma batata.
- O que faremos com isto? - perguntou Colombo, olhando a feia batata com pouco entusiasmo.
O índio descreveu o futuro da batata, desde a sua importância na alimentação dos camponeses europeus em fomes ainda por vir até a “noisette” e as fritas. E Colombo botou a batata na algibeira e deu em troca uma moedinha de valor tão baixo, que em vez da cara mostra o joelho do rei. O que mais o índio tinha para lhe dar?
O fruto do cacaueiro, de onde sairia o chocolate. O índio descreveu o significado do chocolate para a história do mundo, especialmente da Suíça e da Bahia, e como seriam os bombons, e as barras recheadas com avelãs, e suspeita-se que tenha mencionado até a mousse. E Colombo trocou o cacau por um espelhinho. Que mais?
Fumo! Em breve, todos estariam experimentando as delícias do tabaco e o novo hábito dominaria o mundo. E para quem quisesse um barato ainda maior, o índio incluía a planta da coca junto com a planta do fumo em troca das contas que Colombo lhe oferecia. Que mais?
Milho. Aipim. Um papagaio.
- E isso que você tem no nariz? - perguntou Colombo, apontando para a argola de ouro.
- O que você me dá em troca?
Colombo ofereceu mais miçangas, que o índio não quis. Outra moedinha. Comprimidos. Vale transporte. Finalmente apontou sua pistola para a cabeça do índio e disse “Isto”. E disparou. Depois deu ordens a seus homens para recolher todo o ouro à vista, mesmo que tivessem que trazer os narizes juntos.
Do chão, antes de morrer, o índio amaldiçoou Colombo e praguejou. Que a batata tornasse a sua raça obesa, que o chocolate enchesse as suas artérias de colesterol, que o fumo lhe desse câncer, que a cocaína o enlouquecesse e que o ouro destruísse a sua alma. E que o tomate - pediu o índio aos céus, com seu último suspiro - se transformasse em ketchup e molho enlatado sem graça que estragasse o espaguete para todo o sempre. E assim aconteceu.
(OESP - 1.10.95)


Texto 2

Senhor: Posto que o capitão-mor desta vossa frota, assim como os outros capitães e o piloto escrevam a Vossa Alteza sobre onde estamos e como aqui chegamos, cabe-me relatar o que vimos, pois se, como escritor, pouco sei de marinhagem e singraturas, muito sei de espantos.
A partida de Belém para Calicute, como Vossa Alteza sabe, foi segunda-feira, 9 de março. No domingo, 22 do dito mês, nos vimos em calmaria à vista da Ilha de Cabo Verde, e rezamos todos por uma aragem que dali nos deslocasse, e tanto rezamos que do horizonte ergueu-se um rosto gigantesco, desses que se vêem nos mapas soprando os ventos, e perguntou: "Sois portugueses?". À nossa reposta positiva, e dado que o Mar é o Tejo sem as margens e nele reina Portugal, inflou suas bochechas quilométricas e nos pôs a caminho como Vossa Alteza é servida. Mas soprou demais, tanto que atravessamos não apenas léguas mas séculos, e antes de toparmos com a nova terra topamos com seus nativos, que nos cercaram, montados em barulhentos bichos anfíbios que na língua deles é "jetisquis". Foram eles que nos disseram, no seu linguajar que em alguns momentos parece cristão e em outros não, que sua terra se chamava "Bahia", que estávamos no ano 2000 e que, sim nos guiariam até a praia. Na língua deles "sim" é "oquei".
Ao desembarcarmos na praia fomos cercados por um gentio pardo, todos seminus, alguns com argolas nas orelhas, no nariz ou no umbigo ou com desenhos feitos na pele. As mulheres mal cobrem suas vergonhas, que são limpas das cabeleiras, e quando perguntamos, com gestos, que nome davam às vergonhas glabras, reponderam "de-pi-lação". Os nossos não acertaram a pronúncia, pois quando dias depois Nicolau Coelho disse que queria "de-pi-lação" foi levado para um lugar afastado onde algo lhe aconteceu que ele nunca nos contou, mas obviamente não era o que esperava. As moças andam com os peitos destapados e os peitos são altos e roliços. Peito, na língua deles, é "silicone", se bem os entendemos.
Aos poucos, usando a mímica, e já que todos eram extremamente amáveis, fomos aprendendo o linguajar do gentio e detalhes da sua vida e dos seus costumes. Eles comem em grandes construções chamadas "mac-do-naldis", ou refeitórios, e sua comida consiste em rodelas de carne moída entre pedaços de pão, às vezes com queijo, e nacos de um vegetal que ainda não conhecíamos, uma espécie de inhame chamado "fritas". Bebem um líquido preto, a "coca", ou cerveja. Vivem em construções de pedra de diversos andares mas muitos parecem morar em pequenas choupanas de metal enfileiradas, uma atrás da outra, chamadas "engarrafamento", e que, embora tenham rodas, não se mexem, pois não há cavalos para puxá-las. Outros vivem em casas mal construídas, com tábuas e latas ou dormem ao relento mesmo, pois o clima é ameno e dispensa cobertor e teto. As casa de muitos andares são chamadas de "flat", "flat services" ou outras palavras que, estranhamente, lembram o inglês. O que levou Bartolomeu Dias a sugerir que os ingleses talvez tenham estado por aqui, o que nos pôs todos a rir, pois, como bem sabe Vossa Alteza, nem em 500 anos a Inglaterra se igualará a Portugal como potência marítima, ora tem piada.
Eles usam uma espécie de dinheiro, que chamam de "porcaria", e aqui como em Portugal uma minoria tem muito e a maioria tem pouco. Com a diferença que aqui a minoria não é nobre, e portanto com o direito divino a ter muito, como em Portugal. O sistema de governo é monáquico e o rei é chamado de "antônio carlos", mas quando pedimos para falar com o líder deles houve uma grande discussão, com alguns querendo nos levar para um lado e outros para o outro, e concluímos que divergem sobre quem é o seu "antônio carlos".
Eles parecem não ter religião, embora passem muito tempo sentados em volta de um tabernáculo do qual emana uma intensa luminosidade, e que chamam de "novela", mas quando o padre frei Henrique, a pedido do nosso capitão-mor, celebrou a primeira missa na praia poucos demonstraram interesse. Um dos nativos aconselhou o padre frei Henrique a modificar a liturgia para atrair o pessoal e na segunda missa nosso bom padre cantou e dançou e pediu para todos cantarem com ele, e o gentio veio e cercou o altar improvisado e mostrou grande devoção, mas roubaram a cruz.
A terra, Senhor, é mui formosa. Águas são muitas, infindas, e em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo, por bem das águas que tem. Porém o melhor fruto que nela se pode fazer será salvar essa gente, mesmo que me pareça que para isso já é tarde. E por falar em salvar, peço que Vossa Alteza me faça a singular mercê de mandar vir da Ilha de São Tomé a Jorge de Osório, meu genro, e salvar um casamento. E assim partiremos desta vossa nova terra para Calicute, onde esperamos chegar antes dos ingleses. Todos menos o padre frei Henrique, que decidiu ficar e fazer carreira.
Beijo as mãos de Vossa Alteza.
Luis Fernando Veríssimo


Carta de Pero Vaz Atualizada:

Olá meu amado Rei, aqui quem fala é o Pero Vaz. Está me ouvindo bem? Peguei emprestado o celular de um nativo aqui da nova terra.
Tudo bem, o Capitão Pedro está lhe mandando um abraço. Chegamos na terça, 21 de abril, mas deixei para ligar no Domingo porque a ligação é mais barata.
É aqui tem dessas coisas. Os nativos ficaram espantados com a nossa chegada por mar, não achavam que éramos Deuses, Majestade.
Acharam que éramos loucos de pisar em um mar tão sujo. A ligação está boa? Pois é, essa terra é engraçada. Tem telefonia celular, digital, automóveis importados, acesso gratuito à Internet mas ainda tem gente que morre de malária e está cheia de criança barriguda de tanto verme. É meio complicado explicar. Se já encontramos o chefe? Olha Rei, tá meio complicado. Aqui tem muito cacique para pouco índio. Logo que chegamos a Porto Seguro tinha um cacique lá que dizia que fazia chover, que mandava prender e soltar quem ele quisesse. É, um cacique bravo mesmo...Mais para o Sul encontramos outra tribo, uma aldeia maravilhosa e muito festiva, com lindas nativas quase nuas. Seguindo em direção ao Sul, saímos do litoral e adentramo-nos ao planalto. Lá encontramos uma tribo muito grande. A dos índios Sampa. Conhecemos o seu cacique, que tinha apito mas que não apitava nada, coitado.
Dizem até que ele apanha da mulher. O senhor está rindo, Majestade?
Juro que é verdadeiro o meu relato. Como vossa Majestade pode perceber, é uma terra fácil de se colonizar, pois os nativos não falam a mesma língua. Sim, são pacíficos sim. É só verem um côco no chão para eles começarem a chutá-lo e esquecerem da vida.
Sabem, sabem ler, mas não todos. A maioria lê muito mal e acredita em tudo que é escrito.
Vai ser moleza, fica frio.
Parece que há um "Cacicão Geral", mas ele quase não é visto.
O homem viaja muito. Dizem que se a intenção for evitar encontrá-lo, é só ficar sentado no trono dele. Engraçado mesmo é que a "indiaiada" trabalha a troco de banana!!! Todo mês eles recebem no mínimo 200 bananas.
Não é piada, Majestade!! É sério!! Só vindo aqui prá ver. Olha, preciso desligar. O rapaz que me emprestou o telefone celular precisa fazer uma ligação. Ele é comerciante.
Disse que precisa avisar ao povo que chegou um novo carregamento de farinha. Engraçado... eles ficam tão contentes em trabalhar...
A cada mercadoria que chega, eles sobem o morro e soltam rojões.
É uma terra muito rica, Majestade. Acho que desta vez acertamos em cheio.
Isso aqui ainda vai ser o país do futuro...
Autor desconhecido



Os Seminovos - Outros 500


Pedro Álvares Cabral, o próprio, conta como a bagunça começou! (Animação e edição de Maurício Ricardo, com trechos do filme "O Descobrimento do Brasil, dirigido por Humberto Mauro (1937) e "Africa Speaks" (1930).

Letra: Outros 500

(Os nativos andavam nus e não pareciam ter vergonha de suas partes, mesmo tendo os menores bilaus que eu já vi)

Tavam na minha caravela
Pero Vaz e uma galera
A gente ia pra Índia aquele dia

Peguei uma onda alucinada
De vinho com batata
E fui parar no meio da Bahia

Pau-Brasil e muitas índias lá em Porto Seguro
As índias tavam nuas, o pau estava duro
Eu disse ao Pero Vaz: "Isso aqui tá um bordel,
Mas nem tudo a gente bota no papel!"

Nós aprendemos lá na praia
A cantar reggae, fumar kaya
E os últimos sucessos do axé

Demos um monte de tranqueira
Em troca da madeira
Nós fizemos os índios de mané

Parte da moçada só pensava em ficar
Colonizando as garotinhas do lugar
Pero Vaz tava maluco e não parava de gritar
Que nessa terra em se cantando, mulher dá!

Ouou...
Isso aqui tá muito louco, mano
Imagine daqui há 500 anos!
Não vai faltar divertimento
Mas grana já são outros 500...
Mas grana já são outros 500...

Na Mama África chamamos
Uns amigos africanos
Pra fazer cruzeiro em alto mar
Chegando no Brasil a turma logo viu
Que não tinha passagem pra voltar

Trabalhavam muito, tinham pouco pra comer
O lucro ia todo pros amigos do poder
Vendo esse começo algo me diz
Que vai ser duro consertar esse país!

(Refrão)
Solo
(Refrão)

(Música e letra: Maurício Ricardo/ Produção e arranjos: Neto Castanheira)

Os Seminovos são: Neto Fog (voz), Maurício Ricardo (baixo, voz), Neto Castanheira (guitarras, produção), Tchana (guitarra base, voz), Alex Mororó (bateria).

Que língua é esta?

O que é direito?


Reflita:

Respeitar as variedades linguísticas é importante, mas quando ela não dá conta do fundamental, que é a comunicação, faz-se necessário manter certas normas. Comente.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Papo furado

Luis Fernando Verissimo

- Iminência...
- Você quer dizer "eminência".
- O quê?
- Você disse "iminência". O certo é "eminência".
- Perdão. Sou um servo, um réptil, um nada. Uma sujeira no seu sapato de cetim. Mas sei o que digo. E eu quis dizer "iminência".
- Mas está errado! O tratamento certo é "eminência".
- Não duvido da sua eminência, monsenhor, mas o senhor também é iminente. Uma iminência eminente. Ou uma eminência iminente.
- Em que sentido?
- No sentido filosófico.
- Você tem dois minutos para se explicar, antes que eu o excomungue.
- Somos todos iminentes, monsenhor. Vivemos num eterno devir, sempre às vésperas de alguma coisa, nem que seja só o próximo segundo. Na iminência do que virá, seja o almoço ou a morte. À beira do nosso futuro como de um precipício. A iminência é o nosso estado natural. Pois o que somos nós, todos nós, se não expectativas?
- Você, então, se acha igual a mim?
- Nesse sentido, sim. Somos co-iminentes.
- Com uma diferença. Eu estou na iminência de mandar açoitá-lo por insolência, e você está na iminência de apanhar.
- O senhor tem esse direito hierárquico. Faz parte da sua eminência.
- Admita que você queria dizer "eminência" e disse "iminência". E recorreu à filosofia para esconder o erro.
- Só a iminência do açoite me leva a admitir que errei. Se bem que...
- Se bem quê?
- Perdão. Sou um verme, uma meleca, menos que nada. Um cisco no seu santo olho, monsenhor. Mas é tão pequena a diferença entre um "e" e um "i" que o protesto de vossa eminência soa como prepotência. Eminência, iminência, que diferença faz uma letra?
- Ah, é? Ah, é? Uma letra pode mudar tudo. Um emigrante não é um imigrante.
- É um emigrante quando sai de um país e um imigrante quando chega em outro, mas é a mesma pessoa.
- Pois então? Muitas vezes a distância entre um "e" e um "i" pode ser um oceano. E garanto que você terá muitos problemas na vida se não souber diferenciar um ônus de um ânus.
- Isso são conjunturas.
- Você quer dizer "conjeturas".
- Não, conjunturas.
- Não é "conjeturas" no sentido de especulações, suposições, hipóteses?
- Não. "Conjunturas" no sentido de situações, momentos históricos.
- Você queria dizer "conjeturas" mas se enganou. Admita.
- Eu disse exatamente o que queria dizer, monsenhor.
- Você errou.
- Não errei, iminência.
- Eminência! Eminência!


Responda

1. Localize as falas que fazem uso da função metalinguística e justifique suas escolhas.
2. Existe alguma expressão com função fática no texto? Explique por quê.
3. A linguagem usada no texta está no registro culto ou popular? Por quê?
4. Procure no texto os termos e as frases que indicam a hierarquia entre os dois falantes.