quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Barroco - sermões do pe. Antônio Vieira

Leia um fragmento do Sermão do Mandato, do orador barroco Antônio Vieira (1608-1697)

Sermão do Mandato

Começando pelo amor. O amor essencialmente é união, e naturalmente a busca: para ali pesa, para ali caminha, e só ali pára. Tudo são palavras de Platão, e de Santo Agostinho. Pois se a natureza do amor é unir, como pode ser efeito do amor o apartar? Assim é, quando o amor não é extremado e excessivo. As causas excessivamente intensas produzem efeitos contrários. A dor faz gritar; mas se é excessiva, faz emudecer: a luz faz ver; mas se é excessiva, cega: a alegria alenta e vivifica; mas se é excessiva, mata. Assim o amor: naturalmente une; mas se é excessivo, divide: Fortis est ut mors dilectio: o amor, diz Salomão, é como a morte. Como a morte, rei sábio? Como a vida, dissera eu. O amor é união de almas; a morte é separação da alma: pois se o efeito do amor é unir, e o efeito da morte é separar, como pode ser o amor semelhante à morte? O mesmo Salomão se explicou. Não fala Salomão de qualquer amor, senão do amor forte? Fortis est ut mors dilectio: e o amor forte, o amor intenso, o amor excessivo, produz efeitos contrários. É união, e produz apartamentos. Sabe-se o amor atar, e sabe-se desatar como Sansão: afetuoso, deixa-se atar; forte, rompe as ataduras. O amor sempre é amoroso; mas umas vezes é amoroso e unitivo, outras vezes amoroso e forte. Enquanto amoroso e unitivo, ajunta os extremos mais distantes: enquanto amoroso e forte, divide os extremos mais unidos.

Responda:
1. O trecho transcrito do sermão de Vieira apresenta traços peculiares do barroco. Verifique, numa leitura atenta, esses traços e, a seguir,
a) mencione e explique uma característica do estilo barroco que Vieira explora com insistência no seguinte trecho: "O amor é união de almas; a morte é separação da alma: pois se o efeito do amor é unir, e o efeito da morte é separar, como pode ser o amor semelhante à morte?";


2. Vieira, em seu sermão, afirma que uma mesma causa pode produzir efeitos contrários, conforme a presença ou não de determinado fator. O fator que, segundo Vieira, é responsável por fazer com que uma mesma causa produza efeitos contrários é:
( A ) o amor
( B ) a morte
( C ) o excesso
( D ) a união

3. Indique o fenômeno físico que Vieira apresenta como uma das provas do que afirma.

4. Um papa do século XVII, Clemente X, disse a respeito de Vieira: "Devemos dar muitas graças a Deus por fazer este homem católico, porque se o não fosse poderia dar muito cuidado à Igreja de Deus". Comente.

5. Por que ler o sermões do Pe. Antônio Vieira, escritos e pregados a cerca de 350 anos?

6. Assista a um dos sermões proferido no filme "Dúvida" e responda qual é a intenção do sermão?

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Uso dos pronomes

Inimigos
Luís Fernando Veríssimo

O apelido de Maria Teresa, para o Norberto, era “Quequinha”. Depois do casamento sempre que queria contar para os outros uma de sua mulher, o Norberto pegava sua mão carinhosamente, e começava:
- Pois a Quequinha...
E a Quequinha, dengosa, protestava.
- Ora, Beto!
Com o passar do tempo, o Norberto deixou de chamar a Maria Teresa de Quequinha. Se ela estivesse ao seu lado e ele quisesse se referir a ela, dizia:
- A mulher aqui...
Ou, às vezes:
- Esta mulherzinha...
Mas nunca mais Quequinha.
(O tempo, o tempo. O amor tem mil inimigos, mas o pior deles é o tempo. O tempo ataca em silêncio. O tempo usa armas químicas.)
Com o tempo, Norberto passou a tratar a mulher por “Ela”.
- Ela odeia o Charles Bronson.
- Ah, não gosto mesmo.
Deve-se dizer que o Norberto, a esta altura, embora a chamasse de Ela, ainda usava um vago gesto da mão para indicá-la. Pior foi quando passou a dizer “essa aí” e a apontar com o queixo.
- Essa aí...
E apontava com o queixo, até curvando a boca com um certo desdém.
(O tempo, o tempo. O tempo captura o amor e não o mata na hora. Vai tirando uma asa, depois a outra...)
Hoje, quando quer contar alguma coisa da mulher, o Norberto nem olha na sua direção. Faz um meneio de lado com a cabeça e diz:
- Aquilo...


Reflita:

De que maneira o uso dos pronomes contribui para a contrução do efeito de humor que se pode observar nesse texto, "inimigos"

domingo, 14 de agosto de 2011

Romantismo - A vingança feminina

1. Assista a cena de "Insensato Coração"
CAP.141-NORMA E LEO REENCONTRO 29/06/2011 PART-03



2. Assista trechos da novela "Essas Mulheres", baseada no romance "Senhora" de José de Alencar

- Noite de Núpcias 02


- Noite de Núpcias 03


- Noite de Núpcias 04



Reflexão

Analisando as cenas das novelas, comente sobre a atitude das personagens femininas (Norma e Aurélia). O que você faria numa situação como essa? Se vingaria também?

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Brasil 500 anos


Comercial dos Correios com texto da Carta de Pero Vaz de Caminha.

Anunciante: Correios
Título: Transformação
Agência: Ogilvy
Direção de Criação: Camila Franco

Releituras

1. Uma proposta interessante é pedir aos alunos releituras da Carta de Caminha, seguindo a proposta dos poetas Modernistas - com olhar crítico do processo de colonização:


Tupi or not tupi - This is the question
Oswald de Andrade

Brasil


O Zé Pereira chegou de caravela
E preguntou pro guarani da mata virgem
— Sois cristão?
— Não. Sou bravo, sou forte, sou filho da Morte
Teterê Tetê Quizá Quizá Quecê!
Lá longe a onça resmungava Uu! ua! uu!
O negro zonzo saído da fornalha
Tomou a palavra e respondeu
— Sim pela graça de Deus
Canhém Babá Canhém Babá Cum Cum!
E fizeram o Carnaval


Erro de português

Quando o português chegou
Debaixo duma bruta chuva
Vestiu o índio
Que pena!

Fosse uma manhã de sol
O índio tinha despido
O português


2.  Ou ainda releitura da carta como os modelos de Luís Fernando Veríssimo e outros que circulam pela internet. Quem sabe enviar um e-mail ao rei ou tuitar contando as novas sobre o Achamento da Nova Terra?

A derradeira carta do escrivão do Rei


            Pero Vaz de Caminha, o primeiro repórter no Brasil, não teve tempo de escrever tudo o que gostaria. Então, alguém tomou seu lugar
Imaginem uma segunda carta de Pero Vaz de Caminha ao rei dom Manuel. Ela teria sido escrita em Calicute, na costa ocidental da Índia, onde a frota de Cabral ancorou em 13 de setembro de 1500, depois do "achamento" do que ainda pensavam ser uma ilha, que chamaram de Vera Cruz. Às vésperas de morrer nas mãos dos indianos, junto com outros portugueses, Caminha fica sabendo que sua primeira carta, com o pedido para que o genro fosse trazido de volta do desterro, nem chegou às mãos do rei. Segue-se um trecho da missiva desconhecida até hoje:

Dos infortúnios da nossa viagem da terra nova, de onde saíram 11 naus, a Calicute, onde chegaram cinco, sabe ou ainda não sabe Vossa Alteza, mas não serei eu a atormentá-Lo como os ventos do Cabo Tenebroso nos atormentaram, pois muitas vezes mais cruel é o contar do que o acontecido. Saiba apenas que se muitos mareantes afundaram, afundaram com Vossa Alteza no pensamento, e que os peixes se banquetearam de boa fibra portuguesa. Bartolomeu Dias, sabe ou ainda não sabe Vossa Alteza, deu segundo turno à Natureza que um dia humilhou, e desta vez perdeu. Naufragou ao Cabo que deu nome, o da Boa Esperança. Seu nobre coração repousa entre os corais do fundo, e não brilha menos.
Viajávamos ainda ao longo da terra nova, antes das tormentas, quando uma noite encontrei o Capitão-mor, sozinho, barba ao vento, na amurada. Olhava para a silhueta negra da costa e sua própria silhueta era outro silêncio negro, até falar. "É grande a ilha, Caminha", disse-me ele, embora não tivesse dado sinal de me distinguir do breu. E eu disse: "É gigantesca a ilha, Capitão", e ele grunhiu um assentimento. Viajávamos já léguas para o sul sob as estrelas cruzadas e ainda não tínhamos encontrado o fim do gigante. "Ou não é ilha", disse o Capitão, e eu grunhi nem sim nem não.
O Capitão bateu com os dois punhos no peito e disse que sentia um continente por trás da silhueta negra que olhávamos. Sentia outro mundo, e sentia-o no peito. Disse: "Talvez mundo demais", e meu grunhido foi ainda mais precavido. E disse o Capitão: "Penso comigo que despertamos alguma coisa. Penso comigo, Caminha, que mexemos em alguma coisa demais". Grunhi de novo. E perguntei: "Quanto mais mundo haverá neste Ocidente?" E disse o Capitão que, quanto mais mundo houvesse, não faltariam portugueses para lhe dar nome. E passamos o resto do encontro em louvação a Portugal e a Vossa Alteza.
Em outro encontro na amurada, em outra noite, contei ao Capitão meu pensamento, que não tive tempo de incluir na carta para Vossa Alteza que seguiu na nau dos mantimentos, para o ingrato esquecimento. Pensei que o gentio pardo da ilha talvez não fossem cabaças vãs que receberiam a fé cristã como água, mas que continham outra devoção que a água do Senhor lavaria. Que nelas não haveria um vazio a se encher com alma, mas antes se trocaria uma alma por outra, como água ruim se troca por boa, ou borra por vinho novo. Pois não era só a inocência dos bichos que ali existia, antes dos portugueses e da Santa Cruz, e sim um povo e suas crenças. Que teriam pensado os pardos, ouvindo o latim das nossas missas? Que há séculos falavam com Deus na língua errada, e por isso tinham nada, enquanto os portugueses tinham camisas de linho, grandes barcos e grandes barbas, porque Deus os entendia.
Disse o Capitão, a silhueta sábia, que o que se olha e o que se vê são coisas diferentes, pois um olha as estrelas e vê um caranguejo e outro olha e vê os lampiões dos pescadores num mar noturno, e o que parecia inveja seria ira guerreira. Pois tínhamos desarrumado alguma coisa entre eles, pois tínhamos mexido em alguma coisa em suas vidas e suas mentes selvagens. E que o que diziam e não entendíamos era que nos queriam longe da sua terra, com nossa Cruz, nossas barbas e nossa maldita outra língua. E disse mais o Capitão que o gentio pardo nos queria longe como a uma doença, e quem poderia dizer se estavam certos? "A Europa é uma doença, Caminha?", perguntou o Capitão, e mal o entendi também. "Bendita doença, Capitão, que leva Cristo e traz gengibre." Foi a vez dele grunhir.
No nosso terceiro encontro na amurada, já em mar alto, o Capitão disse que olhar e ver eram tão diferentes que quem olhasse nossa chegada à ilha dos papagaios não saberia se naquilo via intenção ou acaso. Perguntei se Vossa Alteza e o Capitão já sabiam da existência da ilha, se não das suas gentes sem panos, ou se o acaso e o mau cálculo para lá nos tinham levado, mas quando ele ia responder ouviu-se um grito do vigia, "Cometa, cometa", e olhamos o céu indicado, e saíram os homens do seu recolhimento e olharam o céu indicado. E todos vimos a mesma coisa, uma estrela com uma longa cauda azul, e ninguém viu o mau agouro.
Não mais encontrei o Capitão na amurada, nas dez noites em que o cometa nos acompanhou. Depois começou a tormenta que nos levou tantas almas, e de que sabe ou não sabe Vossa Alteza. E da nossa última noite na amurada guardei do Capitão resposta à minha pergunta sobre a terra à qual nos levara desígnio ou acaso. O que tínhamos lá começado, depois de lhe dar o nome? E disse o Capitão: "Em 500 anos saberemos".
Por Luis Fernando Verissimo

Praga
Luis Fernando Veríssimo

Um índio, que até então nem sabia que era índio, estendeu a mão e ofereceu a Cristóvão Colombo um tomate.
- Um pomo d’oro! - exclamou o almirante, confundindo o fruto que brilhava ao sol da nova América com uma maçã selvagem. Depois examinou o fruto mais de perto e perguntou:
- Para o que serve?
- Saladas - respondeu o índio. - Refogados. Molhos.
- Para o espaguete! - exclamou Colombo, compreendendo por que o destino o trouxera até ali. Lembrando que seu nono, em Gênova, vivia elogiando Marco Polo por ter trazido o espaguete do Oriente e sua nona vivia dizendo que sim, o espaguete era bom, mas faltava alguma coisa. Sua missão estava revelada: numa só viagem, superara o Marco Polo do nono e descobrira o que faltava na macarronada da nona. Ficou com o tomate.
- O que você me dá em troca? - quis saber o índio.
Não se sabe que língua falavam. A linguagem mágica dos grandes encontros. Não interessa.
- Dou em troca um dos produtos supremos de nossa civilização. Uma preciosidade. Um dos frutos da indústria que breve chegará aqui e transformará este mato em outra Europa.
E Colombo deu uma miçanga ao índio.
Colombo perguntou que outra novidade o índio tinha para lhe dar. E o índio ofereceu uma batata.
- O que faremos com isto? - perguntou Colombo, olhando a feia batata com pouco entusiasmo.
O índio descreveu o futuro da batata, desde a sua importância na alimentação dos camponeses europeus em fomes ainda por vir até a “noisette” e as fritas. E Colombo botou a batata na algibeira e deu em troca uma moedinha de valor tão baixo, que em vez da cara mostra o joelho do rei. O que mais o índio tinha para lhe dar?
O fruto do cacaueiro, de onde sairia o chocolate. O índio descreveu o significado do chocolate para a história do mundo, especialmente da Suíça e da Bahia, e como seriam os bombons, e as barras recheadas com avelãs, e suspeita-se que tenha mencionado até a mousse. E Colombo trocou o cacau por um espelhinho. Que mais?
Fumo! Em breve, todos estariam experimentando as delícias do tabaco e o novo hábito dominaria o mundo. E para quem quisesse um barato ainda maior, o índio incluía a planta da coca junto com a planta do fumo em troca das contas que Colombo lhe oferecia. Que mais?
Milho. Aipim. Um papagaio.
- E isso que você tem no nariz? - perguntou Colombo, apontando para a argola de ouro.
- O que você me dá em troca?
Colombo ofereceu mais miçangas, que o índio não quis. Outra moedinha. Comprimidos. Vale transporte. Finalmente apontou sua pistola para a cabeça do índio e disse “Isto”. E disparou. Depois deu ordens a seus homens para recolher todo o ouro à vista, mesmo que tivessem que trazer os narizes juntos.
Do chão, antes de morrer, o índio amaldiçoou Colombo e praguejou. Que a batata tornasse a sua raça obesa, que o chocolate enchesse as suas artérias de colesterol, que o fumo lhe desse câncer, que a cocaína o enlouquecesse e que o ouro destruísse a sua alma. E que o tomate - pediu o índio aos céus, com seu último suspiro - se transformasse em ketchup e molho enlatado sem graça que estragasse o espaguete para todo o sempre. E assim aconteceu.
(OESP - 1.10.95)


Texto 2

Senhor: Posto que o capitão-mor desta vossa frota, assim como os outros capitães e o piloto escrevam a Vossa Alteza sobre onde estamos e como aqui chegamos, cabe-me relatar o que vimos, pois se, como escritor, pouco sei de marinhagem e singraturas, muito sei de espantos.
A partida de Belém para Calicute, como Vossa Alteza sabe, foi segunda-feira, 9 de março. No domingo, 22 do dito mês, nos vimos em calmaria à vista da Ilha de Cabo Verde, e rezamos todos por uma aragem que dali nos deslocasse, e tanto rezamos que do horizonte ergueu-se um rosto gigantesco, desses que se vêem nos mapas soprando os ventos, e perguntou: "Sois portugueses?". À nossa reposta positiva, e dado que o Mar é o Tejo sem as margens e nele reina Portugal, inflou suas bochechas quilométricas e nos pôs a caminho como Vossa Alteza é servida. Mas soprou demais, tanto que atravessamos não apenas léguas mas séculos, e antes de toparmos com a nova terra topamos com seus nativos, que nos cercaram, montados em barulhentos bichos anfíbios que na língua deles é "jetisquis". Foram eles que nos disseram, no seu linguajar que em alguns momentos parece cristão e em outros não, que sua terra se chamava "Bahia", que estávamos no ano 2000 e que, sim nos guiariam até a praia. Na língua deles "sim" é "oquei".
Ao desembarcarmos na praia fomos cercados por um gentio pardo, todos seminus, alguns com argolas nas orelhas, no nariz ou no umbigo ou com desenhos feitos na pele. As mulheres mal cobrem suas vergonhas, que são limpas das cabeleiras, e quando perguntamos, com gestos, que nome davam às vergonhas glabras, reponderam "de-pi-lação". Os nossos não acertaram a pronúncia, pois quando dias depois Nicolau Coelho disse que queria "de-pi-lação" foi levado para um lugar afastado onde algo lhe aconteceu que ele nunca nos contou, mas obviamente não era o que esperava. As moças andam com os peitos destapados e os peitos são altos e roliços. Peito, na língua deles, é "silicone", se bem os entendemos.
Aos poucos, usando a mímica, e já que todos eram extremamente amáveis, fomos aprendendo o linguajar do gentio e detalhes da sua vida e dos seus costumes. Eles comem em grandes construções chamadas "mac-do-naldis", ou refeitórios, e sua comida consiste em rodelas de carne moída entre pedaços de pão, às vezes com queijo, e nacos de um vegetal que ainda não conhecíamos, uma espécie de inhame chamado "fritas". Bebem um líquido preto, a "coca", ou cerveja. Vivem em construções de pedra de diversos andares mas muitos parecem morar em pequenas choupanas de metal enfileiradas, uma atrás da outra, chamadas "engarrafamento", e que, embora tenham rodas, não se mexem, pois não há cavalos para puxá-las. Outros vivem em casas mal construídas, com tábuas e latas ou dormem ao relento mesmo, pois o clima é ameno e dispensa cobertor e teto. As casa de muitos andares são chamadas de "flat", "flat services" ou outras palavras que, estranhamente, lembram o inglês. O que levou Bartolomeu Dias a sugerir que os ingleses talvez tenham estado por aqui, o que nos pôs todos a rir, pois, como bem sabe Vossa Alteza, nem em 500 anos a Inglaterra se igualará a Portugal como potência marítima, ora tem piada.
Eles usam uma espécie de dinheiro, que chamam de "porcaria", e aqui como em Portugal uma minoria tem muito e a maioria tem pouco. Com a diferença que aqui a minoria não é nobre, e portanto com o direito divino a ter muito, como em Portugal. O sistema de governo é monáquico e o rei é chamado de "antônio carlos", mas quando pedimos para falar com o líder deles houve uma grande discussão, com alguns querendo nos levar para um lado e outros para o outro, e concluímos que divergem sobre quem é o seu "antônio carlos".
Eles parecem não ter religião, embora passem muito tempo sentados em volta de um tabernáculo do qual emana uma intensa luminosidade, e que chamam de "novela", mas quando o padre frei Henrique, a pedido do nosso capitão-mor, celebrou a primeira missa na praia poucos demonstraram interesse. Um dos nativos aconselhou o padre frei Henrique a modificar a liturgia para atrair o pessoal e na segunda missa nosso bom padre cantou e dançou e pediu para todos cantarem com ele, e o gentio veio e cercou o altar improvisado e mostrou grande devoção, mas roubaram a cruz.
A terra, Senhor, é mui formosa. Águas são muitas, infindas, e em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo, por bem das águas que tem. Porém o melhor fruto que nela se pode fazer será salvar essa gente, mesmo que me pareça que para isso já é tarde. E por falar em salvar, peço que Vossa Alteza me faça a singular mercê de mandar vir da Ilha de São Tomé a Jorge de Osório, meu genro, e salvar um casamento. E assim partiremos desta vossa nova terra para Calicute, onde esperamos chegar antes dos ingleses. Todos menos o padre frei Henrique, que decidiu ficar e fazer carreira.
Beijo as mãos de Vossa Alteza.
Luis Fernando Veríssimo


Carta de Pero Vaz Atualizada:

Olá meu amado Rei, aqui quem fala é o Pero Vaz. Está me ouvindo bem? Peguei emprestado o celular de um nativo aqui da nova terra.
Tudo bem, o Capitão Pedro está lhe mandando um abraço. Chegamos na terça, 21 de abril, mas deixei para ligar no Domingo porque a ligação é mais barata.
É aqui tem dessas coisas. Os nativos ficaram espantados com a nossa chegada por mar, não achavam que éramos Deuses, Majestade.
Acharam que éramos loucos de pisar em um mar tão sujo. A ligação está boa? Pois é, essa terra é engraçada. Tem telefonia celular, digital, automóveis importados, acesso gratuito à Internet mas ainda tem gente que morre de malária e está cheia de criança barriguda de tanto verme. É meio complicado explicar. Se já encontramos o chefe? Olha Rei, tá meio complicado. Aqui tem muito cacique para pouco índio. Logo que chegamos a Porto Seguro tinha um cacique lá que dizia que fazia chover, que mandava prender e soltar quem ele quisesse. É, um cacique bravo mesmo...Mais para o Sul encontramos outra tribo, uma aldeia maravilhosa e muito festiva, com lindas nativas quase nuas. Seguindo em direção ao Sul, saímos do litoral e adentramo-nos ao planalto. Lá encontramos uma tribo muito grande. A dos índios Sampa. Conhecemos o seu cacique, que tinha apito mas que não apitava nada, coitado.
Dizem até que ele apanha da mulher. O senhor está rindo, Majestade?
Juro que é verdadeiro o meu relato. Como vossa Majestade pode perceber, é uma terra fácil de se colonizar, pois os nativos não falam a mesma língua. Sim, são pacíficos sim. É só verem um côco no chão para eles começarem a chutá-lo e esquecerem da vida.
Sabem, sabem ler, mas não todos. A maioria lê muito mal e acredita em tudo que é escrito.
Vai ser moleza, fica frio.
Parece que há um "Cacicão Geral", mas ele quase não é visto.
O homem viaja muito. Dizem que se a intenção for evitar encontrá-lo, é só ficar sentado no trono dele. Engraçado mesmo é que a "indiaiada" trabalha a troco de banana!!! Todo mês eles recebem no mínimo 200 bananas.
Não é piada, Majestade!! É sério!! Só vindo aqui prá ver. Olha, preciso desligar. O rapaz que me emprestou o telefone celular precisa fazer uma ligação. Ele é comerciante.
Disse que precisa avisar ao povo que chegou um novo carregamento de farinha. Engraçado... eles ficam tão contentes em trabalhar...
A cada mercadoria que chega, eles sobem o morro e soltam rojões.
É uma terra muito rica, Majestade. Acho que desta vez acertamos em cheio.
Isso aqui ainda vai ser o país do futuro...
Autor desconhecido



Os Seminovos - Outros 500


Pedro Álvares Cabral, o próprio, conta como a bagunça começou! (Animação e edição de Maurício Ricardo, com trechos do filme "O Descobrimento do Brasil, dirigido por Humberto Mauro (1937) e "Africa Speaks" (1930).

Letra: Outros 500

(Os nativos andavam nus e não pareciam ter vergonha de suas partes, mesmo tendo os menores bilaus que eu já vi)

Tavam na minha caravela
Pero Vaz e uma galera
A gente ia pra Índia aquele dia

Peguei uma onda alucinada
De vinho com batata
E fui parar no meio da Bahia

Pau-Brasil e muitas índias lá em Porto Seguro
As índias tavam nuas, o pau estava duro
Eu disse ao Pero Vaz: "Isso aqui tá um bordel,
Mas nem tudo a gente bota no papel!"

Nós aprendemos lá na praia
A cantar reggae, fumar kaya
E os últimos sucessos do axé

Demos um monte de tranqueira
Em troca da madeira
Nós fizemos os índios de mané

Parte da moçada só pensava em ficar
Colonizando as garotinhas do lugar
Pero Vaz tava maluco e não parava de gritar
Que nessa terra em se cantando, mulher dá!

Ouou...
Isso aqui tá muito louco, mano
Imagine daqui há 500 anos!
Não vai faltar divertimento
Mas grana já são outros 500...
Mas grana já são outros 500...

Na Mama África chamamos
Uns amigos africanos
Pra fazer cruzeiro em alto mar
Chegando no Brasil a turma logo viu
Que não tinha passagem pra voltar

Trabalhavam muito, tinham pouco pra comer
O lucro ia todo pros amigos do poder
Vendo esse começo algo me diz
Que vai ser duro consertar esse país!

(Refrão)
Solo
(Refrão)

(Música e letra: Maurício Ricardo/ Produção e arranjos: Neto Castanheira)

Os Seminovos são: Neto Fog (voz), Maurício Ricardo (baixo, voz), Neto Castanheira (guitarras, produção), Tchana (guitarra base, voz), Alex Mororó (bateria).

Que língua é esta?

O que é direito?


Reflita:

Respeitar as variedades linguísticas é importante, mas quando ela não dá conta do fundamental, que é a comunicação, faz-se necessário manter certas normas. Comente.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Papo furado

Luis Fernando Verissimo

- Iminência...
- Você quer dizer "eminência".
- O quê?
- Você disse "iminência". O certo é "eminência".
- Perdão. Sou um servo, um réptil, um nada. Uma sujeira no seu sapato de cetim. Mas sei o que digo. E eu quis dizer "iminência".
- Mas está errado! O tratamento certo é "eminência".
- Não duvido da sua eminência, monsenhor, mas o senhor também é iminente. Uma iminência eminente. Ou uma eminência iminente.
- Em que sentido?
- No sentido filosófico.
- Você tem dois minutos para se explicar, antes que eu o excomungue.
- Somos todos iminentes, monsenhor. Vivemos num eterno devir, sempre às vésperas de alguma coisa, nem que seja só o próximo segundo. Na iminência do que virá, seja o almoço ou a morte. À beira do nosso futuro como de um precipício. A iminência é o nosso estado natural. Pois o que somos nós, todos nós, se não expectativas?
- Você, então, se acha igual a mim?
- Nesse sentido, sim. Somos co-iminentes.
- Com uma diferença. Eu estou na iminência de mandar açoitá-lo por insolência, e você está na iminência de apanhar.
- O senhor tem esse direito hierárquico. Faz parte da sua eminência.
- Admita que você queria dizer "eminência" e disse "iminência". E recorreu à filosofia para esconder o erro.
- Só a iminência do açoite me leva a admitir que errei. Se bem que...
- Se bem quê?
- Perdão. Sou um verme, uma meleca, menos que nada. Um cisco no seu santo olho, monsenhor. Mas é tão pequena a diferença entre um "e" e um "i" que o protesto de vossa eminência soa como prepotência. Eminência, iminência, que diferença faz uma letra?
- Ah, é? Ah, é? Uma letra pode mudar tudo. Um emigrante não é um imigrante.
- É um emigrante quando sai de um país e um imigrante quando chega em outro, mas é a mesma pessoa.
- Pois então? Muitas vezes a distância entre um "e" e um "i" pode ser um oceano. E garanto que você terá muitos problemas na vida se não souber diferenciar um ônus de um ânus.
- Isso são conjunturas.
- Você quer dizer "conjeturas".
- Não, conjunturas.
- Não é "conjeturas" no sentido de especulações, suposições, hipóteses?
- Não. "Conjunturas" no sentido de situações, momentos históricos.
- Você queria dizer "conjeturas" mas se enganou. Admita.
- Eu disse exatamente o que queria dizer, monsenhor.
- Você errou.
- Não errei, iminência.
- Eminência! Eminência!


Responda

1. Localize as falas que fazem uso da função metalinguística e justifique suas escolhas.
2. Existe alguma expressão com função fática no texto? Explique por quê.
3. A linguagem usada no texta está no registro culto ou popular? Por quê?
4. Procure no texto os termos e as frases que indicam a hierarquia entre os dois falantes.


quarta-feira, 1 de junho de 2011

Teoria do Conto – Nádia Battella Gotlib

O livro teoriza e exemplifica as características comuns das histórias nomeadas como contos, destaca a trajetória do conto desde a sua origem e nos mostra os traços de alguns contistas de renome.


Acesse:
http://pt.scribd.com/doc/30890030/Nadia-Battella-Gotlib-Teoria-do-Conto

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Humor: Plágio

fonte: http://www.umsabadoqualquer.com/category/nietzsche/


1. Às vezes, nos deparamos com tantos textos semelhantes que nos faz questionar qual é o original e qual é o plágio. A tira nos mostra uma informação significativa para diferenciarmos um do outro. Qual?

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Gênero lírico

Gênero lírico

Quando um texto revela o mundo interior do artista, isto é, seus sentimentos, suas emoções, seus desejos; dizemos que esse texto pertence ao gênero lírico. Lirismo, portanto, é a expressão da subjetividade. O "eu" que fala através do texto é conhecido como eu-lírico ou eu-poético. Na Grécia, a lira era o instrumento usado para acompanhar a declamação de poemas. Acreditava-se que o som suave da lira contribuía para a musical idade do texto e para despertar emoções nos ouvintes.
 
Noções poéticos básicos:
O que é poema? O poema é um texto artístico construído em versos que procuram passar as idéias e sentimentos do autor, despertando a musicalidade das palavras. Essa sonoridade vem através de recursos como ritmo, rimas, aliteração, assonância etc. A musicalidade é imprescindível para o poema, o que não ocorre com o texto em prosa, isto é, aquele escrito em parágrafos.

O que é poesia? Esta palavra tem basicamente três significações. Fazer poesia é a arte de fazer versos, é a técnica. Um texto em versos também pode ser chamado de poesia. E poesia pode ser um estado emotivo, isto é, encontramos poesia em tudo que toca nossa alma, despertando emoções e prazer estético, indignação, reflexão ...

Eu-lírico: a voz que fala no poema. Ele também é um entidade literária, criada justamente para desvincular o autor do texto poético do "eu" que nele se manifesta. O eu-lírico é marcado pelas formas verbais flexionadas na primeira pessoa e pronomes pessoais. .

Formas fixas: o SONETO, composição poética de 14 versos distribuídos em dois quartetos e dois tercetos, como bem exemplifica o "Soneto de fidelidade".

Soneto de Fidelidade
Vinicius de Moraes

De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.


O verso: cada linha poética.  

A estrofe: conjunto de versos de um poema.  

 Métrica: contagem das sílabas que compõem o verso, até a última sílaba tônica. Mais conhecidos: (5) pentassílabos (Redondilha menor); (7) heptassílabos (redondilha maior), (10) decassílabos e (12) dodecassílabos (alexandrinos).

            A / mo-/ te / tan / to /, meu / a / mor/ ... não / can / te.
            1     2     3     4     5      6      7    8         9       10

            O   hu / ma / no /   co/ ra / cão/  com/  mais/  ver/ da/ de.
            1           2     3      4    5     6       7     8        9    10


            A rima: é a semelhança de sons entre as palavras que se localizam no fim ou no meio de versos diferentes.


De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento


A
B
B
A

"O poema"
Herberto Helder

Um poema cresce inseguramente
na confusão da carne.
Sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.

Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
os rios, a grande paz exterior das coisas,
as folhas dormindo o silêncio,
- a hora teatral da posse.

E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.
E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,
invade as órbitas, a face amorfa das paredes,
e a miséria dos minutos,
e a força sustida das coisas,
e a redonda e livre harmonia do mundo.
- Embaixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.

- E o poema faz-se contra o tempo e a carne


CQC - discute nova cartilha do Mec




Leia agora um trecho da cartilha e responda:  Qual é a sua opinião sobre ela?

domingo, 8 de maio de 2011

Aversão à escola



Reflita:

1. Quais são os problemas da educação brasileira?
2. Do autoritarismo ao liberalismo, o que mudou da década de 90 para cá na educação brasileira?
3. Quanto o ECA influencia no sistema educacional?
4. Professores e escola reféns do sistema educacional? Comente.
5. A escola é mais um espaço social, uma rede social, extensão da internet, mas off line?
6. Que mudanças são necessárias na educação?
7. Qual é o papel da família na educação dos filhos?

domingo, 1 de maio de 2011

Conto 3


Conforme Machado de Assis, o conto “É um gênero difícil, a despeito da sua aparente facilidade”. Já Mário de Andrade lembra que “[...] em verdade, sempre será conto aquilo que seu autor batizou com o nome de conto” e Júlio Cortázar “[...] esse gênero de tão difícil definição, tão esquivo nos seus múltiplos e antagônicos aspectos.”  Ora, quando Cortázar estuda a obra de Alan Poe, define o  conto como “1) relato de um acontecimento; 2. Narração oral ou escrita de um acontecimento falso; 3. Fábula que se conta às crianças para diverti-las.”
Concordo com os autores, uma vez que a definição do conto é tênue. Conto, novela e crônica são gêneros muito próximos. Se alguns críticos literários definem “O alienista”, obra de Machado de Assis, como um conto, quem sou eu para dizer que é uma novela?
Mas algumas características são mais marcantes no conto, como por exemplo, o conflito e a extensão da narrativa. Se na crônica não há o conflito propriamente dito, no conto podemos identificá-lo; ambas as narrativas são breves. Na novela, há o conflito, assim como no conto, e centraliza-se em um personagem, mas a extensão da narrativa é intermediária entre o conto e o romance. Há quem os considere gênero menor, pela brevidade, mas exige do autor domínio da técnica para cativar o leitor.
O conto, portanto, é uma narrativa curta, centrado num só conflito e num só personagem, com uma linguagem enxuta e particular. O escritor de contos é um aracnídeo, que tece docemente as palavras, capaz de atrair sua presa, sem dó e sem piedade, aos “enredados” fios da narrativa. Pobre leitor, nunca mais será o mesmo.

sábado, 30 de abril de 2011

O conceito de plágio criativo

Gabriel Perissé
Escrever é tomar a decisão de descobrir o meu método pessoal para forjar o meu eu em forma de texto.

Clarice Lispector confidenciava: “Tive que descobrir meu método sozinha. [...] Me ocorriam idéias e eu sempre dizia: ‘Tá bem. Amanhã de manhã eu escrevo.’ Sem perceber que, em mim, fundo e forma é uma coisa só. Já vem a frase feita. Enquanto eu deixava ‘para amanhã’, continuava o desespero toda a manhã diante do papel em branco. E a idéia? Não tinha mais. Então resolvi tomar nota de tudo que me ocorria.”

Escrever é assim. Clarice tomou a decisão de tomar nota. Isso se chama trabalho. Trabalho que se traduz em rasgar muito papel, em reescrever muito, em recomeçar várias vezes. Só a ambição de estender aos outros a nossa ponte, a palavra, e através dessa ponte acompanhar os outros na sua solidão e na sua esperança, só esta ambição justifica e intensifica a concentração, a realização de tais e tais tarefas, a leitura sistemática, a consulta ao dicionário, o estudo da gramática, o desenvolvimento de idéias latentes, de imagens, sonhos, frases...

Em Assim falava Zaratustra, escrevia Nietzsche: “Como é agradável ouvir palavras e sons! Não serão as palavras e os sons os arco-íris e as pontes ilusórias entre as coisas eternamente separadas?” — e podemos nós, ousadamente, argumentar que são as palavras o que há de menos ilusório, são os verdadeiros arco-íris e as autênticas pontes impedindo a separação eterna entre as coisas e as pessoas.

E as palavras somos nós, preenchendo esses abismos.

Por mais prosaico que seja o texto que precisamos escrever, por mais objetiva que seja a necessidade de uma carta ou um e-mail, temos de levantar essas pontes com nossas palavras, com nossa personalidade, e fazer delas um caminho vivo para a comunicação interpessoal.

E essa comunicação precisa ser original.

Originalidade é o que se faz novo aos nossos olhos, com novas coerências, novo atrativo. Uma pessoa original é aquela que está sempre nos surpreendendo pelo fato de ser uma pessoa. Uma pessoa original é aquela que traz a marca da evolução contínua, da insatisfação consigo mesma, e da busca de maneiras novas de dizer o que todos já sabiam.

Mas o paradoxal nessa história toda (e até o absurdo, à primeira vista) é que a arte de ser original, e, concretamente, de escrever de maneira original, consiste na capacidade de repetir o que alguém já disse, de renovar o que alguém já pensou, já expressou, e fazê-lo de uma forma reconhecidamente inédita.

Carlos Drummond de Andrade ensinava, ironicamente, que o desenvolvimento da originalidade possui algumas etapas, a primeira das quais é imitar os modelos clássicos, e a última... imitar-se a si mesmo até a morte!

A solução para este aparente beco sem saída é entrar nele, corajosamente, acender uma luz o mais rápido possível, e compreender que, sim, existem saídas — podemos imitar de forma criativa. Podemos ser originais sem a necessidade de apelar para a extravagância. Podemos utilizar o que é alheio com a liberdade de quem tem esse algo como coisa própria.

Antes mesmo de pensar nos modelos clássicos, voltemo-nos para as frases mais corriqueiras, como “a união faz a força”, “estou com a faca e o queijo na mão”, “desisti de dar murro em ponta de faca”, “o tiro saiu pela culatra”, e outras centenas de preciosidades que, bem aquilatadas, são inspiradoras de nossa originalidade.

Não precisamos excluir do nosso horizonte esses clichês, essas expressões comuns, mas temos de apropriarmo-nos deles e reaproveitá-los em outros contextos, em muitos casos apenas alterando uma letra ou uma palavra, para descortinar percepções mais criativas da realidade.

Outro dia, uma menina de 3 anos de idade disse, sem perceber a beleza do que dizia, enquanto pedia ao pai que a ajudasse a abrir uma garrafa: “Pai, vamos misturar nossas forças?!” Mais do que unir, misturar! Ela estava aprofundando e renovando a idéia da união.

Ou se eu digo, por exemplo: alegria de pobre dura muito, estou relativizando o fatalismo de uma vida miserável e ressaltando que a pobreza — entendida num contexto positivo, de desapego das realidades materiais — não precisa identificar-se necessariamente com a infelicidade. Ao contrário! A pobreza pode é ajudar uma pessoa a entender o essencial da vida.

Quando Nelson Rodrigues diz que “o pior cego é aquele que não quer ouvir”, está levando nosso olhar para outros aspectos da questão. A pessoa que não quer ver é o pior cego, como ensina o dito popular, mas é ironicamente verdadeiro também que o cego pior é aquele que, além de cego, recusa-se a ouvir as orientações dos outros!

Mas ainda não entramos em cheio no problema do plágio.

O conceito de plágio é um conceito relativamente novo. Na Idade Média, as “leis da imitação” permitiam e estimulavam a busca de um exemplum, de um modelo do passado que servisse de base para fazer algo de novo com o antigo, mesmo que depois todos pudessem perceber ali, na obra realizada, mais o antigo do que o novo.

Talvez estivesse no bojo dessa mentalidade a idéia da imitatio Christi, que não era simples cópia do comportamento de Cristo, mas uma ascese que implicava na assimilação e na imitação pessoal do modelo da santidade cristã.

O medievalista Jacques le Goff menciona sempre o fato de que, naquela época (cujas trevas são mais nossas do que dela...), os professores e artistas usavam as fontes cristãs e greco-latinas com a liberdade de quem realmente podia apropriar-se, sem falsos escrúpulos, do que lhes parecia inspirador.

Não era, portanto, imitação pura e simples, mas plágio criativo. No século XII, por exemplo, John of Salisbury ensinava explicitamente aos seus alunos que o segredo da filosofia e do escrever bem estava em ler os grandes mestres do passado e redigir como se os estivessem encarnando num novo contexto histórico.

Mais do que meramente copiar, o escritor prestava uma homenagem ao imitado, dizendo, nas entrelinhas, que só o imitava porque nele encontrara um valor... inimitável.

O poeta Décio Valente publicou em 1986 um livro intitulado O plágio, em que faz uma arguta, e por vezes paranóica... identificação de cópias conscientes ou inconscientes, voluntárias ou involuntárias, mal feitas ou magistrais, de pensamentos, versos, poemas inteiros, cópias realizadas por autores conhecidos ou desconhecidos, geniais ou medíocres.

Identifica, por exemplo, uma “semelhança” entre o poema Mãe Preta, de Augusto Linhares, publicado em livro em 1948, e o poema bem mais conhecido de Manuel Bandeira, Irene no céu, escrito provavelmente no final da década de 1920:

Irene no céu

Irene preta
Irene boa
Irene sempre de bom humor.
Imagino Irene entrando no céu:
— Licença, meu branco!

E São Pedro bonachão:
— Entra, Irene.

Você não precisa pedir licença.


Mãe Preta

Quando Dodora ao Céu chegar, é minha crença,e ao Chaveiro disser:

— Dá licença, meu Santo?
São Pedro, vendo-a, lhe dirá com certo espanto:
— Você, Dodora, não precisa de licença!...

E a porta lhe abrirá paternalmente.

E ela,para de todo ser feliz numa tal hora,seu cachimbinho acende.
Acende-o numa estrela;
mas São Pedro lhe diz:
— Não, aqui não, Dodora...


A semelhança foi procurada, e, mais ainda, o segundo poeta quis dialogar com o poema de Bandeira, trazendo, com uma ponta de ironia, o desfecho em que o branco volta a cercear a mãe preta, e lhe rouba o prazerzinho de fumar seu cachimbo.

Em outro momento, Décio Valente cita a si mesmo, mostrando que um pensamento de um livro seu — “As amizades são como porcelanas: para que durem muito, pouco nos devemos servir delas” — teria surgido dez anos depois numa quadrinha de Mário Quintana:

Olha! É como um vaso
de porcelana rara o teu amigo.
Nunca te sirvas dele... Que perigo!
Quebrar-se-ia, acaso...

Há semelhança, sem dúvida, mas não parece tão incomum assim comparar a amizade à porcelana. Se Quintana leu o livro de Décio e ficou-lhe gravada a imagem, ou se concebeu esta metáfora devido a outras razões e devido a outras influências, temos de admitir que o poeta gaúcho apropriou-se da idéia original com seu estilo inconfundível e até melhorou a forma de expressá-la!

Na verdade, o escritor que procura, desesperadamente, dizer o que antes jamais se disse não conseguirá atingir esse objetivo, mesmo que se isole do mundo, e não leia mais nada, e não converse com mais ninguém. Desconhecer o que já foi feito será a única forma de iludir-se, de pensar que é totalmente original, que nada deve ao passado e... ao presente. Contudo, não conseguirá evitar, afinal, que em seu texto sejam identificáveis o pouco que leu ou ouviu em sua vida e, sem querer querendo, acabou imitando.

Se você quiser ofender um escritor com essa obsessão pela originalidade, diga-lhe que é um plagiador, que aquela passagem no seu texto é muito parecida com o que você leu em outro autor. Estamos às vezes de tal forma obcecados pela idéia de que a originalidade consiste em fazer coisas absolutamente novas, que mal nos damos conta de que também não é nem um pouco original pensar assim, na medida em que muitos pessoas “originais” vivem pensando que são originais!

Eu defendo, porém, o plágio criativo, com o qual “roubamos” da seara alheia (de autores conhecidos ou não) algo que pode tornar o nosso trabalho mais fértil e promissor. Mais ainda: devemos ser tão bons ladrões que ninguém perceba que fizemos com o alheio algo melhor. O plágio criativo perfeito é quando o roubo é seguido de assassinato, e nem precisamos citar a vítima, cuja alma absorvemos e cujo corpo escondemos dentro do nosso próprio texto.

O plágio criativo é uma imitação inteligente de versos e metáforas, de idéias e frases, de resultados e conclusões de outros autores, e, devo esclarecer, esse processo criativo é utilizadíssimo pelos grandes escritores, que são ao mesmo tempo grandes leitores e descobriram o óbvio: nada existe de novo sob o sol... frase que o autor do Eclesiastes deve ter copiado de algum outro escritor.

Mário de Andrade “confessou” ter roubado inúmeras idéias de vários autores (e alguns trechos desses autores, textualmente) ao escrever Macunaíma, uma vez que toda a escrita, para ele, se construía como uma apropriação sem reservas do patrimônio cultural disponível.

T.S. Eliot retomava expressões e versos inteiros de outros escritores, inserindo-os em sua obra, e com eles criou uma poesia das mais originais do século XX e de todos os tempos.

Gilberto Mendonça Telles tem um livro muito interessante sobre como há na produção literária brasileira muitos trechos da (ou alusões à) obra de Camões, consciente ou inconscientemente assimilada pela leitura.

Podemos, claro, falar que tudo isso é reelaboração, paráfrase, (re)invenção e outros procedimentos do que se convencionou chamar “intertextualidade”. Mas eu gosto mesmo é da expressão plágio criativo. Expressão que roubei de alguém... cujo nome esqueci.

Portanto, para sermos originais, façamos o trabalho dos plagiadores! Conheçamos a fundo aquilo que lemos, ou aquilo que já imitamos sem pensar. Roubemos o que é de todos! Ou o que parece ser de um só. Mas dando a esse “roubo” um toque pessoal.

E podemos ir ainda mais longe, sistematizando-nos. Leiamos textos criados pelos profissionais do jornalismo, da crônica, do ensaio, da poesia, do teatro. Colecionemos frases, repitamos mentalmente essas frases, a tal ponto que não saibamos ao certo se são nossas ou de outros. Usemos o que existe de melhor em cada um dos autores que lemos, acrescentando a esse material a nossa personalidade e produzindo algo original... até para nós mesmos.

Estamos, na verdade, falando de administração de influências. E influência é o que flui para dentro de nós, e de nossa fala, e de nossos textos.

Administrar bem as influências exige três atitudes: aceitar as influências inevitáveis, provocar novas influências e selecionar influências especiais.

Aceitar as influências inevitáveis é conseguir olhar com bom-humor aquilo que, vamos dizer assim, inocularam em nós, aquilo que bebemos no leite materno. Aceitar como um fato. Certa vez, perguntaram a João Cabral de Melo Neto se ele tinha medo da morte. Ele respondeu que sim, e que esse medo estava associado às idéias de céu, inferno e purgatório que os irmãos maristas lhe tinham transmitido no tempo do colégio. O entrevistador insistiu: “Não acha tudo isso uma grande ingenuidade?” E o poeta, já naquela altura totalmente cego, respondeu, com um sorriso: “O que é que eu posso fazer? Foi uma influência que recebi na minha infância e que não superei até hoje.”

Não superou e não tinha por que superar. Porque não podemos superar o que é a base das nossas possíveis superações. Há em nós algo de imóvel e de fundamental que recebemos nos primeiros anos de vida. É o chão, o básico, sobre o qual poderemos construir nossa vida, mas do qual não podemos nos separar. Podemos criticar, podemos amaldiçoar, mas aí está, é a nossa influência fundamental, que permaneceu em nós como que “grudada” ao nosso ser, aos nossos genes, à nossa alma.

Nós não começamos do zero. Há uma estrutura inicial que recebemos e com a qual precisamos lidar. Quando olhei para mim, encontrei alguém que já estava ali! Alguém que, antes de mais nada, recebeu um corpo, ou melhor, que é um corpo; alguém que descobre em si mesmo uma série de inclinações temperamentais, e que logo, desde os primeiros meses, recebeu uma formação inicial, proveniente do ambiente familiar.

Esse alguém sou eu, e com esse eu... tenho que começar a conviver conscientemente, construtivamente.

As primeiras pessoas com quem nos relacionamos foram as primeiras a nos influenciar, e essa influência já representa um forte “ingrediente” a atuar em nossa vida. Mas há outros! A casa ou as casas em que morávamos, e a vizinhança, e a classe social em que nossa família foi incluída pelos economistas e especialistas em estatísticas; a região geográfica em que nascemos, em que aprendemos a andar, e, de modo extremamente relevante para nós, a língua com que tivemos o primeiro contato e na qual nossa mente encontrou, encontra, encontrará sempre os elementos (e os “alimentos”) necessários para desenvolver-se semanticamente, sintaticamente, com todas as limitações e alcances que cada idioma possui.

O idioma materno — não à toa utilizamos esse adjetivo — gera o nosso modo de falar, gera o nosso modo de entender o mundo e falar de nós mesmos, e entender a nós mesmos. Nele estão nossas raízes. Dele nos alimentamos. O poeta espanhol Juan Ramón Jiménez referia-se não apenas ao idioma materno, mas ao “español de mi madre”, porque aprendemos a ler e escrever desde o berço, desde os primeiros diálogos com a mãe, com o pai, com os parentes mais próximos.

Por mais idiomas que uma pessoa domine, nunca deixará de ter uma única língua, a língua que lhe foi ensinada pelos primeiros professores, os pais; língua que lhe permite aprender as outras! A língua materna, cujos sons, pele e perfumes são únicos e intraduzíveis, são a referência, eis a primeira grande influência que recebemos. Um idioma não apenas diz o que diz... mas é a melhor forma com que eu posso dizer o que sinto, o que sei, o que sou. Ou, como brincava Nelson Rodrigues — “eu sou monogâmico: só sei a minha língua.” Na realidade, só podemos saber a fundo, para valer, uma única língua. A nossa. E só nos sabemos nós mesmos mediante essa língua, mergulhando nessa língua.

Na língua materna estamos livres e presos. São as nossas asas, das quais não podemos nos livrar e só com as quais podemos voar. Na língua materna as palavras têm os sons que nos fazem entender mais profundamente o que está sendo dito. Sonhamos no idioma materno. Amamos no idioma materno. Morremos no idioma materno.

O filósofo Martin Heidegger, atentíssimo à questão da linguagem, explicava que o idioma é o ser, a casa do ser, e que, para ele, as coisas respondiam ao nosso chamado, como se fossem animais ou pessoas reconhecendo o uso do nome certo. Por isso a necessidade de mergulharmos em nosso idioma para podermos reconhecer a realidade circundante, e, assim, poder estudar uma ciência, escrever um poema e, prosaicamente, pedir, por exemplo, à mesa, que alguém nos aproxime uma travessa de salada ou a jarra de vinho.

O idioma é a carteira de identidade de uma pessoa. E quem escreve precisa tomar consciência de que nós somos aquilo que falamos-lemos-escrevemos e que toda a nossa vida consiste em aprender o nosso idioma, apaixonar-se por ele, respeitá-lo, ter com ele intimidade autêntica, para, nele, enxergar a realidade com mais clareza, comunicarmo-nos com os outros, expressar nossas idéias e perplexidades, nossas alegrias e dores, “morar” e “viajar” neste mundo com pleno direito.

Neste ponto, é inevitável referirmo-nos ao dicionário, aquisição necessária para quem vive de palavras, para quem lida com palavras, para quem ama as palavras.

O dicionário é pai dos inteligentes, daqueles que sabem que cada palavra tem a sua abrangência, o seu matiz, a sua personalidade. Uma porta aberta não é a mesma porta que está escancarada. Um homem hirsuto não é exatamente um homem zangado. Até aquela flor que denominamos bem-me-quer diferencia-se de si mesma quando a chamamos, também legitimamente, de malmequer...

O dicionário é fonte de inspiração, reflexão e ampliação da nossa consciência dentro desse “país” lingüístico, cujas fronteiras estão nas almas mais do que nos mapas.

O pensador Ralph Emerson afirmava que nenhum dicionário é ruim. Todos trazem a matéria-prima dos poemas e histórias que serão escritos. Nesse reino democrático das palavras (a única hierarquia é a ordem alfabética), mergulhamos como sedentos pescadores de conceitos e sentimentos que foram designados em nossa língua materna.

Em nossa língua, como em cada língua em particular, vamos perceber novas possibilidades bem próprias de exprimir-nos, como o curioso uso elogioso do palavrão filho-da-puta, uma recente conquista que muitos de nós já incorporarmos. Pois é. Em alguns casos, filho-da-puta é um elogio, verdadeiro paradoxo que faz pensar: “O filho-da-puta não estudou o ano inteiro e mesmo assim passou no Vestibular!”

Conhecer o nosso idioma é uma responsabilidade. Um ato de verdadeira cidadania. E de crescimento cultural e pessoal. Temos a responsabilidade de aceitar, aceitar é pouco — temos a responsabilidade de tocar e degustar o idioma em que surgimos a fim de criar um “idioma pessoal”, toque e degustação que se materializam em colocar “a mão na massa” para vencer a distância entre o que devemos ou queremos escrever (a carta, o romance, a redação, o diário, o testamento, a crônica, o relatório, a monografia, o relato de uma viagem, a autobiografia etc.) e o próprio idioma nacional.

Pôr a mão na massa consiste em familiarizar-se com a linguagem, com as palavras, com os significados e sentidos das palavras. A “massa” do escultor é o mármore, o bronze, o barro. A “massa” do pintor são as cores. A “massa” de um músico são os sons do seu instrumento. A “massa” do dançarino é o seu próprio corpo. A “massa” de quem escreve é a linguagem, as muitas palavras que estão no dicionário, e as que não estão ainda, ou dele deixaram de constar por algum motivo.

A palavra não cria as coisas do nada. Mas retira, sim, as coisas da sombra, do esquecimento, do exílio, ou do passado, ou do futuro. As palavras são embaixadoras da realidade. Trazem todo o universo para sentar-se ao nosso lado. Trazem reinos, aves exóticas, peixes monstruosos, estrelas do céu, flores de aromas impensáveis, anjos, demônios. Falamos a palavra, e o universo responde ao chamado, e os mortos ressuscitam, e nós nos iluminamos.

Devemos aceitar e abraçar o nosso idioma como um náufrago se abraça a um pedaço de madeira salvadora... Não, a imagem é ruim. Poderia parecer que o idioma é uma simples tábua de salvação, que abandonaremos tão logo apareça coisa melhor e mais segura, de preferência um belo navio em direção às ilhas gregas!

Devemos abraçar nosso idioma como a uma realidade pessoal e transpessoal, em que estão “arquivadas” as experiências e concepções de nossos antepassados. Em que estão nossos próprios antepassados. Pois são eles que nos influenciam. Pois foram eles que criaram coletivamente o idioma em que aprendi a falar “mamãe”, “agora”, “não quero”. Nós somos o que disseram antes de nós, o que está “gravado”, coletivamente memorizado nos provérbios, nas frases cheias de sabedoria, nos contos populares, no folclore, na literatura, nos textos todos, jurídicos, religiosos, burocráticos, científicos, históricos etc. Aí estão as nossas verdades... e as mentiras nossas.

Uma vez que o idioma é uma realidade inevitável em nós, pois dele precisamos e nele, desde os primeiros momentos de vida, começamos a forjar nossa maneira de dizer e desdizer tudo, cabe-nos a tarefa de incorporá-lo livremente. Ou seremos exilados em nossa própria terra!

Mas à medida que vamos tomando consciência de nossa realidade, descobrimos de imediato uma lei da vida, que o filósofo espanhol Julián Marías expressa da maneira mais simples e objetiva possível: “A vida faz-se para frente.”

Isto significa que estamos instalados no tempo, numa realidade que flui. De repente, o chão se torna trampolim. Eu posso projetar-me para o futuro. Provocar novas influências, permitindo-me experiências que vão enriquecer (ou não) minha maneira de ser.

Para quem escreve, a experiência por excelência é a da leitura.

Sim, sem dúvida, quem sou eu para negar que a experiência da vida é que é fundamental? Primeiro viver, depois ler! Mas na leitura meditada é possível realizar descobertas que a vida, em sua fluidez, nem sempre nos permite experimentar. Na leitura é possível enriquecer nossa bagagem intelectual e moral com uma prática reflexiva, com um atinado conhecimento do mundo, de nós mesmos e dos outros que nem sempre encontra suficiente espaço e tempo em nosso dia-a-dia concreto.

Devemos observar, porém, que esse diálogo com bons livros e bons autores, que poderia restringir-se a uma experiência solitária, particular e passageira, que poderia restringir-se a uma experiência fechada num “mundo de papel”, como diz o crítico de arte Benedito Nunes, amplia-se quando “voltamos”, renovando nossa visão do mundo real, ajudando-nos a redescobri-lo, a senti-lo e pensá-lo de uma forma menos rotineira e ilusória. A “mentira” do papel transfigura a verdade do mundo, tornando-a mais verdadeira.

Borges, um apaixonado incondicional da leitura, disse numa conferência, em 1978: “Se lemos um livro antigo é como se estivéssemos lendo durante todo o tempo que passou desde o dia em que esse livro foi escrito até o nosso momento presente.” Uma longa e intensa experiência! Ler, neste caso, é ganhar tempo, ganhar séculos de experiência, de vivência, de sabedoria. Um século se lemos Tolstoi, quatro séculos se lemos Shakespeare, vinte e um séculos se lemos Platão, e tudo isso em alguns meses.

Uma experiência intensa em virtude da qualidade dos textos, da sua relevância incontestável.

A leitura é, portanto, um tipo de influência que podemos (e devemos) provocar em nossa vida. Uma influência que recebemos de modo “seguro”, uma influência que recebemos na privacidade de quatro paredes, no silêncio de uma biblioteca, provavelmente sentados, sem derramamento de sangue, sem gastos econômicos excessivos. Mas, afinal, uma influência decisiva para o nosso aperfeiçoamento como pessoas, como seres pensantes, e como produtores eficazes de textos. Experiência perigosíssima... para a nossa mediocridade. Perigosíssima... para a nossa imaturidade existencial.

E vale a pena correr esse risco, para crescer, para tornar-se uma pessoa culturalmente, humanamente representativa.

Trata-se de uma influência que se recebe de modo voluntário e inesquecível.

O escritor Carlos Heitor Cony, por exemplo, tem um estilo agradável, tem uma conversa agradável, tem uma forma de ver o mundo agradável (mesmo que emita opiniões com as quais você ou eu não concordemos) porque leu grandes autores: Flaubert, Eça de Queirós, Balzac, Zola, Lima Barreto... Porque se predispôs a receber as palavras desses mestres, a conviver com eles, a receber de peito aberto influências deles, a dialogar com eles, a reutilizar suas palavras. Cony disse numa entrevista: “Condenei-me à leitura desde cedo, e o primeiro livro que me impressionou, que me deu vontade de tê-lo escrito, foi Memórias de um sargento de milícias, de Manuel Antônio de Almeida. Releio sempre, e sempre com prazer. Minha obra está toda marcada por ele.”

O plágio criativo, uma realidade literária. Uma necessidade, acrescentaria eu.

É extremamente conhecida aquela passagem inicial do primeiro poema do primeiro livro de Carlos Drummond de Andrade: “Quando nasci, um anjo torto / desses que vivem na sombra / disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.”

Passagem que marcou e inspirou pelo menos outros três poetas.

O poeta Torquato Neto: “Quando eu nasci / um anjo louco muito louco / veio ler a minha mão / não era um anjo barroco / era um anjo muito louco, torto / com asas de avião / eis que esse anjo me disse / apertando a minha mão / com um sorriso entre dentes / vai bicho desafinar / o coro dos contentes / vai bicho desafinar / o coro dos contentes.”

O poeta Chico Buarque de Holanda: “Quando nasci veio um anjo safado / O chato dum querubim / E decretou que eu tava predestinado / A ser errado assim / Já de saída a minha estrada entortou / Mas vou até o fim.”

E a poeta Adélia Prado, no primeiro poema do seu primeiro livro: “Quando nasci um anjo esbelto, / Desses que tocam trombeta, anunciou: / Vai carregar bandeira. / Cargo muito pesado pra mulher, / Esta espécie ainda envergonhada.”

E o que há de comum em todos eles, incluindo Drummond?

Que, sabendo ou não (ou sabendo com maior ou menor consciência), estão todos plagiando criativamente (inquirindo, transgredindo, relendo) a Anunciação descrita no início do Evangelho de São Lucas — um anjo, um arcanjo, desses que vivem na luz, disse a Maria: “Ave, gratia plena!” —, com a boa notícia da Redenção, uma cena que, por incrível que pareça, é também ela mais um plágio criativo, uma recriação (e uma contestação) da anunciação tentadora do anjo-serpente (desses que vivem rastejando...). No início dos tempos, este anjo de falsa luz procurou a primeira mulher, Eva, a mãe de todos os viventes, e lhe sussurrou: “Salve, Eva... E como és bela, cheia de graça! Porém mais bela e graciosa serás quando teus olhos enfim se abrirem! Tu serás como Deus... caso tenhas a coragem de desobedecer ao Deus invejoso, ao Deus que não quer que evoluas!” Interpretação que os antigos teólogos corroboram, afirmando que “Ave fit ex Eva”, ou seja, que a saudação latina Ave provém do nome Eva, deliberada inversão de letras para provar que a história da humanidade recomeçava naquele segundo momento, na pequena cidade de Nazaré.

A cultura literária é uma das melhores influências que podemos provocar em nós mesmos, e praticamente a única se quisermos escrever com mais segurança, com mais agudeza. Cultura é cultivo, é cultivar-nos, é receber de bom grado e desenvolver em nós o que outras pessoas já pensaram, já disseram, já escreveram. A formação cultural é a condição para desenvolvermos nossos talentos adormecidos, nossas inclinações ainda mal conhecidas, nossos raciocínios ainda esboçados, nossa criatividade talvez um pouco tímida, nossa originalidade necessitando crescer em intensidade.

Cultura é conhecer os cardápios e repertórios disponíveis no horizonte das produções musicais, pictóricas, cinematográficas etc. Um ouvido educado sabe apreciar os sons que instrumentos diferentes produzem, e distingui-los dentro de uma composição musical: o som de um oboé, de um trompete, de um clarinete. E um olfato educado sabe avaliar múltiplos perfumes, e um paladar educado está preparado para saborear os mais bizarros gostos, e uma visão educada sabe discernir diversos estilos da pintura, enfim, são todas essas conquistas sensoriais verdadeiras conquistas culturais de quem se deixa influenciar por bons perfumes, bons pratos, bons quadros, e, indo mais além, procura pessoas que lhe abram novas trilhas intelectuais, ensinando-lhe sobre temas tão díspares como a arquitetura judaica e o golfe, sobre o cinema indiano e a história dos persas.

Um leitor treinado, cujos olhos foram educados para ler o que há de melhor, forma seu senso crítico, sua capacidade de pensar o mundo, e, sobretudo, em termos práticos, qualifica-se para escrever melhor, para escrever textos que valham a pena ser lidos do ponto de vista da forma e do conteúdo, e que dêem, afinal, a necessária continuidade à tradição cultural de que se beneficiou.

De que se beneficiou e que agora constituirá fonte de elementos para o jogo do estilo, em que as citações ocultas, as referências cruzadas e o reaproveitamento inteligente são regras aceitas com toda a naturalidade.

As regras do plágio criativo. Que estão muito claras para os grandes escritores, todos eles cientes e conscientes daquele dogma que o crítico norte-americano Harold Bloom soube consignar numa frase contundente: “A grande escrita é sempre reescrita”, e que podemos colocar ao lado de outra frase, da autoria de Salvador Dalí: “De quien no quiere imitar a nadie, no sale nada.”

Neste ponto vale a pena recordar um exercício literário aberto de plágio criativo que o já falecido Osman Lins propôs, entre 1960 e 1970, a outros importantes nomes da nossa literatura. Tratava-se de escrever novas versões ao conto Missa do Galo, de Machado de Assis. O desafio foi lançado e o livro, publicado. Escreveram, entusiasmados pela proposta, Nélida Piñon, Lygia Fagundes Telles, Autran Dourado, Antonio Callado, Julieta de Godoy Ladeira, e o próprio Osman Lins, que explicou no prefácio a gênese de tudo:

Em 1964, eu Julieta de Godoy Ladeira combinamos escrever, cada um a seu modo, novas versões de um conto de Machado de Assis, considerado por todos autêntica obra-prima e cuja poesia, com o passar dos anos, parece intensificar-se: Missa do Galo. Havia exemplos semelhantes na pintura e na música: artistas retomando um tema já realizado por antecessores e desenvolvendo-o a seu modo. Também em literatura, são conhecidas, por exemplo, as inúmeras versões dos dramas gregos que, inspirados em Homero, chegam até os nossos dias, espelhando, sem perda da identidade, a visão e o modo de operar de escritores muito distanciados entre si no espaço e no tempo. Mas o que eu planejava era algo diferente. Imaginava um certo número de ficcionistas, cada um deles aceitando o desafio de refazer, com maior ou menor aproximação, o texto machadiano, que sabíamos insuperável.
(*)


Este é o plágio criativo explícito, que nas mãos de artistas da palavra gerou outras pequenas seis obras-primas, todas devedoras ao original, talvez um pouco ansiosas, mas ao mesmo tempo gratas ao texto mais forte, o de Machado. Devedoras (quase escrevi... devoradoras) como todos os textos o são, mas que nem sempre pagam ao modelo, ou aos modelos, o mesmo tributo. Em outras palavras, todos dependemos daquilo que foi escrito (especialmente do que foi bem escrito) e todos, mal ou bem, copiamos e recopiamos o que outros, mais brilhantes do que nós, ou mais lúcidos do que nós, ou mais engenhosos do que nós, já escreveram.

Mas nada de sentimentos de inferioridade! A diferença fundamental entre o que se fez e o que fazemos reside no resultado final. Se há no que escrevemos talento ou não, investimento pessoal nosso ou não.

E, só para arrematar melhor a idéia do tributo, quando plagiamos um grande escritor... não o estamos roubando mas pagando o justo preço da homenagem, porque o grande escritor sempre será grande, e o máximo que pode acontecer é que sejamos maiores do que, originariamente, estávamos destinados a ser antes de imitar um mestre.

Esta é, portanto, uma segunda maneira de administrar influências: provocarmos novas experiências, notadamente de caráter literário, impulsionados pela curiosidade intelectual, dialogando com o que já se escreveu, espelhando-nos nas descobertas verbais alheias, reutilizando-as com maior ou menor maestria, tendo insights que vão dos simples trocadilhos à criação de frases dignas de constar de um livro de citações.

Mas ainda há um terceiro tipo de influências a serem administradas, influências que poderíamos designar como influências-limite, e que extrapolam as naturais e culturais. São influências pelas quais optamos e que modificam radicalmente o rumo de nossas vidas. Influências decisivas, que “abalam” nosso modo de ser, e que só podemos chamar influências na medida em que as abraçamos com a plena liberdade de quem redescobriu seu destino. Influências pelas quais optamos, ainda que num quadro de fatalidades, ainda que sofrendo experiências involuntárias ou até indesejáveis.

Uma influência-limite é aquela que se dá no plano religioso, como a conversão arrebatadora de um Paul Claudel, que determinou sua produção poética numa linha católica transcendentalista; é aquela que se dá numa situação de grande risco, como a dramática passagem pelo campo de concentração de um Viktor Frankl, que, a partir do que sofreu e das pessoas que viu sofrendo e buscando um sentido para a vida, redefiniu sua maneira de encarar a psicologia, fundando a Logoterapia; é aquela que se dá numa circunstância de humilhação pública, como a prisão e os trabalhos forçados com que foi punido um Oscar Wilde, situação-limite que o fez escrever as páginas maravilhosas do De Profundis, reavaliando todo o seu comportamento anterior... em suma, estou me referindo a experiências que, assumidas com o peito aberto, promovem uma revolução interior e se refletem estilisticamente numa igualmente radical configuração da linguagem, no que diz respeito ao tom das descrições, da argumentação, da narração, no que diz respeito ao nível de compreensão do real, à escolha de palavras, aos pressupostos que dominam essa escolha, às intenções que orientam essa escolha.

Um outro tipo de experiência-limite — a que viveu Emil Cioran quando passou a morar na França e adotou o idioma francês para produzir sua obra. Cioran recusava-se a escrever em romeno, mesmo quando algum amigo se predispunha a traduzi-lo. Estava, desse modo, optando por uma quase que diria violenta influência. Embora confessasse sentir nostalgia dos sons da língua materna, respondia de maneira enigmática quando perguntavam de novo se não gostaria de escrever em romeno: “Non. J'ai besoin du français. Cette langue est pour moi une camisole de force” — ele tinha necessidade do francês como se precisasse de uma camisa de força! Para não enlouquecer... talvez?

Numa entrevista, dizia Cioran que, para ele, a língua francesa era uma disciplina mental imposta de fora, e que dela se utilizava para obter efeitos positivos de estilo. O idioma estrangeiro salvou o estrangeiro do delírio e da loucura: “É verdade que esta língua não condiz com a minha natureza, mas me ajudou no plano psicológico. O idioma francês tornou-se uma língua terapêutica.” Esforçando-se para pensar em francês, teve que ser exigente consigo mesmo, teve de reescrever seus livros muitas vezes, desconfiar de si mesmo a cada palavra, a cada frase, a cada aforismo, e consultar o dicionário, e pedir ajuda a outras pessoas, sem poder contar com a “facilidade” que o idioma natal poderia conceder-lhe. E assim acabou por se tornar um escritor francês, “roubando” o título de outros muitos franceses que, talvez, precisassem aprender romeno (ou alemão, ou chinês...) para serem mais coerentes consigo mesmos, e menos estrangeiros no seu próprio idioma!

Essa experiência-limite é de todas a mais pessoal, e intransferível.

Trata-se aqui do tipo de influência que decorre de um exílio, de um contato próximo com a morte, com a doença, com a dor, influência decisiva que decorre de um encontro amoroso, que decorre de um encontro vivo com algo que atua nas entranhas, espada afiadíssima que corta em nós (definitivamente, quem dera!) pedaços inteiros de mediocridade.

José Ingenieres, no seu incômodo O homem medíocre, alude às pessoas que renascem dessas experiências, e se transformam, e conseguem resistir à tirania das engrenagens niveladores, resistir às coações, aos servilismos, à massificação, à despersonalização. Ou, dizendo de um modo positivo: a pessoa submetida a uma experiência determinante, sabendo extrair dela, mais do que uma simples lição, um modo mais lúcido de ver e viver, ganha em coragem, essa coragem que, no pensamento do poeta francês Lamartine, “é a primeira das eloqüências, é a eloqüência do caráter.”

Há dois livros de que gosto muito e trazem títulos muito parecidos: A coragem de ser, de Paul Tillich, e A coragem de criar, de Rollo May. Não são parecidos por acaso. Rollo May, psicanalista norte-americano, revela no prefácio que o título lhe foi sugerido “pelo livro de Paul Tillich [...], e é com prazer que lhe confiro esse crédito”. Mas, referindo-se ainda à coragem de ser, Rollo May explica também que é impraticável ser no vazio, e que ser criativo é o modo essencial de ser, o modo essencialmente humano, essencialmente nosso.

O problema é que, para sermos humanos, para sermos criativos, é exigida de nós a virtude da coragem.

Mais concretamente, falando dos artistas (puxando aqui a citação para o artista da palavra), esses dois livros me fizeram entender que escrever é um ato de coragem.

Coragem para criar e autocriar-se eloqüentemente, com palavras e nas palavras.

Uma autocriação que parte dos elementos vitais que somos chamados a aceitar. Elementos de três tipos. Os que praticamente temos de aceitar (como a cor dos olhos, a altura, a duração média da vida, as determinações genéticas, as circunstâncias físicas do lugar em que nascemos etc.). Os que podemos procurar (elementos disseminados e potenciados no panorama cultural disponível). E aqueles que vêm ao nosso encontro, estranhamente desejados por algo que em nós, silenciosamente, pede radicalidade, pede conversão, pede transformação profunda...

A partir desses elementos temos de cultivar a coragem de criar-nos e, simultaneamente, criar a nossa comunicação escrita. O que temos de aceitar, o que podemos procurar e o que vem ao nosso encontro são as realidades reais, são o texto da nossa vida que temos de transformar na vida dos nossos textos! Escrever corajosamente é construir um método pessoal para afirmar (sem vaidade, sem megalomanias) o nosso eu em forma de palavras.

Essa coragem não se fundamenta na força física, mas na convicção. A convicção é a melhor inspiração. Lembrando um diálogo que Sócrates manteve com dois generais, Nícias e Laques, a coragem, mais do que na guerra, é uma virtude importante na nossa luta interior, a que travamos todos os dias: a luta para vencer nosso medo de ser nós mesmos, de descobrir quem somos, de investigar o que podemos ser, e o que estamos convocados a ser.

Muitas pessoas desejam escrever, ameaçam escrever, sonham em escrever, juram de pés juntos que gostariam de escrever, avisam que num glorioso dia irão escrever... mas não escrevem.

O livro só vale se for escrito. E no livro só vale o que estiver escrito. Se um escritor precisa explicar o que disse, por que o disse, ou por que não disse o que pensou dizer... é porque o livro não se sustenta sozinho. Não passou de um esboço. De uma tentativa. Faltou aquela coragem existencial que transformar o desejo vago em realidade. Escrever é concretizar o potencial de quem escreve. Escrever não é vontade etérea mas fruto da dedicação de quem vai ao extremo de si mesmo.

Ebner, um pensador austríaco, dizia que o problema da filosofia moderna é que as pessoas sonham com a verdade, em lugar de procurá-la efetivamente, ilusão causadora desses terríveis divórcios entre cultura e ética, entre beleza e bondade, e que levavam, por exemplo, um oficial nazista a ouvir, embevecido, belas sinfonias depois de um dia de intenso “trabalho”...

Analogamente, há escritores que imaginam o seu texto mas não se comprometem com a realidade das palavras. Há escritores que vivem no talvez, no quem sabe, no possivelmente, paralisados pelo perfeccionismo, atitude mental inimiga da perfeição. Há quase-escritores que não compreendem o mais elementar dos princípios: para escrever é preciso escrever, sair de si mesmo e lançar-se no deserto do papel.

Escrever para valer é um ato de entrega.

Escrever com coragem é escrever com tudo, mesmo que tudo seja muito pouco, ou quase um nada.

Esse tudo e esse nada estão aí, são o campo à espera de nossa colheita criativa.

O escritor deve imitar todos os grandes contadores de história. A arte de contar exige a consciência de que cada palavra é importante. De que uma palavra fora do lugar pode estragar tudo. De que é preciso manter a palavra numa tensão perfeita, de modo que, no final, o sorriso (ou o riso... ou o choro) de quem ouviu a história seja o aplauso implícito, a evidente aprovação.

O escritor, como um pássaro oculto entre as folhas de uma árvore, observa o mundo e conta a sua história...

Era uma vez um macaco que resolveu tornar-se escritor.

Leu muito durante muitos meses, mas rapidamente percebeu que para ser um bom escritor precisava conhecer as pessoas. Por isso, começou a visitar todo mundo. Como era muito simpático, foi convidado para inúmeras festas e eventos, sendo sempre bem acolhido. Todos gostavam de ouvir sua conversa. E nunca lhe faltava assunto. Política internacional, nacional ou municipal. Arte clássica, moderna ou pós-vanguardista. Filosofia antiga, medieval ou contemporânea. Mostrava-se invariavelmente elegante, inteligente, brilhante. Sempre, é claro, com o intuito secreto de investigar a natureza humana e retratá-la em seus futuros livros.

Até o dia em que o macaco sentiu-se apto a escrever.

E resolveu fazer um romance em que haveria ladrões espertos, capazes de enganar o mais experiente detetive. Ao escrever, usava os detalhes do comportamento que registrara nas raposas, o modo como, sorrateiras, entravam nos galinheiros e levavam, em silêncio, o almoço seu e dos filhotes. No entanto, a uma certa altura, o macaco lembrou-se que as raposas da selva poderiam um dia ler o seu romance e, em especial, uma das raposas que sempre lhe servia maravilhosas canjas nos dias mais frios.

Resolveu interromper o romance.

Dias depois, no entanto, ocorreu-lhe outra história. Escreveria um conto cujos personagens seriam oportunistas e aduladores, seres repugnantes que tudo obtêm com aquele comportamento que ele observara tantas vezes em suas conversas com as serpentes da selva. O texto ia de vento em popa quando, subitamente, deu-se conta de que o conto, publicado, poderia cair nas mãos daquelas mesmas adoráveis serpentes que continuamente elogiavam as suas piruetas verbais, os seus brilhantes comentários...

O macaco resolveu abandonar este conto envenenado.

Semanas mais tarde, uma nova inspiração. E se escrevesse um poema satirizando as relações amorosas? Quantas e quantas vezes percebera que machos e fêmeas se uniam e logo que os filhotes estavam um pouco maiores se esqueciam um do outro em busca de outros enlaces conjugais passageiros... Como eram superficiais e levianos em seu amor! Começou a escrever o genial poema. Quase no final, porém, tomou consciência de que, divulgado este poema satírico, poderia revoltar mais da metade dos habitantes da selva e atrair-lhe o ódio de todos os que sempre o trataram com tanto carinho nas festas de casamento.

Desistiu do poema. E de muitas outras obras que ainda projetou escrever: um ensaio sobre o ativismo das abelhas, uma crônica que explorasse a obtusidade das toupeiras, uma peça de teatro que retratasse o indisfarçável mau humor das hienas... Contudo, sempre recordava, no melhor do texto, que os seus leitores poderiam reconhecer-se e sentir-se ofendidos, fechando-lhe para sempre as portas.

Num belo dia, o macaco quase renunciou a tornar-se escritor. Salvou-lhe a derradeira idéia. Escreveria sobre a arte de escrever, aconselhando outros macacos romancistas, poetas ou ensaístas a jamais deixarem de escrever uma linha do que tivessem concebido criar, ainda que sentissem medo da reação desfavorável dos futuros leitores.


Fonte:
http://www.hottopos.com/videtur18/gabriel.htm