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segunda-feira, 8 de abril de 2013

Realismo e Naturalismo - pesquisa


Trabalho de Literatura – Realismo/Naturalismo

1. Quais obras dão início ao Realismo/Naturalismo no Brasil? Quem são os seus autores?
2. Por que os artistas da época atribuíram à arte uma função social?
3.  Que diferenças existem entre o Realismo e o Naturalismo?
4. Explique por que o Naturalismo pode ser entendido como um aprofundamento do Realismo?
5. Leia atentamente o texto de Alceu Valença:   Como Dois Animais

Uma moça bonita
de olhar agateado
deixou em pedaços
o meu coração

Uma onça pintada
e seu tiro certeiro
deixou os meus nervos
de aço no chão

Foi mistério e segredo
e muito mais
foi divino o brinquedo
e muito mais
se amar como dois animais

Meu olhar vagabundo
de cachorro vadio
olhava a pintada
e ela estava no cio.

Era um cão vagabundo
e uma onça pintada
se amando na praça
como os animais

a) Você diria que o texto acima apresenta pontos comuns com o Naturalismo? Justifique sua resposta.

Leia o texto e responda as questões 6, 7 e 8.
"Mas o livro é enfadonho, cheira a sepulcro, traz certa contração cadavérica; vício grave, e aliás ínfimo, porque o maior defeito deste livro és tu, leitor. Tu tens pressa de envelhecer, e o livro anda devagar; tu amas a narração direita e nutrida, o estilo regular e fluente, e este livro e o meu estilo são como os ébrios, guinam à direita e à esquerda, andam e param, resmungam, urram, gargalham, ameaçam o céu, escorregam e caem..."
MACHADO DE ASSIS. Memórias Póstumas de Brás Cuba. In: Obra completa.
6.  Uma das mais evidentes características da ficção de Machado de Assis é a utilização da metalinguagem. O que vem a ser esse recurso? Exemplifique com o trecho.
7.  Como é a relação do narrador com o leitor, de acordo com o texto?
8. A ironia machadiana, tão celebrada, expressa-se também nesse trecho, através de uma certa visão do leitor e de seu gosto literário.
a)  Segundo o narrador, que preferências do leitor  o impediriam de gostar do livro?
b)  Essas preferências de estilo foram atendidas por que movimento  literário ironizado pelo narrador?

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

A literatura afro-brasileira e seu autor maior: Machado de Assis


Por Elizabeth R. Z. Brose





As noções de literatura afro-brasileira e de literatura negra são discutidas no Brasil há décadas, mas atualmente ainda são consideradas noções em construção no país. Conseqüentemente, os critérios para as seleções de textos literários afro-brasileiros também são variados. Um deles seria o da representação do negro no texto, seja na poesia, em peças teatrais e em narrativas, desde os relatos acerca do Novo Mundo até a literatura contemporânea. Outro critério seria o da cor da pele do escritor que poderia provocar a expressão de uma perspectiva negra e brasileira, caso o escritor assumisse publicamente a sua negritude. Por fim, a proposta deste trabalho é situar a obra de Machado de Assis na discussão sobre literatura afro-brasileira, fundamentando a resposta para essa pergunta nas pesquisas de Eduardo de Assis Duarte, publicadas no livro Machado de Assis: afro-descendente.


Representações do negro em História Geral das Guerras Angolanasem relatos António Oliveira Cadornega e na transcrição de uma carta da rainha Jinga

O objetivo primeiro da literatura de viagens é revelar todas as informações possíveis sobre os descobrimentos marítimos, tais como: registro de rotas, clima, descrição da costa, enfim, o que possa facilitar as próximas navegações. Além disso, os relatos de viagem esclarecem aos próximos viajantes os caminhos abertos por terra, os habitantes dos lugares desconhecidos, usos, costumes, flora e fauna. Do século XVI, o Roteiro da Primeira Viagem de Vasco da Gama, atribuído a Álvaro Velho fundamenta  o repertório de textos chamados de literatura de viagens, assim como a Carta a D. Manuel sobre o Descobrimento do Brasil, de Pero Vaz de Caminha, e História Geral das Guerras Angolanas, de António Oliveira Cadornega. 
Os relatos de viagem do historiador português António Oliveira Cadornega, datam do século XVII e discorrem acerca da colônia africana de Angola. Cadornega chega em 1639 em Angola e escreve as histórias que ouve e os acontecimentos que testemunha, além de transcrever documentos. Militar e negociante, ele coleta  informações que irão auxiliar a milícia e o comércio; e comunica os detalhes de instalações e de seus caminhos como em:  “passado este porto, fortaleza e cidade, está Catumbela das Ostras por haver muitas nesta paragem, e mangais, onde passa hum riacho, que ali mette no mar, vindo da terra dentro” (CADORNEGA, 1942, p. 179).
Da fauna, ele descreve os “animais ferozes que tem estes reinos, de suas naturezas e préstimos que em si encerrão” (p. 331). Afirma ainda que "têm estes reinos de Angola lioens, tigres e onças; há lions de casta real com gadelha na cabeça e maçaroca na cola como os da África, de que o Autor viu alguns neste reino" (idem).  A nota de rodapé da edição de 1942 explica a confusão que Cadornega faz, perpetuando a confusão sobre as faunas africana e asiática: "verifica-se que a confusão e erros de nomenclatura existentes no texto de Cadornega ainda hoje prevalecem. Nem o tigre nem a onça existem em Angola, nem sequer na África. São naturais da Ásia" (idem) Apesar de alguns deslizes, os relatos de Cadornega informam e auxiliam os negociantes, colonizadores, exploradores e as missões cristãs, pois o autor discorre também sobre as salinas, preços de mercadorias, povos que negociam, sobre o que é vendido, o valor das moedas, religiões, líderes, etc.
No texto escrito da perspectiva do europeu que tem como leitor os próximos viajantes, a representação do negro é tema que se inclui no contexto geral das terras descobertas; é uma personagem que está contida na paisagem local. Em seus três tomos da História Geral das Guerras Angolanas, o negro, seus hábitos e costumes são descritos de modo semelhante ao modo como trata da fauna e da flora, isto é, como objeto de um texto, em que se consideram mais as impressões do enunciador e os interesses do leitor europeu do que o objeto em si.
Na mesma obra, o historiador português transcreve documentos, um deles é uma carta de autoria da rainha Jinga - uma rainha africana, convertida e batizada como Anna pelos padres. A rainha falava português; liderava seu povo e vendia escravos para os portugueses. Na carta, ela explica as diferenças de comportamento entre os que vendem escravos, os que compram e o que é dito sobre eles.
Senhor:
Receby a carta de V. Sa. , aqual me entregou o Capitão Frois Peixoto, embaixador de V. Sa., e por ela vejo gosar V. Sa. Saúde, aqual nosso Senhor aumente por largos anos, com muita paz e quietação, como desejo para mim. (...)
Não podia V. Sa. mandar-me embaixador que mais me alegrasse, que o Capitão Manuel Frois Peixoto, por saber bem declarar-me tudo pela língua deste meu Reyno. Todos meus grandes estão contentes, que dizem que só ele me traz verdadeira, e fala verdade e tudo o que V. Sa. lhe ordena por seu Regimento e já me considero com a prenda que desejo e com muita paz e quietação esses dias que viver que já sou velha e não quero deixar minhas terras, senão minha Irmãa, não a meus escravos, que haverá muita ruína e não saberão obedecer a Sua Majestade, que Deos Grande, e como minha Irmãa o saberá fazer pois há tantos annos que assiste com os brancos e he tão côa christã como me dizem. (...)
Matamba minha Corte treze de Dezembro de mil seiscentos e cincoenta e cinco annos. R. D. ANNA
(in História Geral da Guerras Angolanas, António de Oliveira de Cadornega, Tomo II, pp. 500-503)

A rainha Jinga escreve “minha Corte”, referindo-se a um contingente de pessoas sobre a qual é soberana, sem que faça menção da cor. Ela se refere ao povo da Matamba como aquele que compõe “minha Corte”. Da perspectiva dessa carta de Jinga, brancos são aqueles com quem sua irmã passou anos, os cristãos; são aqueles que a enganaram com promessas de entrega da irmã, refém, em troca de centenas de peças, os  escravos. Ela espera ser atendida no momento que escreve, mas acredita ter o direito de suspeitar da sinceridade dos negociadores e propõe entregar 130 peças. Cem peças, ela entregaria adiantado. Ao ver sua irmã liberta, entregaria o restante. A rainha Jinga considera-se soberana no mesmo patamar de importância que os líderes portugueses. Assim como os súditos do Reino da Matamba equivaleriam aos subalternos portugueses. Negros ou brancos, ela os divide em fugidos, vendidos, compradores, negociadores, farsantes, honestos, desonestos, portugueses falantes de sua língua e assim por diante. 
O distanciamento de António Oliveira Cadornega afasta-o daquele sobre o qual trata, aquele que o português situa no cenário exótico. A rainha Jinga agrupa as pessoas brancas e negras sob o julgamento de “quem me quer mal”, fugidos e atrevidos, de um lado, e, de outro, fala como porta-voz de sua Corte sobre “minha gente bamza” e “Minha Corte de Matamba”.
Escravos vendidos de Angola são conduzidos às margens sul-americanas, trazendo repertórios de histórias em navios que ligavam costa a costa do Oceano Atlântico. Por isso, Câmara Cascudo (CASCUDO, 2001), escreve que a rainha Jinga chega ao nosso país no imaginário de africanos que formaram o atual universo simbólico afro-brasileiro. A literatura afro-brasileira se origina desse traslado de idéias, da tradução de uma língua para outra, do diálogo das narrativas intercontinentais e de perspectivas diferenciadas.


Por que a Literatura afro-brasileira ou negra seria hoje um conceito em construção?

Pesquisas de Eduardo Assis Duarte e sua equipe, assinalam, no portal da UFMG LITERAFRO, que a literatura afro-brasileira é um
processo e devir. Além de segmento ou linhagem, é componente de amplo encadeamento discursivo. Ao mesmo tempo dentro e fora da Literatura Brasileira. Constitui-se a partir de textos que apresentam temas, autores, linguagens, mas, sobretudo, um ponto de vista culturalmente identificado à afro-descendência, como fim e começo. Sua presença implica redirecionamentos recepcionais e suplementos de sentido à história literária canônica. (LITEAFRO:2008)

O espectro constituinte da literatura afro-brasileira é amplo: temas, autores, estratégias, e, sobretudo, ponto de vista identificado com a afro-descendência. A seguir, na redação dos objetivos desse projeto de pesquisa, a adjetivação reduz o foco, pois a finalidade seria:
divulgar e estimular a pesquisa e a reflexão a respeito da produção literária dos brasileiros afro-descendentes. Lugar rizomático, elo e ponto de encontro. Mas, também, ambiente lacunar, feito de presenças e ausências, que adquire sentido pelo que apresenta e pelo que ainda está por vir e apresentar. Espaço em construção, aberto sempre a visitas e intervenções. (idem)

No artigo Literatura e Afro-descendência, Eduardo Assis Duarte, (LITERAFRO, 2008), procura as diferenças e semelhanças entre textos escritos por autores brancos e negros. Ele começa com a epígrafe de Roger Bastide: Não existe, na aparência, diferença essencial nos trabalhos dos brasileiros brancos e de cor. Mas justamente não passa de aparência, que dissimula no fundo contrastes reais.  Fernanda Arêas Peixoto explica em Diálogos brasileiros: uma análise da obra de Roger Bastide [i] que o francês se opôs à idéia de sincretismo como equivalência à de mistura, à de mosaico, ou seja, à idéia de que objetos discordantes coexistam.
Dessa perspectiva, Bastide desconstrói a relação de correspondência das entidades africanas e dos santos católicos, apresentando, por outro lado, a necessidade histórica de dissimulação de crenças dos africanos e de seus descendentes frente aos brancos. Para ele, a vinda de africanos ao continente americano não promoveu a formação de “ilhas culturais” africanas, mas, sim, propiciou o resultado atual de contatos culturais, cuja produção dissimula a diferença.
A partir da epígrafe, em que Bastide sugere contrastes reais dissimulados sob os textos escritos por negros e brancos sem diferenças aparentes, Eduardo de Assis Duarte define a literatura afro-brasileira. Para ele, “a literatura “negra” ou “afro-brasileira” passa necessariamente pelo abalo da noção de uma identidade nacional una e coesa” (LITERAFRO, 2008).
Essa falta de coesão seria o motivo de tantas omissões na historiografia literária brasileira que recusaria “muitas vozes, hoje esquecidas ou desqualificadas, quase todas oriundas das margens do tecido social.” (idem) A estética branqueadora ainda teria apagado deliberadamente os vínculos autorais ou textuais com a etnia africana, fomentando assim a idéia de miscigenação pelo apagamento da cor negra. Essa produção literária sofreu impedimentos de divulgação e de publicação e, por isso, as pesquisas atualmente precisam recorrer a textos inéditos, a pequenas edições ou a suportes alternativos.
O apagamento desses escritos da história da literatura ou a desvinculação da afro-descendência do autor ou do texto, resulta na ausência de uma seleção de obras literárias que consolidem os estudos da literatura afro-brasileira no país. Para Duarte,

tanto no passado quanto no presente, em virtude do número ainda insuficiente de estudos e pesquisas a respeito, apesar do crescente esforço nesta direção. A inexistência de uma recepção crítica volumosa e atualizada, bem como de debates regulares nos fóruns específicos da área de Letras, decorre desses fatores e também da ausência da disciplina “Literatura Afro-brasileira” nos currículos de graduação e pós-graduação da maioria dos cursos de Letras instalados no Brasil. Como conseqüência, mantém-se intacta a cortina de silêncio que leva ao desconhecimento público e vitima a maior parte dos escritores em questão. (DUARTE, LITERAFRO, 2008)

Exemplo desse silenciar, de acordo com a introdução de Maria do Carmo Lanna Figueiredo e Maria Nazareth Fonseca (FONSECA, 2002), seria a marginalização do mercado editorial de livros literários, cujos textos tornam-se espaços de resistência dos negros. Raras são as publicações consagradas como os Cadernos Negros[ii], com 30 anos de existência.
Por outro lado, desde os anos 1980, a historiografia literária tem discutido o corpus, os métodos e os pressupostos a partir das reflexões advindas do feminismo, do movimento negro e de grupos como o Quilombhoje. Duarte cita os principais nomes desse grupo de pesquisadores: Moema Parente Augel, Zilá Bernd, Domício Proença Filho, Oliveira Silveira, Oswaldo de Camargo, Luiza Lobo, Leda Martins, David Brookshaw.
Seguindo o pensamento de Eduardo Duarte, nota-se um conflito. Um dos empecilhos para a constituição de uma literatura afro-brasileira seria:

nossa constituição híbrida de povo miscigenado, em que linhas e fronteiras de cor perdem muitas vezes qualquer eficácia. As relações inter-raciais e interétnicas constituem fenômeno concernente à própria formação do Brasil como país. Ao longo de nossa história, o fenômeno da mistura de raças e culturas recebeu distintos tratamentos, indo da idealização romântica de uma terra sem conflitos ao mito da democracia racial, por um lado; e da condenação racialista típica do século XIX ao fundamentalismo de muitos segmentos contemporâneos, que rejeitam a mestiçagem e defendem a existência de uma possível essência racial negra, por outro. (idem)

Para o autor, somos híbridos e miscigenados, mesmo argumento já citado para justificar esse silenciar: sendo todos afro-brasileiros, o apagamento das diferenças na historiografia literária brasileira seria legítimo. Ainda para Eduardo Assis Duarte, sobrepondo critérios étnicos ou identitários ao da nacionalidade, “nossa literatura seria uma só”, pois ao fim e ao cabo “somos todos brasileiros”. E, se somos todos “um pouco” afro-descendentes, essa discussão não faria sentido. A literatura afro-brasileira não seria sequer uma noção em construção, e sim, nenhuma noção com fundamento.
Maria Nazareth Soares Fonseca escreveu no ensaio Poesia afro-brasileira – vertentes e feições (FONSECA, 2008) que os termos “literatura negra” e literatura “afro-brasileira” nomeiam

alguns tipos de produções artístico-literárias que podem estar relacionadas tanto com a cor da pele de quem as produz, com a motivação dada por questões específicas de segmentos sociais de predominância negra e ou mestiça, e com o fato de nelas serem trabalhadas, com maior intensidade, questões que dizem respeito à presença de tradições africanas disseminadas na cultura brasileira. (FONSECA, 2006)

Para a autora, há duas vertentes que decorrem “do modo como se ligam à temática negra ou afro-descendente” (idem). Uma enfrenta o preconceito contra os afro-descendentes e denuncia a exclusão, relacionando a obra literária com o ideário do escritor que se assume publicamente negro e herdeiro de uma história familiar com ascendentes escravos.
A outra vertente, também enfrenta o preconceito e a exclusão, mas procura detectar no texto os procedimentos que a escrita propõe para a oralidade e para os ritmos do corpo. Maria Nazareth Soares Fonseca informa que:
A discussão de aspectos da obra de escritores que, na época atual, elegem como tema de seus livros aspectos relacionados com as heranças africanas, percebendo-as num jogo intenso com outras tradições informa sobre tensões presentes em textos que, assumem a escrita, mas não pretendem silenciar a profusão de vozes que os invade, advindas dos estratos de predominância oral. Nesse sentido, a análise de algumas antologias literárias, construídas com o propósito de destacar a produção poética de escritores afro-descendentes brasileiros pode se mostrar como um caminho bastante eficaz para a investigação de textos literários que ainda circulam pouco nos meios acadêmicos e nos programas de literatura adotados pelas escolas. (idem) [iii]

E “o que seria a Literatura Negra sob a perspectiva semiótica, do dito e do não dito?” Essa é a pergunta-título do ensaio de Silvia Regina Lorenso Castro (CASTRO, 2008). A pesquisadora explica que, em A escrita e os excluídos, Alfredo Bosi (2002) considera escrever um ato de cidadania: tanto colocando o marginalizado como objeto da narrativa - tema, personagem ou situação narrativa – ou como sujeito - enunciador.
Para a autora, a semiótica procura o sentido que resulta da diferença entre dois termos ou mais, os quais estabeleceriam pelo menos relações mínimas. Sendo assim, a principal relação entre a literatura brasileira e a afro-brasileira seria que a segunda é silenciada e menos visível do que a primeira. A visibilidade da literatura brasileira e a falta de visibilidade da literatura afro-brasileira ou negra, para usar a expressão de Maria Nazareth Soares Fonseca (FONSECA, 2000), caracteriza a relação entre ambas, isto é, o que determina a relação entre as duas literaturas são a visibilidade e a ocultação de sua produção.
         Rompendo com essa invisibilidade, o movimento social negro brasileiro, nos anos 1970, denuncia publicamente as condições de existência do negro brasileiro. Em 25 de novembro de 1978, a mencionada antologia Cadernos Negros é publicada, tentando superar a geração mimeógrafo e, em 2007, comemora com a publicação do trigésimo volume a inclusão no debate acerca do racismo, da discriminação e do preconceito racial. Além do tema, outra característica constante dos Cadernos Negros é o fato de proporcionar a publicação coletiva como estratégia de resistência semelhante àquela usada nos quilombos com o intuito de oferecer “visibilidade dos autores e de textos afros” (Cadernos Negros, 2007, p. 11).
Visibilidade e invisibilidade são duas questões fundamentais da escrita afro-brasileira. Brookshaw (1983:152) trata das estratégias da ocultação da etnia na literatura ao escrever sobre as conclusões de C. L. Innes. Em primeiro lugar, o autor poderia esconder-se atrás de uma espetacular habilidade de escrita, criando obstáculos para que o crítico descobrisse sua origem. Em segundo lugar, o escritor afro-brasileiro poderia escrever com formas dialetais de nativos, com humor e ternura. A terceira opção seria protestar contra a linguagem e a forma literária de tradição européia.
         Dessas perspectivas, o estudo analisa obras literárias de escritores brasileiros e conclui que Machado de Assis teria produzido textos dissociados de suas origens étnicas; Cruz e Sousa teria feito referências camufladas através de símbolos; Tobias Barreto teria evitado o confronto com as origens raciais através de seu interesse pela filosofia alemã; Domingos Caldas Barbosa teria escrito como nativo, e, finalmente, as obras de Lima Barreto e Luiz Gama não teriam ocultado o protesto.
 

O que seria enfim um escritor afro-brasileiro?


Para definir a produção poética de escritores afro-descendentes brasileiros o investigador precisa de critérios referentes a esse autor adjetivado. Retomando o pensamento de Moema Parente Augel, escritores afro-brasileiros seriam os:
1.      escritores brasileiros que se nomeiam escritores negros, e que proclamam a literatura negra, isto é, afro-brasileira, ressaltando sua africanidade.
2.      são intérpretes e porta-vozes dos anseios, dos sentimentos e ressentimentos da maioria anônima dos brasileiros de origem africana.
A afro-brasilidade seria, então, segundo Moema Parente Augel, uma questão ligada aos estratos sociais, mas não idêntica a eles.  Sendo a cor da pele negra o critério que deflagra a noção de escritor afro-brasileiro, vejamos o verbete correspondente: o dicionário Houaiss explica que afro-brasileiro é o adjetivo que se refere concomitantemente à África e ao Brasil, que apresenta um amálgama das duas culturas, refere-se ao brasileiro de ascendência africana, e refere-se também ao negro brasileiro.
Já pardo é um vocábulo datado de 1526 que adjetiva o indivíduo filho de pai branco e de mãe preta (ou vice-versa); que ou aquele que descende de brancos e negros;  que ou aquele que apresenta traços das raças (sic) negra e branca; que ou aquele que não apresenta traços raciais definidos; mestiço de negro, índio ou branco, de pele morena clara ou escura; que ou aquele que tem cor parda, acastanhada. A afro-descendência não coincide, portanto, com a cor negra, o que resultaria em um vasto elenco de autores do repertório de obras como o da representação literária.
Contemporaneamente, acrescentaram-se dados e descobertas à discussão sobre raças humanas. Dois manifestos sobre raça, afro-descendência e racismo no Brasil foram publicados e divulgados amplamente em 14 de maio de 2008. Retiro e grifo da edição da Folha de São Paulo, caderno Cotidiano, páginas 4 e 5, os próximos trechos assinados, cada um deles, por centenas de intelectuais e líderes de movimentos populares e negros, e entregues ao presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Gilmar Mendes: 
Do manifesto intitulado Cidadãos anti-racistas contra as leis raciais:
Raças humanas não existem. A genética comprovou que as diferenças icônicas das chamadas raças humanas são características físicas superficiais, que dependem de parcela ínfima dos 25 mil genes estimados do genoma humano. A cor da pele, uma adaptação evolutiva aos níveis de radiação ultravioleta vigentes em diferentes áreas do mundo, é expressa em menos de dez genes! Nas palavras do geneticista Sérgio Pena: "O fato assim cientificamente comprovado da inexistência das "raças" deve ser absorvido pela sociedade e incorporado às suas convicções e atitudes morais. Uma postura coerente e desejável seria a construção de uma sociedade desracializada, na qual a singularidade do indivíduo seja valorizada e celebrada. Temos de assimilar a noção de que a única divisão biologicamente coerente da espécie humana é em bilhões de indivíduos, e não em um punhado de "raças".
Não foi a existência de raças que gerou o racismo, mas o racismo que fabricou a crença em raças. O"racismo científico" do século 19 acompanhou a expansão imperial européia na África e na Ásia, erguendo um pilar "científico" de sustentação da ideologia da "missão civilizatória" dos europeus, que foi expressa celebremente como o "fardo do homem branco". Os poderes coloniais, para separar na lei os colonizadores dos nativos, distinguiram também os nativos entre si e inscreveram essas distinções nos censos. A distribuição de privilégios segundo critérios etno-raciais inculcou a raça nas consciências e na vida política, semeando tensões e gestando conflitos que ainda perduram. (...)
(Cidadãos anti-racistas contra as leis raciais: 2008)

Do Manifesto em defesa da justiça e constitucionalidade das cotas, o quesito “Raça e inclusão” afirma que:
A parte do documento (citado acima) dedicada à genética é particularmente confusa e inútil, além de contraditória para os seus próprios objetivos. Seu interesse é minar a realidade da diferença entre os seres humanos pelo fenótipo e demonstrar a mestiçagem genética que caracteriza a todos nós. Com isso, pretendem invalidar a possibilidade de que se adotem cotas para negros nas universidades ao "demonstrar" que "cientificamente" não existem negros. Para tanto, passam a afirmar que há negros com carga genética mais européia que africana, obviamente, uma carga genética que não se revela na aparência física da pessoa.
(...) os defensores das cotas jamais falaram em raça no sentido biológico do termo. Somos nós que defendemos políticas públicas para a comunidade negra, que enfatizamos ser o racismo brasileiro o resultado histórico de uma discriminação dos brancos contra as pessoas de fenótipo africano.

O Alto Comissariado da Organização das Nações Unidas para a Eliminação do Racismo trabalha justamente nesta direção: a escravidão é considerada, como o Holocausto, um crime contra a humanidade imprescritível e por isso insta os países da diáspora africana nas Américas e no Caribe a desenvolver políticas de ações afirmativas para os descendentes de africanos escravizados.
Prestar conta do seu passado racista, colonialista e genocida diante dos escravizados e dos povos indígenas originários é uma discussão política que atravessa os cinco continentes (...)
(Manifesto em defesa da justiça e constitucionalidade das cotas: 2008)
         Os dois documentos, embora discordem quanto à política pública das cotas universitárias, concordam que o racismo existe no Brasil, e é praticado para determinar hierarquias sociais, financeiras, culturais, estéticas, etc. Sendo assim, a afro-brasilidade de autores e de suas obras centra-se na idéia de racismo e não de raça. O racismo, em uma família composta por múltiplas cores, pode ser sentido até pelo filho branco que esconde a identidade de sua família ou vice-versa como indicam as questões de visibilidade e invisibilidade.
         Então a visibilidade que é apagada ou revelada pelos autores e por suas obras literárias refere-se à identidade daqueles e com aqueles que sofrem o racismo, assumindo publicamente as conexões com a exclusão ou com o imaginário afro-descendente. Estaríamos assim mais próximos das questões que a literatura afro-brasileira suscita.
         Moema Parente Augel afirma que a representação da África na literatura brasileira representa a origem e também o sonho de evasão que Cuti evoca em seu poema “VentoVem da África/ soprando a gente por todos os poros do mundo/ Vem de lá/ Vem do chão/ do vulcão/ na maré/ esse vento de fé”(CUTI, 1982, p.46).  Para Augel, não é possível que se pense nação, identidade e pertencimento, sem que se pense em África. E isso inclui todos os brasileiros, não só os afro-descendentes.
 
E Machado de Assis com isso?

Machado era mulato, neto de escravos. Órfão, foi criado por uma mulher também mulata. Para sobreviver, Machado vendia na rua quitutes, que sua madrasta preparava. Assim cresceu aquele que mais tarde se intitularia de “um escritor caramujo”, ou seja, aquele que usou mais de dez pseudônimos, que jogou com a ironia e com o riso, que são procedimentos dissimuladores e não panfletários. 
Segundo Nei Lopes, em Dicionário Escolar Afro-Brasileiro, Machado de Assis estréia aos quinze anos na literatura pela mão do também afro-brasileiro, o editor Paula Brito, começando uma carreira duplamente promissora: a de jornalista e a de escritor. Machado nunca teve um escravo, não era rico ou descendente da burguesia, mas um funcionário que, pelo mérito de sua obra, convive de igual para igual com a elite do império. Em crônicas, ele chega a relatar que no dia 13 de maio festejou a abolição nas ruas.
As obras mais lidas de Machado de Assis certamente se utilizam de estratégias que, segundo Eduardo de Assis Duarte, compõem “uma literatura de brancos, uma literatura para os brancos” (DUARTE, 2008). Literatura, na fala de Duarte, é uma noção que integra o leitor à obra. O primeiro recenseamento feito no Brasil, por volta de 1876, aponta que 84% dos brasileiros eram analfabetos. A elite branca consumia seus textos e, por isso, o tema afro-brasilidade teria surgido apenas nas brechas do texto, de modo dissimulado  em obras publicadas inicialmente em revistas femininas.
Machado, o autor de Pai contra mãe, escrevia, portanto, para um pequeno grupo de alfabetizados, explicando vez por outra como viviam outros grupos sociais, como a  penúria levava um homem a caçar escravos fugidos e por que a Roda dos inocentes era uma solução para o filho que uma costureira e um rapaz sem profissão não poderiam sustentar.
Harold Bloom, pesquisador de Yale, reconheceu, ao ler obras de Machado de Assis, que elas constituíam a produção do maior escritor afro-descendente de todos os tempos e fariam parte de uma literatura acima das questões do racismo. Harold Bloom elencou a obra de Machado de Assis emGênio - Os 100 Autores Mais Criativos da História da Literatura, ed. Objetiva, 2002. Em entrevista ao jornal Folha de São Paulo, Caderno Mais, 27 de janeiro de 2008, também disponível no sitehttp://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs2701200808.htm, Harold Bloom conclui do que leu:
Eu tive uma grande surpresa quando li o cubano Alejo Carpentier (1904-1980). Pensei que ele fosse negro, porque questões de raça estão de alguma forma colocadas, mesmo de modo sutil e às vezes inconsciente, em "El Reino de Este Mundo" (1949). Já a literatura de Machado não traz traço algum de raça. Então pensei que ele era branco e Carpentier, negro. Curiosamente, ao final, descobri que se tratava do contrário. Machado foi o maior escritor "afro" que conseguiu escrever na língua do Novo Mundo sem trazer a questão da raça para seus textos. A sensibilidade que teve para ver uma certa decadência do homem define sua escrita. Não uma decadência do ponto de vista negativo, mas como um dado posto. E isso está acima da questão racial. (BLOOM, 2008)
Mas há muitos textos de Machado que são desconhecidos do público em geral -brasileiro e estrangeiro; por exemplo: as crônicas que tratam das condições de existência do negro. Elas foram recuperadas de jornais do século XIX, guardados na Biblioteca Nacional e em outros acervos e pesquisadas pelo autor do livro Machado de Assis afro-descendente. Nesse livro, Eduardo de Assis Duarte trata do envolvimento do cronista e escritor de Memórias Póstumas de Brás Cubas com a luta pelo fim da escravidão. Mesmo assunto de um dos capítulos do estudo de Raimundo Magalhães Júnior Machado de Assis Desconhecido, 1957.
         Em crônicas, Machado se utiliza de pseudônimos como Lélio, João das Regras, Policarpo, Dr. Semana e outros. Esconder sua assinatura é uma estratégia de proteção para seu cargo de funcionário público, já que ele era homem de confiança do governo imperial. Isto em uma época em que amigos do imperador foram demitidos por publicarem textos pró-abolição.
A crônica Duelo de Filantropia (DUARTE, 2007, p. 27) que se encontra sem assinatura nas edições Jackson e Nova Aguilar foi publicada pela primeira vez no Diário do Rio de Janeiro em 1864. O texto é um bom exemplo de como tratar o tema da escravidão. Dele extraímos o primeiro parágrafo para ilustrar:
Era um leilão de escravos. Na fileira dos infelizes que estavam ali de mistura com os móveis, havia uma pobre criancinha abrindo os olhos espantados e ignorantes para todos. Todos foram atraídos pela tenra idade e triste singeleza da pequena. Entre outros, notei um indivíduo que, mais curioso que compadecido, conjeturava à meia voz o preço por que se venderia aquele semovente. Travamos conversa e fizemos conhecimento; quando ele soube que eu manejava a enxadinha com que revolvo as terras do folhetim, deixou escapar dos lábios esta exclamação:
-Ah!
(...) É para a liberdade!  (ASSIS, in DUARTE, 2007, p. 27)
Por causa da sutileza das obras mais conhecidas e das estratégias de invisibilidade, o Movimento Negro, em 1930, avaliou o trabalho de Machado como uma obra em que as questões do negro estão ausentes. Em 2007, contudo, a pesquisa de Duarte afirmou o contrário.
Em outra crônica, sob o pseudônimo de Dr. Semana, Machado escreve sobre a prostituição exercida pelas mulheres escravizadas, o que era comum no período colonial e durante o século XIX. Fato este, que fundamentou o mito do erotismo exagerado de mulheres negras e mulatas. A crônica apresenta o apreço de Machado pelos pró-abolicionistas mesmo antes da campanha se fortalecer. Ele sublinha a louvável atitude do Sr. Dr. Miguel Tavares “contra as mulheres que forçam escravas à prostituição” e “seu principal objetivo era a punição dos traficantes. Um bravo ao nosso denodado colega” (MACHADO, in DUARTE, 2007, p. 30).
Outra característica da obra de Machado é a de não defender o racismo por meio da estereotipação do negro. Ao contrário, sua obra denuncia o racismo ao contar sobre as relações assimétricas entre escravos e senhores e as injustiças praticadas contra os negros. A conclusão de Duarte é que a obra de Machado mostra o negro como qualquer outro ser humano:
com altos e baixos, com verdades e com mentiras, com honestidade e com desonestidade, com ingenuidade e com esperteza, ou seja, alguém que é humano como qualquer outro ser humano, não é nem mais nem menos. Este é o ponto e já aí há uma distância enorme entre Machado de Assis e vários outros escritores da época que viam o negro como um ser humano de segunda categoria. Este é um ponto. Acho que ele dá um tratamento digno ao negro, ao escravo e vê inclusive em determinados gestos de rebeldia, ou de astúcia, do próprio escravo, como gestos de legítima defesa. Eu creio que neste ponto ele se destaca, porque é diferente de muitos, que inclusive faziam a campanha abolicionista, como Aloísio de Azevedo que, no seu livro “O cortiço”, coloca a negra de uma forma completamente estereotipada, que via o branco como uma raça superior. (idem)

Machado, por ter sido um excelente escritor, utilizou técnicas variadas e gêneros diversos para tratar da igualdade entre os brasileiros e dos abusos contra os afro-descendentes. Machado não elaborou personagens negras através de estereótipos. Foi um autor afro-descendente que escreveu contra o sistema escravista através de artigos, cuja visibilidade era mascarada por pseudônimos ou pelo anonimato. Tais textos, felizmente, estão sendo disponibilizados para o público, pois pesquisas recentes revelam o Machado de Assis escondido como um caramujo. A obra de Machado de Assis, portanto, é considerada afro-brasileira.






_______________________________________
[i] Roger Bastide (1898-1974) destaca-se como um dos integrantes da "missão francesa" trazida na época da fundação da Universidade de São Paulo ao estudar o Brasil por 16 anos.
[ii] Inicialmente com o título de Cadernos Negros, hoje a publicação denomina-se Cadernos negros: contos afro-brasileiros e Cadernos Negros: poemas afro-brasileiros.
[iii] Nazareth sugere três antologias para serem pesquisadas com pressupostos de simulação de oralidade na escrita: A antologia AXÉ, antologia contemporânea de poesia negra brasileira, org. Paulo Colina, 1982. Constam poemas de Adão Ventura (falecido em 2004), de Minas Gerais; Arnaldo Xavier (também falecido em 2004), da Paraíba; Oliveira Martins, do Rio Grande do Sul; Éle Semog e José Carlos Limeira, Rio de Janeiro; Abelardo Rodrigues, Luiz Silva, (Cuti), Geni Mariano Guimarães, José Alberto, Maria da Paixão, Mirian Alves, Oswaldo de Camargo, Paulo Colina e Ruth Souza, de São Paulo. 

  


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


AUGEL, Moema Parente. Geografias imaginárias: África na poesia afro-brasileira contemporânea. (no prelo). Cedido pela autora via e-mail em 04/05/2008. (Outras informações sobre o assunto em AUGEL, Moema. A imagem da África na poesia afro-brasileira contemporânea. Afro-Ásia. Salvador: Centro de Estudos Afro-Orientais (CEAO), Universidade Federal da Bahia (UFBa), 1997, nº 19/20, p. 183-199.)
BLOOM, Harold. Machado divertia-se a cada página. Folha de S.Paulo, São Paulo, 27 jan. 2008. Caderno Mais, p. 6 e 7.
BOSI, Alfredo. A escrita e os excluídos. In: Fórum Social Mundial, 2002, Porto Alegre. Comunicação apresentada no Fórum, 2002.
BROOKSHAW, David , Raça e Cor na Literatura Brasileira. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1983.
CADORNEGA, António de Oliveira de. História geral das guerras angolanas 1680-1681; revisão e anotações de Manuel Alves da Cunha. Lisboa: Agência Geral das Colónias, 1940-1942. - 3 vol.
CASCUDO, Câmara. Made in África: pesquisas e notas. São Paulo: Global, 2001.
Cadernos Negros n. 30, São Paulo: Quilombhoje, 2007.
Cidadãos anti-racistas contra as leis raciais. Folha de São Paulo, São Paulo, 14 maio 2008. Caderno Cotidiano, p.4.
CUTI. Batuque de tocaia. São Paulo: Edição do Autor, 1982.
DUARTE, Eduardo de Assis. Literatura e Afrodescendência. Capturado do Portal LITERAFRO do site da Universidade Federal de Minas Gerais em 20 de abril de 2008
___. Machado de Assis: afro-descendente. Belo Horizonte: Editora da UFMG, 2007.
___. Machado de Assis é clássico duas vezes. É clássico da literatura brasileira e é clássico da literatura negra. 9 set. 2007. Entrevista concedida a RCO. Disponível no sitehttp://www.pco.org.br/conoticias/especiais/entrevista/9_9_entrevista_assis.html. Capturado em 20 abril 2008.

FIGUEIREDO, Maria do Carmo Lanna; FONSECA, Maria Nazareth (orgs). Poéticas afro-brasileiras.  Belo Horizonte: Mazza: PUC Minas, 2002.
FONSECA, Maria Nazareth Soares. Poesia afro-brasileira – vertentes e feições. In: SOUZA, Florentina; LIMA, Maria Nazaré (orgs.). Literatura afro-brasileira. Fundação Palmares e Centro de Estudos Afro-orientais (CEAO), 2006; artigo também acessível nos sites das duas organizações citadas na referência bibliográfica.
___.Visibilidade e ocultação da diferença. In:___. Brasil afro-brasileiro, Belo Horizonte: Autêntica, 2000.
LOPES, Nei. Dicionário afro-brasileiro. Santo André: Selo Negro, 2006.
LORENSO, Silvia Regina Castro. Literatura negra sob a perspectiva semiótica: o dito e o não-dito. Estudos Semióticos, Número 2, São Paulo, 2006. Disponível emwww.fflch.usp.br/dl/semiotica/es. Acesso em 14 de abril de 2008
Manifesto em defesa da justiça e constitucionalidade das cotas. Folha de São Paulo, São Paulo, 14 maio 2008. Caderno Cotidiano, p.5
PEIXOTO, Fernanda Áreas. Diálogos brasileiros: uma análise da obra de Roger Bastide. São Paulo, Edusp/FAPESP, 2000.









Elizabeth R. Z. Brose é doutora em Teoria da Literatura, defendeu tese sobre obras do angolano Pepetela sob orientação da Profa. Dra. Regina Zilberman; participa do grupo de estudos interdisciplinares Educomafro da PUCRS, que elabora curso de pós-graduação sobre afro-brasilidades (www.pucrs.br/faced/educomafro). Este ensaio foi apresentado no SeminárioNacional de Literatura e História, ocorrido na FAPA, nos dias 29, 30 e 31 de maio de 2008. E-mail: ebrose@uol.com.br


terça-feira, 4 de outubro de 2011

Machado de Assis e Caixa Econômica - 150 anos



A Caixa Econômica Federal informa que suspendeu a veiculação de sua última peça publicitária, a qual teve como personagem o escritor Machado de Assis. O banco pede desculpas a toda a população e, em especial, aos movimentos ligados às causas raciais, por não ter caracterizado o escritor, que era afro-brasileiro, com a sua origem racial.

Por que estudar Literatura? Quem produziu  e aprovou a peça publicitária não conhecia a origem afro-descendente do autor?

Vale a pena assistir aos outros vídeos da Caixa 150 anos.

Após as críticas, sai o novo comercial da Caixa 


segunda-feira, 21 de março de 2011

Apimentadas 1


Capitu de verdade
Teria a mulher de José de Alencar traído seu marido com Machado de Assis?
Roberta Paixão

Capitu, a mulher com "olhos de ressaca", traiu ou não seu marido Bentinho? Mote do romance Dom Casmurro, de Machado de Assis, esse é o mais célebre enigma da literatura brasileira. Páginas e páginas de crítica já foram gastas na tentativa de esclarecê-lo. Aqueles que ficam com a resposta afirmativa aceitam as razões de Bentinho, que é o narrador do livro: seu filho não tem nada a ver com ele, mas é a cara de seu amigo Escobar. A semelhança seria a prova do adultério de Capitu. Em duas crônicas escritas na semana passada para um jornal paulista, o escritor Carlos Heitor Cony acrescentou lenha a essa fogueira. E que lenha! Segundo Cony, a traição do livro é baseada num episódio da vida do próprio Machado. Sua tese é de que o autor de Dom Casmurro cobiçou a mulher de um próximo, assim como o personagem Escobar, e com ela gerou um filho, que Cony identificou com as iniciais M. de A. "Eles tinham a mesma testa, o mesmo cabelo crespo e alguns tiques iguais", escreveu Cony, acrescentando que M. de A. sofria de epilepsia, como Machado. Desse modo, com uma única penada, ele não apenas teria resolvido o grande mistério de nossa literatura, como também exposto uma passagem escandalosa da vida do maior escritor brasileiro, um homem que primava pela discrição.
Nome aos bois – Para chegar a tais conclusões, Cony desenterrou fofocas quase esquecidas. Em seu primeiro texto, publicado na quarta-feira, ele disse ter recorrido a "crônicas daquele tempo". Citou como testemunhas o médico Afonso Mac-Dowell, que atendia vários acadêmicos, e o escritor Humberto de Campos. Mesmo utilizando o artifício das iniciais, ele dava a entender qual seria a identidade do tal filho misterioso: o diplomata Magalhães de Azeredo, pessoa a quem Machado dedicou uma amizade paternal. Mas num segundo texto, que foi publicado no sábado, Cony reconhece que sua fonte principal foi uma crônica do livro Diário Secreto, de Humberto de Campos. Cony diz que as iniciais podem não ser do diplomata, mas continua sustentando sua tese polêmica: o adultério de Dom Casmurro tem como fundamento experiências do próprio Machado de Assis. O que Cony não se atreveu a fazer foi dar o passo seguinte. Ou seja, dar nome aos bois e tornar ainda mais escabrosa toda essa história. Pois, se M. de A. não é Magalhães de Azeredo, só pode ser o escritor Mário de Alencar, filho do romancista José de Alencar e de Georgiana Cochrane. Em sua crônica, Humberto de Campos chega a escrever as iniciais do suposto marido traído: J. de A. Em outras palavras: dois dos principais literatos do século XIX teriam sido vértices de um triângulo amoroso. Se verdadeira a hipótese, não foi só no campo da literatura que o realismo de Machado deu cabo do romantismo de Alencar. O relacionamento entre Mário de Alencar, autor de pouca notoriedade, e Machado de Assis realmente era próximo. "Mário, que não se dava bem com José de Alencar, até se referia a Machado como pai em suas cartas", lembra o escritor Antonio Olinto, conhecedor da vida de ambos. Como ninguém vai se dispor a fazer um teste de DNA nos restos mortais dos escritores, a insinuação de Humberto de Campos, cacifada por Cony, dificilmente será provada. De qualquer forma, não deixa de ser uma ironia que se levante uma suspeita dessas em relação a Machado de Assis, um escritor que dizia que jamais escreveriam uma boa biografia sua, "porque ninguém é mais reservado nessa matéria do que eu".

                                  Humberto levantou a bola

Havia, realmente, nos dois, traços fisionômicos que corriam paralelos. E aquela afeição paternal de Machado de Assis, tão desconfiado nas suas amizades e, no entanto, tão ligado a M. de A., cuja presença na velhice não dispensava um só dia?

Meses depois, em uma das minhas visitas ao consultório de Afonso Mac-Dowell, meu médico e amigo, este me recebe exclamando:

– Se você chega dois minutos antes, encontraria aqui um colega seu, da Academia.

– Qual deles?

– O M... M. de A.

Sem a menor lembrança, no momento, das palavras de Goulart de Azevedo, falei-lhe do nervoso do M., o qual não saía à rua sem companhia de um ou dois filhos.

– Nervoso, só, não – atalhou o médico.

E com ares misteriosos:

– Eu lhe digo aqui com a devida reserva: o M. é epilético.

Essa informação pôs um raio de luz em minha dúvida. J. de A. jamais sofreu de epilepsia. Machado de Assis morreu dessa moléstia. Como explicar, pois, a epilepsia de M. de A.?

Mergulhei no oceano desse mistério, tateantes as mãos do meu pensamento. Dom Casmurro não será uma história verdadeira? Aquele amigo que trai o amigo, aquele filho que fica de uns amores clandestinos, não seriam páginas de uma autobiografia?

Trecho de crônica de Humberto de Campos, em que o autor insinua que Machado de Assis teve um caso com a mulher de José de Alencar

Revistas Veja 11/08/99

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Análise dos contos de Machado de Assis

1. São freqüentes na obra de Machado os temas seguintes: a relatividade dos conceitos morais; o tédio; a loucura; o adultério. De qual desses temas, na sua opinião, trata o conto lido?

2.  A narrativa de um conto pode ser linear ou não-linear. Qual foi a forma escolhida pelo autor?

3. Nas obras machadianas, encontramos duas características fundamentais do seu estilo: a metalinguagem (desvendamento do ato de escrever, ao longo da produção do texto) e a não confiabilidade do narrador (que ilude, provoca, desconcerta o leitor, em "conversas" em que muitas vezes ironiza suas expectativas).
a) Transcreva uma passagem em que o autor tenha utilizado da metalinguagem.
b) Em que pessoa é narrada a história? O narrador do conto é confiável? Ele tem visão global dos fatos e acesso ao estado mental das personagens? Comente.

4. As personagens criadas por Machado de Assis não são seres extraordinários nem procedem de maneira heróica. São homens e mulher comuns, dotados de sentimentos contraditórios, complexos, com qualquer ser humano real.
a) Machado desmascara também o jogo de relações sociais, enfatizando o contraste entre essência (o que os personagens são) e a aparência (o que os personagens aparentam ser). Analise as atitudes dos personagens que ilustrem essa característica.
b) O que sobressai no texto: a descrição do ambiente ou a análise psicológica da personagem?
c) No conto lido interessa mais o desenrolar dos acontecimentos ou interessam prioritariamente as reflexões a que o fato conduz o leitor? Explique.

domingo, 17 de outubro de 2010

O Julgamento de Capitu









quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Mil Casmurros - A leitura coletiva de Machado de Assis (clic)

sábado, 2 de outubro de 2010

Olhos de ressaca - Capitu (clic)



Leia os capítulos "Olhos de ressaca" e "O penteado" do romance Dom Casmurro de Machado de Assis e veja o trecho da minissérie "Capitu" de Luiz Fernando Carvalho.




CAPÍTULO XXXII / OLHOS DE RESSACA




Tudo era matéria às curiosidades de Capitu. Caso houve, porém, no qual não sei se aprendeu ou ensinou, ou se fez ambas as cousas, como eu. É o que contarei no outro Capítulo. Neste direi somente que, passados alguns dias do ajuste com o agregado, fui ver a minha amiga; eram dez horas da manhã. D. Fortunata, que estava no quintal nem esperou que eu lhe perguntasse pela filha.
--Está na sala penteando o cabelo, disse-me; vá devagarzinho para lhe pregar um susto.
Fui devagar, mas ou o pé ou o espelho traiu-me. Este pode ser que não fosse; era um espelhinho de pataca (perdoai a barateza), comprado a um mascate italiano, moldura tosca, argolinha de latão, pendente da parede, entre as duas janelas. Se não foi ele, foi o pé. Um ou outro, a verdade é que, apenas entrei na sala, pente, cabelos, toda ela voou pelos ares, e só lhe ouvi esta pergunta:
--Há alguma cousa?
--Não há nada, respondi; vim ver você antes que o Padre Cabral chegue para a lição. Como passou a noite?
--Eu bem. José Dias ainda não falou?
--Parece que não.
-- Mas então quando fala?
--Disse-me que hoje ou amanhã pretende tocar no assunto; não vai logo de pancada, falará assim por alto e por longe, um toque. Depois, entrará em matéria. Quer primeiro ver se mamãe tem a resolução feita...
-- Que tem, tem, interrompeu Capitu. E se não fosse preciso alguém para vencer já, e de todo, não se lhe falaria. Eu já nem sei se José Dias poderá influir tanto; acho que fará tudo, se sentir que você realmente não quer ser padre, mas poderá alcançar?... Ele é atendido; se, porém... É um inferno isto! Você teime com ele, Bentinho.
--Teimo- hoje mesmo ele há de falar.
--Você jura?
--Juro. Deixe ver os olhos, Capitu.
Tinha-me lembrado a definição que José Dias dera deles, "olhos de cigana oblíqua e dissimulada." Eu não sabia o que era obliqua, mas dissimulada sabia, e queria ver se podiam chamar assim. Capitu deixou-se fitar e examinar. Só me perguntava o que era, se nunca os vira, eu nada achei extraordinário; a cor e a doçura eram minhas conhecidas. A demora da contemplação creio que lhe deu outra idéia do meu intento; imaginou que era um pretexto para mirá-los mais de perto, com os meus olhos longos, constantes, enfiados neles, e a isto atribuo que entrassem a ficar crescidos, crescidos e sombrios, com tal expressão que...
Retórica dos namorados, dá-me uma comparação exata e poética para dizer o que foram aqueles olhos de Capitu. Não me acode imagem capaz de dizer, sem quebra da dignidade do estilo, o que eles foram e me fizeram. Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o que me dá idéia daquela feição nova. Traziam não sei que fluido misterioso e enérgico, uma força que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca. Para não ser arrastado, agarrei-me às outras partes vizinhas, às orelhas, aos braços, aos cabelos espalhados pelos ombros, mas tão depressa buscava as pupilas, a onda que saía delas vinha crescendo, cava e escura, ameaçando envolver-me, puxar-me e tragar-me. Quantos minutos gastamos naquele jogo? Só os relógios do céu terão marcado esse tempo infinito e breve. A eternidade tem as suas pêndulas; nem por não acabar nunca deixa de querer saber a duração das felicidades e dos suplícios. Há de dobrar o gozo aos bem-aventurados do céu conhecer a soma dos tormentos que já terão padecido no inferno os seus inimigos; assim também a quantidade das delícias que terão gozado no céu os seus desafetos aumentará as dores aos condenados do inferno. Este outro suplício escapou ao divino Dane; mas eu não estou aqui para emendar poetas. Estou para contar que, ao cabo de um tempo não marcado, agarrei-me definitivamente aos cabelos de Capitou, mas então com as mãos, e disse-lhe,--para dizer alguma cousa,--que era capaz de os pentear, se quisesse.
--Você?
--Eu mesmo.
--Vai embaraçar-me o cabelo todo, isso sim.
--Se embaraçar, você desembaraça depois.
--Vamos ver.

CAPÍTULO XXXIII / O PENTEADO



E Capitu deu-me as costas, voltando-se para o espelhando. Peguei-lhe dos cabelos, colhi-os todos e entrei a alisá-los com o pente, desde a testa até as últimas pontas, que lhe desciam à cintura. Em pé não dava jeito: não esquecestes que ela era um nadinha mais alta que eu, mas ainda que fosse da mesma altura. Pedi-lhe que se sentasse.
--Senta aqui, é melhor.
Sentou-se. "Vamos ver o grande cabeleireiro", disse-me rindo. Continuei a alisar os cabelos, com muito cuidado, e dividi-os em duas porções iguais, para compor as duas tranças. Não as fiz logo, nem assim depressa, como podem supor os cabeleireiros de ofício, mas devagar, devagarinho, saboreando pelo tacto aqueles fios grossos, que eram parte dela. O trabalho era atrapalhado, às vezes por desazo, outras de propósito para desfazer o feito e refazê-lo. Os dedos roçavam na nuca da pequena ou nas espáduas vestidas de chita, e a sensação era um deleite. Mas, enfim, os cabelos iam acabando, por mais que eu os quisesse intermináveis. Não pedi ao céu que eles fossem tão longos como os da Aurora, porque não conhecia ainda esta divindade que os velhos poetas me apresentaram depois; mas, desejei penteá-los por todos os séculos dos séculos, tecer duas tranças que pudessem envolver o infinito por um número inominável de vezes. Se isto vos parecer enfático, desgraçado leitor, é que nunca penteastes uma pequena, nunca pusestes as mãos adolescentes na jovem cabeça de uma ninfa... Uma ninfa! Todo eu estou mitológico. Ainda há pouco, falando dos seus olhos de ressaca, cheguei a escrever Tétis; risquei Tétis, risquemos ninfa, digamos somente uma criatura amada, palavra que envolve todas as potências cristãs e pagãs. Enfim acabei as duas tranças. Onde estava a fita para atar-lhes as pontas Em cima da mesa, um triste pedaço de fita enxovalhada. Juntei as pontas das tranças, uni-as por um laço, retoquei a obra, alargando aqui, achatando ali, até que exclamei:
--Pronto!
--Estará bom?
--Veja no espelho.
Em vez de ir ao espelho, que pensais que fez Capitu? Não vos esqueçais que estava sentada, de costas para mim. Capitu derreou a cabeça, a tal ponto que me foi preciso acudir com as mãos e ampará-la; o espaldar da cadeira era baixo. Inclinei-me depois sobre ela rosto a rosto, mas trocados, os olhos de uma na linha da boca do outro. Pedi-lhe que levantasse a cabeça, podia ficar tonta, machucar o pescoço. Cheguei a dizer-lhe que estava feia; mas nem esta razão a moveu.
--Levanta, Capitu!
Não quis, não levantou a cabeça, e ficamos assim a olhar um para o outro, até que ela abrochou os lábios, eu desci os meus, e...
Grande foi a sensação do beijo; Capitu ergueu-se, rápida, eu recuei até à parede com uma espécie de vertigem, sem fala, os olhos escuros. Quando eles me clarearam vi que Capitu tinha os seus no chão. Não me atrevi a dizer nada; ainda que quisesse, faltava-me língua. Preso. atordoado, não achava gesto nem ímpeto que me descolasse da parede e me atirasse a ela com mil palavras cálidas e mimosas... Não mofes dos meus quinze anos, leitor precoce. Com dezessete, Des Grieux (e mais era Des Grieux) não pensava ainda na diferença dos sexos.







Artigo da revista Época:
Uma nação Capitu
Os olhos de ressaca, de cigana oblíqua e dissimulada da personagem de Machado de Assis são um patrimônio feminino brasileiro - Por Fernanda Montenegro













CAPITU
Luiz Tatit

De um lado
Vem você
Com seu jeitinho
Hábil, hábil, hábil
E pronto!
Me conquista
Com seu dom

De outro
Esse seu site
Petulante
WWW
Ponto
Poderosa
Ponto com

É esse o seu
Modo de ser ambíguo
Sábio, sábio
E todo encanto
Canto, canto
Raposa e sereia
Da terra e do mar
Na tela e no ar

Você é virtualmente
Amada amante
Você real é ainda
Mais tocante
Não há quem não se encante
Um método de agir
Que é tão astuto
Com jeitinho
Alcança tudo,
Tudo, tudo
É só se entregar
É não resistir
É capitular
Capitu
A ressaca dos mares
A sereia do sul
Captando os olhares
Nosso totem tabu
A mulher em milhares
Capitu
No site
O seu poder
Provoca o ócio, o ócio
Um passo para o vício
Vício, vício
É só navegar
É só te seguir
E então naufragar
Capitu
Feminino com arte
A traição atraente
Um capítulo à parte
Quase virus ardente
Imperando no site
Capitu
 






Microcontos


Segundo a Wikipédia, o microconto é uma espécie de conto minimalista. Apesar de ainda não ser reconhecido pela teoria literária, é apontado cada vez mais como o representante legítimo dos tempos modernos, informáticos, ágeis e apressados. O microconto é escrito em apenas uma linha - alguns o limitam a 100 ou 200 caracteres - e revela só o básico para que a imaginação do leitor faça o resto. Visite A Casa das Mil Portas e Dois Palitos.



Ufa!, suspirou ele, ao se ver novamente transformado em sapo.
Cora Ronai

Ergofóbico, pensou em trabalhar. Tornou-se político.
Eduardo Junqueira Ferreira

Maria sonhou que morria dormindo, não acordou.
Victor Az

Vim do futuro, não me quiseram lá.
Affonso Guerrero

Tinha muita gente dentro daqueles olhos. Foi fumar lá fora.
Christiana Nóvoa

Caim, cadê teu irmão? Não tenho irmão, responde sorrindo.
Maray Furnari

Especializou-se em maçãs envenenadas e fez carreira no cinema.
Cora Ronai


A História matou o romantismo. Foi inveja?
Emerson Santana

O Sol levantou mais cedo: o galo estava com insônia.
Rafael Reinehr

Ando meio desligado, estes dias quase caí num buraaaaaaa...
Rafael Reinehr

Largou o amor de sua vida por um copo de vinho e uma boa cantada.
Renata Marinho

Não conseguia amarrar a gravata, desistiu do casamento.
Daniel Q.

Colecionava relógios quebrados para parar o tempo.
Manoela Galende







Produção textual: microconto


A partir da leitura do romance Dom Casmurro de Machado de Assis produza um microconto - releitura.


Exemplos:


Desgraçado leitor... Por que insiste em acompanhar as casmurrice deste narrador?
Lisandre Mara klitzke

Os olhos agitados de Capitu tragaram tudo. Inclusive eu.
Lisandre Mara klitzke

Juntei as duas pontas da minha vida (o que sou e o que fui) e só enrendei a cabeça do meu leitor.
Lisandre Mara Klitzke

Maré alta. Dos olhos de Capitu, vazava água do mar.
Lisandre Mara Klitzke

Escobar foi arrebatado pelos olhos de ressaca. Não resistiu, morreu afogado.
Lisandre Mara klitzke

Otelo e Casmurro... dois homens envenenados por um sentimento: o ciúme.
Lisandre Mara Klitzke

Quem nunca traiu atire a primeira pedra em Capitu.
Lisandre Mara Klitzke

Todo homem tem seu calcanhar de Aquiles. Capitu era o meu.
Lisandre Mara Klitzke

Navegou por mares nunca d´antes vistos. Os "olhos de cigana oblíqua  e dissimulada de Capitu".
Lisandre Mara Klitzke













Ouça da aula da Profa. Lu do Colégio Objetivo sobre a obra Dom Casmurro: