quinta-feira, 6 de junho de 2013

CONTO: O ciclista de Dalton Trevisan

O ciclista

Curvado no guidão lá vai ele numa chispa. Na esquina dá com o sinal vermelho e não se perturba – levanta vôo bem na cara do guarda crucificado. No labirinto urbano persegue a morte como trim-trim da campainha: entrega sem derreter sorvete a domicílio.
É sua lâmpada de Aladino a bicicleta e, ao sentar-se no selim, liberta o gênio acorrentado ao pedal. Indefeso homem, frágil máquina, arremete impávido colosso, desvia de fininho o poste e o caminhão; o ciclista por muito favor derrubou o boné.
Atropela gentilmente e, vespa furiosa que morde, ei-lo defunto ao perder o ferrão. Guerreiros inimigos trituram com chio de pneus o seu diáfono esqueleto. Se não se estrebucha ali mesmo, bate o pó da roupa e – uma perna mais curta – foge por entre nuvens, a bicicleta no ombro.
Opõe o peito magro ao pára-choque do ônibus. Salta a poça d´água no asfalto. Nem só corpo, touro e toureiro, golpeia ferido o ar nos cornos do guidão.
Ao fim do dia, José guarda no canto da casa o pássaro de viagem. Enfrenta o sono trim-trim a pé e, na primeira esquina, avança pelo céu na contramão, trim-trim.
(Dalton Trevisan)

ATIVIDADES:

1- O conto é exemplo da prosa urbana da literatura contemporânea. Explique por quê.

2- A linguagem do conto é figurada. Explique as seguintes expressões:
a) “ Lâmpada de Aladino”_________________________________________
b) “...touro e toureiro,golpeia ferido o ar nos cornos do guidão.”__________________________________________________________

3- Dê uma interpretação `a última frase do conto.

4- Na expressão: “... levanta vôo bem na cara do guarda crucificado”.A expressão grifada está corretamente interpretada em:
(A) O guarda está descontente com o trânsito.
(B) O guarda abre os braços para expressar o caos do trânsito.
(C) O guarda sente-se explorado ao exercer sua função.
(D) O guarda fica de braços abertos para impedir o ciclista de ultrapassar o sinal.
(E) N.D.A.

5- O tratamento dispensado ao ciclista no trânsito da cidade grande está bem representado em:
(A) “Enfrenta o sono trim-trim.”
(B) “Guerreiros inimigos trituram com chio de pneus o seu diáfano esqueleto”.
(C) “Curvado no guidão lá vai ele numa chispa”.
(D) “...golpeia ferido o ar nos cornos do guidão”.
(E) “...desvia de fininho o poste e o caminhão;”

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Escrever, por quê?


Escrever, por quê?

Por que escrevo: como encontrar algo de original para dizer na décima, na quinquagésima ou centésima vez, sendo atenciosa como qualquer pessoa merece, sobretudo um estudante ou profissional das perguntas?
A resposta direta seria: escrevo porque sou ambivalente, insegura e desejosa de cumplicidade.
Mas, com uma pontinha de malícia, às vezes dou uma resposta torta: a questão não é por quê, mas “sobre o que escrevo”.
De que falo, então, ao fazer minha literatura?
Um dos rótulos usados em relação a isso é “ela escreve sobre mulheres”. Constatação falhada, pois mulheres não são meus personagens exclusivos, nem mesmo os mais elaborados: são homens e crianças, casas com sótão e porões, dramas ou banalidade. Falo também do estranho atrás de portas, mortos que vagam e vivos que amam ou esperam.
Escrevo sobre o que me assombra, às vezes desde a infância.
Escrever para mim é sobretudo indagar: continuo a menina perguntadeira que perturbava os almoços familiares querendo saber tudo, qualquer coisa, o tempo todo. Portanto, escrevo para obter respostas que – eu sei – não existem... por isso continuo escrevendo.
E escrevo sobre possibilidades de ser mais feliz – isso, eu sei também, depende um pouco de cada um de nós, de nossa honradez interior, nossa fé no ser humano, nosso compromisso com a dignidade. De sorte, e de decisões que muitas vezes só anos depois poderemos avaliar.
Falo do que somos: nobres e vulgares, sonhadores e consumidores, soprados de esperança e corroídos de terror, generosos e tantas vezes mesquinhos. Invento para minhas criaturas muito mais do que expresso em linhas ou silêncios – sempre o mais importante de um texto meu. Mesmo que nem mencione, sei se aquela mulher usa algodão ou sedas, se a escada range quando ela caminha – ainda que nenhum desses detalhes apareça no romance. Conheço a solidão daquele homem, se cultiva medos secretos, se pensa na morte, se desejaria ser mais amado.
E quando começo a “ser” essa pessoa, quando o clima da obra me envolve e arrasta, chegou o momento em que o livro quer ser escrito. Então estarei aberta a ele, escutando o que se passa no meu interior. Boa parte do que eu escrevo brota desse caldeirão de bruxas que é inconsciente e lucidez, memória e invenção, susto e amadurecimento.
São meus e não são, esses vultos com seus destinos e desatinos – que armo e desarmo. De repente aí estão meus personagens: um olho, o contorno de um perfil, um gesto, um riso ou uma tragédia, um silêncio e uma solidão. Persigo a sua busca de significados.
Escrevo porque tenho prazer em elaborar com palavras tantos destinos cujo fio nasce em mim, produzindo novelos para que eu trabalhe minhas tapeçarias.
Escrevo para seduzir leitores: venham ser cúmplices da minha perplexidade fundamental, essa que me move.
Não se pode esquecer também que escrevo propondo uma releitura dos valores familiares e sociais de meu tempo: cada um de meus romances pode e deve ser lido como uma denúncia da hipocrisia, da superficialidade e da mentira nos tipos de relacionamento mais estranhos ou mais comuns. Não é apenas o imponderável e misterioso que me interessa, mas o grande desencontro humano.
O escritor fala pelos outros. Trabalha para que os outros sonhem ou enxerguem melhor coisas que nem ele próprio adivinha – estão além de sua visão, mas dentro do seu pressentimento.
Talvez seja essa a função de toda a arte (se é que ela tem alguma): a libertação e o crescimento de quem a exerce e de quem a vai contemplar.
Nessa medida a pessoa do escritor é desimportante, valem os questionamentos que faz, e a forma com que elabora em textos a nossa essencial contradição – matéria viva de sua contemplação e arte.
(LUFT, Lya. Pensar é transgredir. Rio de Janeiro: Record, 2004. p.179-181.)
                                                        


1) Segundo Lya Luft, ela escreve porque é ambivalente, insegura e desejosa de cumplicidade. Assinale o item que não confirma essa afirmativa.
A) “(...) como encontrar algo de original para dizer na décima, na quinquagésima ou centésima vez, sendo atenciosa como qualquer pessoa merece, sobretudo um estudante ou profissional das perguntas?” (1º §)
B) “Falo do que somos: nobres e vulgares, sonhadores e consumidores, soprados de esperança e corroídos de terror, generosos e tantas vezes mesquinhos.” (9º §)
C) “Escrevo para seduzir leitores: venham ser cúmplices da minha perplexidade fundamental, essa que me move.” (13º §)
D) “Não é apenas o imponderável e misterioso que me interessa, mas o grande desencontro humano.” (14º §)

2) Há uma passagem em que a cronista parece não falar do leitor, mas com o leitor. Assinale a alternativa que comprova a afirmativa.
A) “Escrevo para seduzir leitores: venham ser cúmplices da minha perplexidade fundamental, essa que me move.” (13º §)
B) “Por que escrevo: como encontrar algo de original (...) sendo atenciosa como qualquer pessoa merece, sobretudo um estudante ou profissional das perguntas?” (1º §)
C) “Talvez seja essa a função de toda a arte (se é que ela tem alguma): a libertação e o crescimento de quem a exerce e de quem a vai contemplar.” (16º §)
D) “O escritor fala pelos outros. Trabalha para que os outros sonhem ou enxerguem melhor coisas que nem ele próprio adivinha – estão além de sua visão, mas dentro do seu pressentimento.” (15º §)

3) Levando em conta a discussão sobre a concepção de leitura e os três últimos parágrafos da crônica, assinale a opção que corresponde à visão de leitura da cronista.
A) O sujeito é o senhor absoluto de suas ações e de seu dizer e o texto é um produto, cabendo ao leitor um papel passivo, de captador ou receptor das intenções do autor.
B) O sujeito é assujeitado pelo sistema, e o texto é um produto da codificação de um emissor a ser decodificado pelo leitor, sendo necessário a este, para tanto, o conhecimento do código utilizado.
C) Os sujeitos ativos se constroem e são construídos no texto, que é o lugar da interação e da constituição dos interlocutores. O sentido do texto é construído na interação texto-sujeitos.
D) O sujeito é caracterizado por uma não consciência, já que o princípio explicativo de qualquer fenômeno e de todo e qualquer comportamento individual repousa sobre a consideração do sistema.

4) Há dois momentos que se destacam e se emaranham no seu decorrer: o motivo da escritura e o assunto da escritura. Assinale a afirmação que não define o tema.
A) “Talvez seja essa a função de toda a arte (se é que ela tem alguma): a libertação e o crescimento de quem a exerce e de quem a vai contemplar.” (16º §)
B) “Escrevo sobre o que me assombra, às vezes desde a infância.” (6º §)
C) “Invento para minhas criaturas muito mais do que expresso em linhas ou silêncios – sempre o mais importante de um texto meu.” (9º §)
D) “Portanto, escrevo para obter respostas que – eu sei – não existem... por isso continuo escrevendo.” (7º §)

5) A cronista define a matéria com a qual trabalha como “a nossa essencial contradição” e ela mesma, durante toda a crônica, demonstra a existência desse desencontro dentro de si. Assinale o item que não confirma essa constatação.
A) “Boa parte do que eu escrevo brota desse caldeirão de bruxas que é inconsciente e lucidez, memória e invenção, susto e amadurecimento.” (10º §)
B) “(...) escrevo para obter respostas que – eu sei – não existem... por isso continuo escrevendo.” (7º §)
C) “Escrevo porque tenho prazer em elaborar com palavras tantos destinos cujo fio nasce em mim, produzindo novelos para que eu trabalhe minhas tapeçarias.” (12º §)
D) “... venham ser cúmplices da minha perplexidade fundamental, essa que me move.” (13º §)

Palavras,palavras, palavras

Palavras, palavras, palavras

Criadas pelos humanos, as palavras são suscetíveis ao tempo, como os humanos. Algumas mudam de significado, outras vão desbotando aos poucos, e há as que morrem na inanição do silêncio. Ninguém mais chama o libertino de bilontra, a amante de traviata ou o inocente de cândido. Depois de soar na boca do povo e iluminar a escrita, bilontra, traviata e cândido foram sepultadas nos dicionários junto às que lá descansavam em paz. Em seus lugares brotam novas, frescas e saltitantes, com significado igual – ou quase. A língua é a mais genuína criação coletiva, feita da contribuição anônima. O agito das palavras traduz as mudanças do mundo – na ciência e tecnologia, na economia e política, nas leis e religiões, no comércio e publicidade, no esporte e comunicação, nos costumes e valores.
A palavra escalpo anda sumida porque não se arranca mais o couro cabeludo do inimigo. Não se mata na cruz nem se guerreia em buraco – crucificar e trincheira são metáforas. O Hino Nacional – impávido colosso, lábaro estrelado, clava forte – é um jazigo verbal. Sem o chapéu, descobrir-se é saber de si. Formidável: quem ainda diz? Semideus e semidivino agonizam por falta de fé. O reitor é magnífico?
Reveladoras são as palavras que, condenadas, estão na fase de desaparecimento. Perderam primazia e brilho, mas ainda são usadas. Escapam empoeiradas da boca da professora, embaçadas no verso do poeta, combalidas na memória do idoso, mortas no discurso do político. Observá-las em plena agonia é ouvir a sociedade.
Faz tempo não ouço a palavra cavalheirismo. Parece que a igualdade de direitos das mulheres botou fora o bebê, a água do banho e a bacia. Lá se foram também delicadeza e cordialidade: louvadas no passado, antes de sumir viraram sinônimo de perda de tempo. Pessoa cordial passou a ser chata, cheia de frescura, pé-no-saco, puxa-saco. Cortesia não morreu, mas mudou: agora quer dizer brinde, boca-livre, promoção! Crimes têm cúmplices, mas é rara a cumplicidade entre casais.
Leio jornais, revistas, livros, peças e roteiros contemporâneos de lápis na mão. Há anos não grifo a palavra honra. Nem os crimes passionais se explicam mais como defesa da honra. Quando encontro as palavras perdão e respeito, referem-se a autoridades. Já dever e sacrifício referem-se a voto e reajustes salariais. Encontro mais a desonesto do que a honesto. Não leio ou ouço, em lugar algum, a palavra compaixão: essa foi para o céu! Ética e educação, leio e ouço bastante. Mas surraram os sentidos até esvaziá-los, ficaram ocas, só sons e letras. Os novos sentidos são da conveniência e interesse pessoal de quem escreve ou fala. Os significados que lhes deram Aristóteles e Rousseau dormem na paz do dicionário.
Se as palavras morrem ou mudam de sentido, os gestos, intenções e atitudes que designam também morrem ou mudam de sentido. Cabe indagar: que sociedade é essa que sepulta o cavalheirismo, a delicadeza, a cordialidade e a compaixão? Que gente é essa que enterra a honra? Que país é esse que esvazia valores como educação e ética e faz da cortesia um gesto interesseiro? Que confere respeito e perdão aos poderosos e impõe aos destituídos o dever e o sacrifício?
Criadas pelos homens, palavras são do humano. Intriga sejam justamente as que dizem o mais humano do humano a perderem o sentido ou morrerem. Ou será que estamos perdendo o prazer da convivência? Ah, palavras, palavras, palavras...




ARAUJO, Alcione. Palavras, palavras, palavras. Estado de Minas, Belo Horizonte, 05 jul. 2010.Caderno Cultura, p. 8

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Jeca Tatu


Leia os textos a seguir:

Texto 01

JECA TOTAL

Jeca Total deve ser Jeca Tatu
Presente, passado
Representante da gente no Senado
Em plena sessão
Defendendo um projeto
Que eleva o teto
Salarial do sertão
Jeca Total deve ser Jeca Tatu
Doente curado
Representante da gente na sala
Defronte da televisão
Assistindo Gabriela
Viver tantas cores
Dores da emancipação
Jeca Total deve ser Jeca Tatu
Um ente querido
Representante da gente no Olimpo
Da imaginação
Imaginacionando o que seria a criação
De um ditado
Dito popular
Mito da mitologia brasileira
Jeca Total
Jeca total deve ser Jeca Tatu
Um tempo perdido
Interessante a maneira do tempo 
Ter perdição
Que dizer, se perder no correr
Decorrer da história
Glória, decadência, memória
Era de Aquarius
Ou mera ilusão
Jeca Total deve ser Jeca Tatu
Jorge Salomão
Jeca Total Jeca Tatu Jeca Total Jeca Tatu
Jeca Tatu Jeca Total Jeca Tatu Jeca Total
(GIL, Gilberto. Todas as Letras. Organização de Carlos Rennó. São Paulo: Companhia das Letras, 1996, p. 171.)


Texto 02
“Jeca Tatu! Eis o melhor exemplar que médicos, políticos, ou simples curiosos poderiam apresentar. Ali estava êle, o pobre Jeca, sempre de cócoras, incapaz de ação, amarelo e fraco, chupado pelas verminoses. Elemento negativo, entre as fôrças produtivas da nação, era preciso curá-lo, limpá-lo das gafeiras. O diagnóstico fora feito. Vozes autorizadas afirmavam que o problema vital do Brasil não era o de uma simples reforma constitucional, como apregoava a oposição, nem a simples modificação dos nossos costumes políticos, ou a militarização da mocidade, como viria pregando o poeta Olavo Bilac. O problema número um do país [...] residia no saneamento do país.”
(CAVALHEIRO, Edgar. Monteiro Lobato. Vida e Obra.São Paulo: Editora Nacional, 1955, p. 229-230.)


Texto 03
“A canção é uma metáfora da, ainda que penosa e minimamente processada, emancipação do homem do povo do Brasil, dentro do grande ciclo histórico da politização das massas, simbolizada num ente idealizado em lugar da imagem depreciativa do brasileiro inviável, paupérrimo, esfarrapado, descalço e cheio de verme.”
(GIL, Gilberto. Todas as Letras. Organização de Carlos Rennó. São Paulo: Companhia das Letras, 1996, p. 171.)


De acordo com os textos transcritos acima, entende-se que
A) há um consenso entre os projetos de nação que se apresentam na canção de Gilberto Gil e no personagem de Monteiro Lobato.
(B) há um contraponto idealizado entre os projetos de nação que se apresentam na canção de Gilberto Gil e no personagem de Monteiro Lobato.
C) há, tanto em Gilberto Gil quanto em Monteiro Lobato, uma metáfora do Brasil que se coloca em um patamar progressista no tocante à identidade da nação.
D) há, tanto em Gilberto Gil quanto em Monteiro Lobato, uma ideia de avanço que representa a valoração política do homem comum.


fonte:

10 dicas para não perder tempo ao escrever


10 dicas para não perder tempo ao escrever: 1 - Tenha algo a dizer
A primeira regra, então, para um bom estilo de texto é que o autor deve ter algo a dizer. Ou melhor, isso é, em si, quase todo o necessário.
(Arthur Schopenhauer, "On Style", Parerga e Paralipomena, 1851)

10 dicas para não perder tempo ao escrever: 2 - Diga
Pense de forma bastante clara e, depois, coloque isso da maneira mais simples que as palavras permitirem, como se você estivesse dizendo isso a um amigo.
(Frederic Harrison, "On Style in English Prose", Século 19, Junho, 1898)

10 dicas para não perder tempo ao escrever: 3 - Não espere pela inspiração
Se eu tivesse mencionado a alguém por volta de 1795 que eu planejava escrever, qualquer um com um pouco de senso me diria para escrever por duas horas todos os dias, com ou sem inspiração. Seu conselho teria me permitido me beneficiar nos dez anos da minha vida que eu gastei esperando pela inspiração.
(Stendhal [Marie-Henrie Beyle] Memoirs of na Egotist, 1892)

10 dicas para não perder tempo ao escrever: 4 - Seja simples
Use linguagem clara e simples, palavras curtas e sentenças breves. Essa é a maneira de escrever - é o jeito moderno e o melhor jeito. Prenda-se a isso. Não deixe os floreios e a verbosidade estragarem tudo.
(Mark Twain, Letter to D. W. Bowser, Março 1880)

10 dicas para não perder tempo ao escrever: 5 - Misture
Existem ocasiões em que as palavras mais simples e em menor número superam com vigor toda a riqueza da amplificação retórica. Um exemplo pode ser visto na passagem que tem sido a ilustração preferida dos dias de Longinus ao nosso. “Deus disse: Que haja luz! E existiu a luz.” Essa é a concepção do poder tão calma e simples que precisa apenas ser apresentada em poucas palavras. E seria enfraquecida e confundida por qualquer sugestão de acessórios. Embora essa sentença do Genesis seja sublime na sua simplicidade, nós não podemos concluir que sentenças simples são uniformemente melhores. O prazer dos leitores não deve ser esquecido e ele não pode se sentir satisfeito com um estilo que nunca flui. Um estilo duro, abrupto e deslocado irrita e confunde o leitor por seus solavancos repentinos. É mais fácil escrever frases curtas do que lê-las. As sentenças curtas, que são intoleráveis quando abundantes, quando usadas com moderação ficam perfeitas.
(George Henry Lewes, "The Priciples of Success in Literature", The Fortinghly Review, 1865)

10 dicas para não perder tempo ao escrever: 6 - Corte lenha
Aprenda a dividir madeira, pelo menos... Um trabalho estável com as mãos - que exige atenção - também é inquestionavelmente o melhor método de remover o palavrório e o sentimentalismo de um estilo, tanto falado quanto escrito. Nós somos frequentemente impressionados com a força e a precisão do estilo ao qual nós, homens que trabalham duro, sem prática na escrita, facilmente alcançados quando é necessário fazer um esforço. Como se clareza, vigor e sinceridade, os ornamentos de estilo, fossem melhor aprendidos na fazenda e na oficina do que nas escolas.
(Henry David Thoreau, A Week on the Concord and Merrimack Rivers, 1849)

10 dicas para não perder tempo ao escrever: 7 - Leia em voz alta
Aquele que quer saber se escreveu aquilo que deseja dizer, e como ele deve dizer isso, lê em voz alta para si mesmo. Mesmo que sua voz pareça separada dele como um auditor. Ou deixa fazê-lo como o astuto Moliere, que leu sua composição para seu cozinheiro. Se ninguém mais está a mão – leia para qualquer um que possa ouvi-lo – e o leitor irá tomar consciência das redundâncias, omissões, irrelevâncias e incongruências que sua própria sagacidade nunca perceberia. Mesmo um estúpido como auditor irá melhorar seu estilo.
(George Jacob Holyoake, Public Speaking and Debate: A Manual for Advocates and Agitators, 2º ed, 1896)

10 dicas para não perder tempo ao escrever: 8 - Escute
Eu sempre começo a minha tarefa lendo o trabalho do dia anterior, uma operação que me tomaria meia hora e que consiste essencialmente na pesagem do meu ouvido com o som das palavras e frases. Eu recomendaria fortemente essa prática para todos os escritores. Lendo o que você escreveu por último pouco antes de recomeçar sua tarefa, o escritor irá encontrar o tom e o espírito daquilo que ele disse antes, e evitará a falha de parecer contrário a si mesmo.
(Anthony Trollope, An Autobiography, 1883)

10 dicas para não perder tempo ao escrever: 9 - Desacelere e re-escreva
Você deve tentar contrariar em privado o trabalho feito rapidamente pelo jornalista, e os métodos de acabamento pronto a que ele conduz, com a lentidão e a maior atenção aos modelos mais ambiciosos. E quando eu digo “escrever”, acredite, re-escrever é essencialmente o que eu tenho na cabeça.
(Robert Louis Steveson, letter to Richar Harding Davis, 1889)

10 dicas para não perder tempo ao escrever: 10 - Corte
Em composições, como regra geral, você deve executar sua pena por meio de cada palavra escrita. Você não tem ideia do vigor que isso dá ao seu estilo.
(Sydney Smith, citado por Saba Holland em A Memoir of the Reverend Sydney Smith, 1855)





segunda-feira, 8 de abril de 2013

Realismo e Naturalismo - pesquisa


Trabalho de Literatura – Realismo/Naturalismo

1. Quais obras dão início ao Realismo/Naturalismo no Brasil? Quem são os seus autores?
2. Por que os artistas da época atribuíram à arte uma função social?
3.  Que diferenças existem entre o Realismo e o Naturalismo?
4. Explique por que o Naturalismo pode ser entendido como um aprofundamento do Realismo?
5. Leia atentamente o texto de Alceu Valença:   Como Dois Animais

Uma moça bonita
de olhar agateado
deixou em pedaços
o meu coração

Uma onça pintada
e seu tiro certeiro
deixou os meus nervos
de aço no chão

Foi mistério e segredo
e muito mais
foi divino o brinquedo
e muito mais
se amar como dois animais

Meu olhar vagabundo
de cachorro vadio
olhava a pintada
e ela estava no cio.

Era um cão vagabundo
e uma onça pintada
se amando na praça
como os animais

a) Você diria que o texto acima apresenta pontos comuns com o Naturalismo? Justifique sua resposta.

Leia o texto e responda as questões 6, 7 e 8.
"Mas o livro é enfadonho, cheira a sepulcro, traz certa contração cadavérica; vício grave, e aliás ínfimo, porque o maior defeito deste livro és tu, leitor. Tu tens pressa de envelhecer, e o livro anda devagar; tu amas a narração direita e nutrida, o estilo regular e fluente, e este livro e o meu estilo são como os ébrios, guinam à direita e à esquerda, andam e param, resmungam, urram, gargalham, ameaçam o céu, escorregam e caem..."
MACHADO DE ASSIS. Memórias Póstumas de Brás Cuba. In: Obra completa.
6.  Uma das mais evidentes características da ficção de Machado de Assis é a utilização da metalinguagem. O que vem a ser esse recurso? Exemplifique com o trecho.
7.  Como é a relação do narrador com o leitor, de acordo com o texto?
8. A ironia machadiana, tão celebrada, expressa-se também nesse trecho, através de uma certa visão do leitor e de seu gosto literário.
a)  Segundo o narrador, que preferências do leitor  o impediriam de gostar do livro?
b)  Essas preferências de estilo foram atendidas por que movimento  literário ironizado pelo narrador?

Se eu morresse amanhã!


(UFSCAR 2010) Leia o texto de Manoel Carlos.
Envelhecer já foi um milagre, um sonho e também uma sentença cruel. Nossos poetas românticos, por exemplo, almejavam a vida curta, cravejada de muita tosse, e olhos fundos, aureolados de acentuadas olheiras. E, quando a vida se estendia, sentiam-se traídos pelo Destino, envergonhados diante da posteridade. Consta mesmo que um deles, aos 22 anos, preocupado com a hora final que tardava a soar, declarava-se com 20 anos – a fim de ampliar a chance de ser colhido ainda na juventude. Acabou não desapontando ninguém, nem a si próprio. Foi ceifado aos 23 anos.
Não fosse o fim precoce de seus autores, a maior parte da poesia romântica não teria sido escrita. A maior e a melhor, porque em toda a obra de Álvares de Azevedo poucos poemas se comparam à beleza de Se Eu Morresse Amanhã. O poeta deu o último suspiro aos 20 anos.
(Veja, 15.07.2009.)

a) Identifique a vertente da literatura romântica brasileira referida no texto e aponte duas de suas características.

b) Leia o poema de Álvares de Azevedo, transcreva um fragmento e explique por que ele exemplifica as considerações sobre a literatura romântica brasileira apresentadas por Manoel Carlos.


Se Eu Morresse Amanhã!

Se eu morresse amanhã, viria ao menos
Fechar meus olhos minha triste irmã;
Minha mãe de saudades morreria
Se eu morresse amanhã!

Quanta glória pressinto em meu futuro!
Que aurora de porvir e que manhã!
Eu perdera chorando essas coroas
Se eu morresse amanhã!

Que sol! que céu azul! que doce n’alva
Acorda a natureza mais louçã!
Não me batera tanto amor no peito
Se eu morresse amanhã!

Mas essa dor da vida que devora
A ânsia de glória, o dolorido afã...
A dor no peito emudecera ao menos
Se eu morresse amanhã!

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Exercícios - linguagem e estilo


Associe os textos seguintes às características predominantes correspondentes a cada um deles. A seguir, marque a alternativa que contém a sequência CORRETA.

1. “Ali, por entre a folhagem distinguiram-se as ondulações felinas de um dorso negro, brilhante... era uma onça enorme. O índio sorrindo e indolentemente encostado ao tronco seco, não perdia um só desses movimentos, e esperava o inimigo com calma e serenidade (...)”
(O Guarani – José de Alencar)
2. “(...) Mas que vejo eu ali... que quadro de amarguras! É canto funeral!... Que tétricas figuras!... Era um sonho dantesco... Em sangue a se banhar.
Tinir de ferros... estalar do açoite... Legiões de homens negros como a noite. Horrendos a dançar...”
(Navio Negreiro – Castro Alves)
3. “No outro dia o herói acordou muito constipado. Era porque apesar do calorão da noite ele dormira de roupa com medo da Caruviana que pega indivíduo dormindo nu. (...) Porém quando se sentiu bom era manhãzinha e quem conta história de dia cria rabo de cutia...”
(Macunaíma – Mário de Andrade)
4. “Haveria um escândalo se as ararinhas-azuis estivessem morrendo uma após a outra nos manduvis do Pantanal (...) Mas não há escândalo nenhum com a morte – em ritmo quase diário – dos indiozinhos que vivem nas aldeias de Mato Grosso do Sul.”
(Revista Veja – 23.3.2005)
( )  Linguagem romântica em que se encontra uma aproximação com a língua viva. As frases são diretas, mas plenas de palavras decorativas.
( ) A linguagem é bem elaborada e até rebuscada. A construção formal é constante, havendo tratamento plástico das palavras e frases.
( ) Texto destituído de linguagem tradicional. Ausência de pontuação, havendo assimilações da linguagem oral e rimas internas.
( ) Texto claro, econômico, informativo. As frases são simples, diretas, elucidativas.

a) 1, 2, 3, 4
b) 2, 1, 4, 3
c) 1, 3, 2, 4
d) 3, 2, 4, 1
e) 1, 2, 4, 3

Navio Negreiro


PROCESSO SELETIVO UNAMA 2012/1
LEIA OS TEXTOS VERBAIS E O VISUAL A SEGUIR PARA RESPONDER ÀS QUESTÕES 01 E 02

Navio Negreiro
(Castro Alves)
(...) Desce do espaço imenso, ó águia do oceano!
Desce mais ... inda mais... não pode olhar humano
Como o teu mergulhar no brigue voador!
Mas que vejo eu aí... Que quadro d'amarguras!
É canto funeral! ... Que tétricas figuras! ...
Que cena infame e vil... Meu Deus! Meu Deus! Que horror!
(...) Era um sonho dantesco... o tombadilho
Que das luzernas avermelha o brilho.
Em sangue a se banhar.
Tinir de ferros... estalar de açoite...
Legiões de homens negros como a noite,
Horrendos a dançar...
(...) No entanto o capitão manda a manobra,
E após fitando o céu que se desdobra,
Tão puro sobre o mar,
Diz do fumo entre os densos nevoeiros:
"Vibrai rijo o chicote, marinheiros!
Fazei-os mais dançar!..."

Todo camburão tem um pouco de Navio Negreiro
(Marcelo Yuka – O Rappa)
(...) quem segurava com força a chibata
agora usa farda
engatilha a macaca
escolhe sempre o primeiro
negro pra passar na revista
pra passar na revista
todo camburão tem um pouco de navio negreiro
todo camburão tem um pouco de navio negreiro.


Garimpeiros da Serra Pelada (Sul do Pará)
(Sebastião Salgado (1986) http://www.terra.com.br/sebastiaosalgado)

01. O diálogo entre textos verbais e imagéticos não só é possível como também necessário para se ampliar possibilidades de estudo entre linguagens. A leitura dos textos do poeta Castro Alves, dos músicos da banda O Rappa e do fotógrafo documentarista Sebastião Salgado, nos permitem afirmar que há dialogismo entre eles.
Com base no comentário acima, avalie as afirmativas.
I. O poema de Castro Alves, as fotografias de Sebastião Salgado e a música de O Rappa, em suas formas de linguagem distintas, abordam o mesmo tema e promovem denúncias contra a violência.
II. A posição de visão (do alto) do fotógrafo, para realizar as fotos dos garimpeiros, remete à visão “condoreira” do poeta romântico, presente nos fragmentos de Navio Negreiro oferecidos à leitura.
III. Um movimento humano e árduo, evidente nos versos de Castro Alves, está sugerido plenamente também no texto imagético de Sebastião Salgado.
IV. A falta de individualidade no amontoado de pessoas retratado por Castro Alves também existe na “legião” de homens sem rostos tentando subir a serra, na imagem captada por Salgado.

O correto está em
a) II, apenas.
b) I e IV, apenas.
c) II e III, apenas.
d) I, II, III e IV.

02. “Baseando-se no conceito de cultura popular como apropriação de um determinado fato sociocultural, temos a correspondência intertextual da banda O Rappa (1994), buscando no Navio Negreiro de Castro Alves, século XIX, uma equivalência nas críticas sociais.”
(Juliana Machado de Brito, Darandim - Revista Eletrônica .www.ufjf.br/darandim).
Com base no comentário acima e nos textos lidos, avalie as afirmativas a respeito de Castro Alves, Sebastião Salgado e o grupo Rappa.
I. Estilizam violências de suas épocas buscando a mesma dimensão de impacto social.
II. Fazem parte de uma arte engajada que representa o Brasil metafórico da escravidão, da exclusão, da desigualdade.
III. Assumem o compromisso de interferir politicamente no processo social de conscientização da nação brasileira, criando um elo possível entre literatura, artes visuais, música e sociedade.
IV. Têm como única preocupação a concepção estética de uma vivência cotidiana mais aproximada da realidade.

O correto está apenas em
a) I, II e III.
b) II e III.
c) III e IV.
d) I. 

terça-feira, 2 de abril de 2013

Questão de estilo


Leitura


Questionário sobre leitura


Questionário


  1. 1.       Você come enquanto lê? Se sim, comidinha preferida de leitura?
  2. 2.      O que você gosta mais de beber enquanto lê?
  3. 3.      Você costuma marcar o livro enquanto o lê, ou a ideia de escrever em livros te aterroriza?
  4. 4.      Como você marcar onde parou enquanto está lendo? Marcadores? Orelhas nas páginas? Apoiando o livro aberto?
  5. 5.      Ficção, não-ficção, ou ambos?
  6. 6.      Você tende a ler até o fim do capítulo, ou consegue parar de ler em qualquer lugar?
  7. 7.      Você é do tipo de pessoa que arremessa o livro longe ou no chão se o autor te irrita?
  8. 8.      Se você encontra uma palavra que não conhece, você para e vai procurar seus significados na hora?
  9. 9.      O que você está lendo?
  10. 10.  Qual foi o último livro que você comprou?
  11. 11.  Você é o tipo de pessoa que lê apenas um livro por vez, ou consegue ler mais de um?
  12. 12.  Você tem um lugar/momento preferido para ler?
  13. 13.  Você prefere séries ou livros únicos?
  14. 14.  Tem algum livro ou autor que você se vê recomendando sempre?
  15. 15.  Como você organiza seus livros? (por gênero, título, sobrenome de autor etc.).

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Arcadismo - Um soneto para Marília


UEMG/ 2010
TEXTO 1
Irás a divertir-te na floresta,  
Sustentada, Marília, no meu braço, 
Aqui descansarei a quente sesta 
Dormindo um leve sono em teu regaço;  
Enquanto a luta jogam os pastores,  
e emparelhados correm nas campinas,
toucarei teus cabelos de boninas,
nos troncos gravarei os teus louvores 
Graças, Marília bela,
graças à minha estrela!
   (Tomás Antônio Gonzaga)

TEXTO 2
UM SONETO PARA MARÍLIA
                    À maneira de Dirceu

Eis que um dia na mata se banhava
Enquanto o deus as costas lhe voltava.
Cupido... e estava nu, inteiramente,                   
Pois que deixara à margem da corrente 

O arco terrível e a repleta aljava.                        
Só aguardava ocasião... E, de repente              
As armas furta sorrateiramente,
Surgem então as fauces escarninhas

Dos silvanos e sátiros astutos.
Põem-se a vaiar o Amor, sem mais cautelas
Marília que, às ocultas, o espreitava

—Ah! Temíeis as frechas quando minhas!
(E o deus sorri) Vereis agora, ó brutos,
O que Marília há de fazer com elas!
   (MARIO QUINTANA)

A respeito dos dois textos, observe os seguintes comentários:
I. Quanto ao gênero literário, o TEXTO 1  revela, encoberto na cena descritiva, um lirismo confessional, através do qual o eu poético expressa o seu amor, sua paixão.
II. O TEXTO 2 se constitui como paráfrase  do TEXTO I, ao reproduzir as mesmas ideias deste.
III. O TEXTO 2 mostra um locutor mais distanciado dos sentimentos e do confessionalismo amoroso;  quanto ao gênero literário, este texto traz uma tendência dominante do gênero narrativo.
IV. O TEXTO 2 contém insinuações humorísticas e sensuais que ‘desconstroem’ o clima lírico e confessional, presente na cena do TEXTO 1.
V. O TEXTO 2 centraliza seu foco de atenção à personagem Marília, numa tentativa de recuperar o confessionalismo amoroso escamoteado no TEXTO 1
VI. O TEXTO 2 desconstrói e dessacraliza a cena e o sentimento amoroso do TEXTO 1, constituindo-se como  paródia deste.

Está CORRETO o que se afirmou
A) apenas nos itens II, IV, V, VI.
B) apenas  nos itens I, III, V, VI.
C) apenas nos itens II, III, V, VI.
D) apenas nos itens I, III, IV, VI.